Foram sete dias de uma busca intensa para capturar um filhote de harpia na Mata Atlântica baiana. Durante quatro deles, a equipe se posicionou embaixo do ninho, em silêncio, de prontidão todo o tempo, a postos para caso o filhote fosse capturado. Era uma chance em milhares, mas as informações coletadas nesse procedimento poderiam ajudar a reescrever a história da espécie na região.
Desde 2005, quando o primeiro ninho de harpia foi encontrado no sul da Bahia, acompanho os esforços dos pesquisadores e parceiros locais em prol da conservação da espécie nessas reservas que protegem nossa floresta mais biodiversa.
Dessa vez, a missão do Projeto Harpia Mata Atlântica era tentar marcar um filhote com um dispositivo GPS, o que poderia produzir valiosos dados sobre a dispersão desse indivíduo e oferecer respostas a diversas questões da sobrevivência da espécie nos ambientes fragmentados da Mata Atlântica.

A expedição foi liderada pelo professor e pesquisador da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Dr. Áureo Banhos com destino à Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Estação Veracel, em Porto Seguro. A reserva, que abriga pelo menos outros três ninhos conhecidos da espécie, protege mais de 6 mil hectares de floresta, servindo de refúgio para espécies importantes no bioma, como a anta, a onça-pintada e, claro, a harpia.
“O sul da Bahia abriga os principais refúgios com reprodução confirmada de harpia na Mata Atlântica. A população é pequena, ainda pouco conhecida e distribuída entre áreas protegidas e remanescentes florestais nem sempre conectados, como a RPPN Estação Veracel, os Parques Nacionais do Pau-Brasil, do Monte Pascoal, do Descobrimento e da Serra das Lontras, a Reserva Biológica de Una e a RPPN Serra Bonita”, destaca o Dr. Áureo Banhos, coordenador do Projeto Harpia na Mata Atlântica.
O pesquisador explica que o estudo e manejo adequados dessa população como fonte pode abrir caminho para recolonização de áreas no bioma onde a harpia foi regionalmente extinta.

Os principais desafios são a perda e a fragmentação de florestas, o isolamento entre áreas protegidas e a necessidade de deslocamento por paisagens marcadas por linhas de transmissão e estradas. Somado a isso, está a baixa oferta de árvores de grande porte apropriadas para receber os ninhos da maior ave de rapina do Brasil, além da disponibilidade de animais que compõem sua dieta. “Esses impactos são agravados pelas características biológicas da harpia, que ocorre naturalmente em baixa densidade, necessita de extensos territórios e apresenta um ciclo reprodutivo lento”, alerta o pesquisador.
Compondo a equipe estavam ainda os médicos-veterinários Maria Valdetaro e Paulo Quadros e a bióloga Mylena Kaizer, todos pesquisadores do projeto e doutorandos pelo PPGBAN da UFES. Na assistência de campo estavam o fotógrafo e guia ornitológico, Jailson Souza e Sandro Dias, monitor ambiental na RPPN Estação Veracel.


A rotina de campo se iniciava com os primeiros raios de sol que penetravam as copas das árvores e ia até o anoitecer. As tentativas de captura começaram com o apoio do especialista em escalada de árvores, Olivier Jaudoin, que atua no projeto há quase duas décadas. Porém, como esse filhote foi bem precoce, ele acabou voando do ninho mais cedo que o usual, o que impossibilitou a captura utilizando a técnica de escalada.
Diante dessa questão, a equipe mudou de estratégia, tentando capturar o indivíduo com uma armadilha de laço colocada na árvore do ninho.

Nos dias seguintes, a equipe passou mais de 12 horas diariamente, aguardando por um momento que dependia somente do filhote. Entrar no laço da armadilha e possibilitar que todos os procedimentos de coleta de dados e colocação da mochila de GPS fossem feitos com agilidade e segurança.
Ao final do último dia de expedição, uma hora antes de a equipe levantar acampamento e desmobilizar, o bicho caiu no laço, para alegria dos pesquisadores, que puderam realizar todos os procedimentos. Medidas e amostras coletadas, transmissor instalado, e o filhote foi devolvido com segurança à natureza.






“O filhote marcado é um macho com aproximadamente quatro a cinco meses de idade. Trata-se do primeiro indivíduo dessa faixa etária monitorado por transmissor na Mata Atlântica e do segundo macho acompanhado por telemetria no bioma”, reforça Banhos.
O monitoramento permitirá acompanhar os deslocamentos da jovem harpia até o início da dispersão, quando deixa os cuidados parentais para ganhar o mundo. Essa é uma das etapas menos conhecidas e mais vulneráveis da vida de uma harpia.
Entre os principais dados a serem obtidos estão o tempo de permanência nas proximidades do ninho e dos pais, o início da exploração de novas áreas, as distâncias percorridas e a sua área de vida. Também será possível identificar os ambientes, fragmentos florestais e corredores de conectividade mais utilizados, além de avaliar como o jovem se desloca por uma paisagem marcada pela fragmentação, por áreas abertas, estradas e propriedades rurais, detalha o pesquisador.
Esses dados contribuirão para compreender melhor o processo de dispersão da espécie, potencial de recolonização de áreas e a capacidade da ave de atravessar áreas modificadas e os elementos da paisagem que favorecem ou dificultam seus movimentos. O transmissor permitirá ainda acompanhar sua sobrevivência e identificar possíveis situações de risco.
“As informações serão fundamentais para avaliar se a conectividade atual entre os remanescentes florestais é suficiente para possibilitar a movimentação e a dispersão da espécie entre as áreas protegidas da região”, conta Banhos. Os resultados poderão indicar ainda áreas prioritárias para proteção, restauração e implantação ou fortalecimento de corredores ecológicos.

“Esse marco representa um grande divisor de águas. Nós já realizamos o monitoramento por telemetria em três indivíduos adultos que recebemos para reabilitação, mas essa é a primeira vez que um filhote recebe esse dispositivo”, comemora Virginia Londe de Camargo, Gerente de Meio Ambiente e Gestão Integrada da Veracel.
No dia seguinte, as câmeras instaladas próximas ao ninho confirmaram que a pequena harpia estava saudável e tranquila, de volta ao seu ponto de referência. Em suas costas, na primeira imagem enviada pelo sistema de monitoramentos das câmeras remotas, é possível ver a mochila de GPS instalada, ferramenta que vai nos contar, a partir de agora, a história de um filhote de harpia na Mata Atlântica.
“Esse conhecimento permitirá que os pesquisadores ampliem ainda mais as estratégias de conservação dessa espécie, que é extremamente importante para o equilíbrio da floresta”, completa a gerente.


*O jornalista acompanhou a expedição a convite do Projeto Harpia Mata Atlântica com o apoio da RPPN Estação Veracel
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