Notícias

Projeto em Alta Floresta expande pontes artificiais que zeraram atropelamento de primatas

A instalação de oito novas estruturas de passagem de fauna no município reforça a bem-sucedida estratégia de conservação local para macacos amazônicos ameaçados

Duda Menegassi ·
21 de agosto de 2026

Por cima de passarelas suspensas sobre as ruas em Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, desfilam ocasionalmente macacos-aranha, saguis, guaribas, macacos-pregos e, claro, o zogue-zogue que leva o nome do município amazônico. A exibição da fauna é resultado do programa Alta Floresta Não Atropela, que começou no final de 2024 com a instalação de pontes de dossel entre as árvores nas margens de vias urbanas que permitem a travessia segura dos animais arborícolas. Em cerca de dois anos, a iniciativa somou mais de 15 mil travessias documentadas em armadilhas fotográficas e um resultado impressionante: taxa zero de atropelamento de primatas nos locais de travessia desde a instalação das passagens.

O êxito levou à segunda etapa do programa, com a instalação de oito novas passagens de fauna no município ao longo do mês de agosto – num total de 15 espalhadas por Alta Floresta. Os locais escolhidos, ao longo de quatro vias da cidade, representam pontos estratégicos com concentração de registros de incidentes com animais silvestres.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



“Os resultados mostram que as pontes não são apenas estruturas experimentais: elas são utilizadas diariamente pelos animais e oferecem uma alternativa segura para o deslocamento entre os fragmentos florestais. Alta Floresta está demonstrando que é possível conciliar desenvolvimento urbano, segurança viária e conservação da biodiversidade”, afirma a bióloga Fernanda Abra, coordenadora do Projeto Reconecta, responsável pelo programa.

Instalação das pontes de dossel, em estilo “3 em 1” que conectam as copas das árvores para que os animais atravessem com segurança. Foto: Projeto Reconecta

A nova etapa do programa conta ainda com a participação da companhia elétrica Energisa, que será responsável por fazer a adequação da rede elétrica próximo aos pontos de travessia para diminuir o risco de choques elétricos nos animais. 

A estratégia para conectar os fragmentos florestais e diminuir o atropelamento de animais arborícolas, ou seja, aqueles que vivem e se locomovem majoritariamente pelas árvores, tem contribuído diretamente para proteção de seis espécies de primatas amazônicos que já utilizam a estrutura. Com destaque para os ameaçados zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi) – que se tornou símbolo do município – e o macaco-aranha-da-cara-preta (Ateles chamek) – espécie que teve seu 1ª registro no país usando uma ponte artificial em Alta Floresta.

Zogue-zogue-de-Alta-Floresta, símbolo do município e uma das espécies ameaçadas beneficiadas pelas estruturas. Imagem: Projeto Reconecta

As primeiras sete pontes de dossel foram instaladas em outubro de 2024 e produziram um efeito imediato, zerando os registros de atropelamentos de primatas nas áreas diretamente beneficiadas pelas pontes. Os resultados foram reconhecidos internacionalmente e levaram Fernanda Abra a receber o Whitley Award 2024 e ser reconhecida pela National Geographic Society em junho deste ano.

O design das pontes artificiais usa um sistema conhecido como “3 em 1” que visa atender às diferentes necessidades das espécies que usam a estrutura, desde o enorme e longilíneo macaco-aranha até o pequeno e ágil sagui-de-schneider (Mico schneideri).

O modelo desenvolvido pelo Reconecta agora integra as orientações técnicas nacionais para a mitigação dos impactos das rodovias sobre a fauna do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

Além das passagens, o programa também investiu num outdoor em ponto estratégico que chama atenção para os números de travessias. Também há 40 placas de sinalização de travessia ao longo da cidade. Foto: Projeto Reconecta

Censo inédito no horizonte

A zona periurbana de Alta Floresta é o lar de seis espécies de macacos. Um dos próximos passos do Projeto Reconecta é justamente realizar o primeiro censo de primatas do município, em conjunto com pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) e da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Para fazer isso, serão utilizados desde trilhas específicas até drones termais. O levantamento será concentrado em quatro grandes fragmentos florestais do municípios: a Fazenda Anacã, a Reserva Surucuá, o Parque Zoobotânico Leopoldo Linhares Fernandes e a Floresta Experimental da UNEMAT.

A expectativa é que os dados sirvam de base para dar início a um acompanhamento regular da dinâmica populacional dos primatas no município, como destaca Luan Goebel, pesquisador do Projeto Reconecta responsável pelo censo. 

“Realizar o primeiro censo de primatas da área urbana de Alta Floresta é fundamental para conhecermos melhor o tamanho, a distribuição e a situação dessas populações nos fragmentos florestais do município. Mais do que produzir um retrato deste momento, queremos estabelecer uma linha de base científica e manter o monitoramento ao longo dos próximos anos. Pesquisas de longo prazo são essenciais para identificarmos mudanças populacionais, avaliarmos os efeitos da urbanização e das ações de conservação e orientarmos decisões mais eficazes para garantir a permanência dessas espécies em Alta Floresta”, explica o pesquisador.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
5 de setembro de 2025

Zogue-zogue: um símbolo para Alta Floresta, no Mato Grosso

O macaco zogue-zogue-de-Alta-Floresta, que já carrega o nome do município, é reconhecido por vereadores como símbolo da cidade amazônica

Reportagens
22 de julho de 2025

Macaco-aranha é registrado pela primeira vez em ponte artificial no Brasil

Primatas amazônicos pedem passagem em Alta Floresta, em pleno Arco do Desmatamento, com apoio de iniciativa que já instalou sete passagens de fauna na cidade

Reportagens
12 de dezembro de 2022

Lar cada vez menor: um macaco encurralado pelo desmatamento

Pesquisadores correm contra a destruição da Amazônia para garantir a sobrevivência do zogue-zogue de Mato Grosso, um dos primatas mais ameaçados do mundo

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.