Por cima de passarelas suspensas sobre as ruas em Alta Floresta, no norte de Mato Grosso, desfilam ocasionalmente macacos-aranha, saguis, guaribas, macacos-pregos e, claro, o zogue-zogue que leva o nome do município amazônico. A exibição da fauna é resultado do programa Alta Floresta Não Atropela, que começou no final de 2024 com a instalação de pontes de dossel entre as árvores nas margens de vias urbanas que permitem a travessia segura dos animais arborícolas. Em cerca de dois anos, a iniciativa somou mais de 15 mil travessias documentadas em armadilhas fotográficas e um resultado impressionante: taxa zero de atropelamento de primatas nos locais de travessia desde a instalação das passagens.
O êxito levou à segunda etapa do programa, com a instalação de oito novas passagens de fauna no município ao longo do mês de agosto – num total de 15 espalhadas por Alta Floresta. Os locais escolhidos, ao longo de quatro vias da cidade, representam pontos estratégicos com concentração de registros de incidentes com animais silvestres.
“Os resultados mostram que as pontes não são apenas estruturas experimentais: elas são utilizadas diariamente pelos animais e oferecem uma alternativa segura para o deslocamento entre os fragmentos florestais. Alta Floresta está demonstrando que é possível conciliar desenvolvimento urbano, segurança viária e conservação da biodiversidade”, afirma a bióloga Fernanda Abra, coordenadora do Projeto Reconecta, responsável pelo programa.

A nova etapa do programa conta ainda com a participação da companhia elétrica Energisa, que será responsável por fazer a adequação da rede elétrica próximo aos pontos de travessia para diminuir o risco de choques elétricos nos animais.
A estratégia para conectar os fragmentos florestais e diminuir o atropelamento de animais arborícolas, ou seja, aqueles que vivem e se locomovem majoritariamente pelas árvores, tem contribuído diretamente para proteção de seis espécies de primatas amazônicos que já utilizam a estrutura. Com destaque para os ameaçados zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi) – que se tornou símbolo do município – e o macaco-aranha-da-cara-preta (Ateles chamek) – espécie que teve seu 1ª registro no país usando uma ponte artificial em Alta Floresta.

As primeiras sete pontes de dossel foram instaladas em outubro de 2024 e produziram um efeito imediato, zerando os registros de atropelamentos de primatas nas áreas diretamente beneficiadas pelas pontes. Os resultados foram reconhecidos internacionalmente e levaram Fernanda Abra a receber o Whitley Award 2024 e ser reconhecida pela National Geographic Society em junho deste ano.
O design das pontes artificiais usa um sistema conhecido como “3 em 1” que visa atender às diferentes necessidades das espécies que usam a estrutura, desde o enorme e longilíneo macaco-aranha até o pequeno e ágil sagui-de-schneider (Mico schneideri).
O modelo desenvolvido pelo Reconecta agora integra as orientações técnicas nacionais para a mitigação dos impactos das rodovias sobre a fauna do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

Censo inédito no horizonte
A zona periurbana de Alta Floresta é o lar de seis espécies de macacos. Um dos próximos passos do Projeto Reconecta é justamente realizar o primeiro censo de primatas do município, em conjunto com pesquisadores da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) e da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Para fazer isso, serão utilizados desde trilhas específicas até drones termais. O levantamento será concentrado em quatro grandes fragmentos florestais do municípios: a Fazenda Anacã, a Reserva Surucuá, o Parque Zoobotânico Leopoldo Linhares Fernandes e a Floresta Experimental da UNEMAT.
A expectativa é que os dados sirvam de base para dar início a um acompanhamento regular da dinâmica populacional dos primatas no município, como destaca Luan Goebel, pesquisador do Projeto Reconecta responsável pelo censo.
“Realizar o primeiro censo de primatas da área urbana de Alta Floresta é fundamental para conhecermos melhor o tamanho, a distribuição e a situação dessas populações nos fragmentos florestais do município. Mais do que produzir um retrato deste momento, queremos estabelecer uma linha de base científica e manter o monitoramento ao longo dos próximos anos. Pesquisas de longo prazo são essenciais para identificarmos mudanças populacionais, avaliarmos os efeitos da urbanização e das ações de conservação e orientarmos decisões mais eficazes para garantir a permanência dessas espécies em Alta Floresta”, explica o pesquisador.
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