Reportagens

Quando a chuva vira gatilho: projeto propõe política nacional de saúde mental climática

Enchentes, queimadas e deslizamentos deixam marcas que vão além da destruição física. Campanha defende política permanente para cuidar da saúde mental de atingidas por eventos extremos

Mariana Dawas ·
22 de setembro de 2026

A água começa a cair e, para muitos, parece ser apenas mais um dia de chuva. Para Mariane Friedrich, porém, hoje o som da água tem outro significado. Desde as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024, uma mudança no tempo pode ser suficiente para trazer de volta memórias que pareciam ter ficado para trás. 

“Toda vez que chove fico em pânico”, comenta Mariane, de 36 anos, que no período das enchentes morava no bairro Sarandi, em Porto Alegre, um dos mais afetados da capital gaúcha. “Tive que ficar fora de casa por quase 60 dias e, depois, quando pude retornar, tivemos que limpar tudo. Ver as coisas que havíamos perdido foi muito triste e apavorante e, alguns meses depois, quando estávamos reconstruindo tudo, ficamos sabendo que teríamos que abandonar nossas casas.”

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A casa pode ter sido limpa, os móveis substituídos e a rotina reconstruída, mas retomar a vida depois de uma catástrofe não significa recuperar a sensação de segurança. “Antigamente o barulho da chuva era calmante, hoje em dia é terrível, traz lembranças ruins.”, conta.

Mariane já realizava tratamento para ansiedade e depressão antes das enchentes e, com a chegada das águas, as crises se intensificaram. Durante o período das intensas chuvas, ela ficou sem acompanhamento psicológico e, junto do impacto emocional, perdeu seus pertences e a moradia, deixando de ter o espaço que antes era conforto e segurança.

Hoje, relata que ainda convive com as marcas deixadas pela tragédia e enfrenta dificuldades para acessar o atendimento de que necessita. “Eu fazia tratamento no posto de saúde e, depois da enchente, ficou um pouco complicado, pois o posto também foi afetado. Agora faz um ano que me mudei e o posto perto do meu apartamento está sem médico, então sigo sem tratamento”. 

Mas o impacto, segundo ela, não ficou restrito à experiência individual. Os vizinhos também enfrentaram as consequências emocionais da tragédia. “Todos os meus vizinhos ficaram muito abalados. Muitos também já tinham ansiedade e depressão e disseram que piorou bastante. Com certeza nos unimos muito. Se não fosse essa união, acho que teria sido bem pior.”, diz Mariane.

A vida antes e depois do evento

O relato mostra que a enchente não terminou quando a água recuou e, para a psicóloga Sheila Cardoso, que acompanhou pessoas afetadas pelo desastre, abrigos coletivos e voluntários envolvidos na reconstrução, o sofrimento pode perdurar e se expressar no desgaste mental no longo prazo. “Essas sensações como medo de novas chuvas, dificuldade para dormir, ansiedade, sentimento de impotência, pânico e outros sentimentos se projetam como sintomas pós traumáticos e afetam todos os envolvidos”, explica a especialista.

Segundo a psicóloga, a experiência das enchentes também aparece nos relatos como um divisor na trajetória de quem passou pelo desastre. “Existe uma vida antes e uma vida depois”, observa. A frase aparece de diferentes formas nos relatos de pessoas que acompanhou. A enchente passa a ser uma referência temporal coletiva para reorganizar memórias, perdas e mudanças.

Os números também ajudam a dimensionar aquilo que nem sempre aparece nas imagens de ruas alagadas e casas destruídas. Uma pesquisa do IBGE sobre as enchentes de 2024 mostrou que 67,5% dos moradores das áreas pesquisadas disseram ter tido a saúde mental abalada. Entre os domicílios atingidos, esse foi o impacto pessoal mais citado pelas famílias. 

Equipe do ICMBio está apoiando ações de resgate aos desaparecidos em Petrópolis, em fevereiro de 2022. Foto: Equipe APA Petrópolis/NGI Teresópolis

Além dos sintomas traumáticos frequentemente observados em pessoas que tiveram suas casas e meios de vida afetados, eventos climáticos extremos podem produzir consequências que ultrapassam a experiência individual e atingem comunidades inteiras.  O chamado Trauma Coletivo Climático é uma expressão utilizada para abordar os efeitos emocionais, psicológicos, sociais e comunitários produzidos quando uma população vivencia conjuntamente uma situação de desastre ou ameaça climática, para ampliar o olhar para além do sofrimento individual. Uma enchente, por exemplo, pode interromper relações de vizinhança, desestruturar atividades econômicas, deslocar famílias, interromper a rotina escolar de crianças e adolescentes e alterar a relação das pessoas com o próprio território.

O mesmo pode acontecer em diferentes tipos de eventos extremos. Secas prolongadas podem comprometer o trabalho e a renda dos agricultores. Queimadas podem provocar perdas materiais, deslocamentos e medo recorrente. Deslizamentos podem retirar famílias de seus territórios. Ondas de calor também podem afetar de maneira desigual pessoas já expostas a condições de vulnerabilidade. O Ministério da Saúde já reconhece que eventos climáticos extremos podem causar sofrimento psicológico e impactos psicossociais que permanecem depois da ocorrência do desastre. 

Do trauma à política pública

Esta realidade menos visível dos desastres climáticos é o que uma campanha chamada Saúde Mental Climática quer trazer para o debate público: o sofrimento emocional, psicossocial e comunitário provocado por eventos extremos. Para Luciana Brafman, fundadora da Time To Act e articuladora da campanha, a resposta aos desastres ainda deixa uma lacuna quando o assunto é o cuidado com a saúde mental. 

Luciana é advogada, produtora, diretora e ativista climática, e hoje atua como consultora da ONU para políticas públicas sobre clima, sustentabilidade e bem-estar das comunidades. Para ela, a reconstrução costuma se concentrar na recuperação de casas, estradas e equipamentos públicos, que ela afirma ser uma parte importante, mas o sofrimento emocional das pessoas e das comunidades às vezes é deixado de lado.

“A Time to Act começou deste incômodo, de olhar para a crise climática por um lado humanitário. Eu observei um terremoto que ocorreu nas Filipinas em 2019 e mais de um ano e meio depois ainda havia muitas pessoas morando nas ruas em barracas. Isso desestrutura uma família inteira e tem impactos enormes no longo prazo, levou até ao agravamento da crise de opióides, isso mexeu muito comigo”, confessa Luciana. Ela conta que acompanhou as sucessivas chuvas que atingiram o Sul do país: “pensei, como um ser humano consegue passar por tudo isso, vizinhanças inteiras destruídas e depois sendo atingidas novamente em tão pouco tempo. Me vi naquelas pessoas e neste momento percebi a importância de um apoio psicossocial.” 

A seca registrada no Amazonas foi um dos eventos climáticos extremos que marcaram 2023, o ano mais quente já registrado pela humanidade. Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

Assim, a mobilização passou a defender uma mudança na forma como o país responde aos eventos extremos. A proposta é incorporar a saúde mental ao planejamento das emergências climáticas, e não tratá-la apenas como uma resposta pontual depois que o desastre acontece. “Claro que o apoio inicial com alimentação e abrigo é fundamental, mas o lado psicológico também é importante. Fomos ao Rio Grande do Sul e fizemos entrevistas e as pessoas seguiam traumatizadas, muitas vezes sem nem perceber isso.” 

Ela comenta que para além de ver a situação como uma questão de saúde mental climática, é preciso observar o Trauma Coletivo Climático. “O SUS possui diretrizes para situações semelhantes, mas na minha visão era preciso uma prática coletiva. A ideia é trabalhar em conjunto com políticas públicas já existentes no Brasil e ampliar, fazer com que elas se encaixem nessas novas necessidades que vieram com as crises climáticas.”

A discussão acabou por gerar o Projeto de Lei 6151/2025, de autoria dos deputados Pompeo de Mattos (PDT) e Fernanda Melchionna (PSOL), que segue em tramitação na Câmara dos Deputados e aguarda análise da Comissão de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional. O PL propõe uma Política Nacional de Saúde Mental Climática e prevê ações de atenção psicossocial antes, durante e depois de eventos climáticos extremos. O que se busca é organizar uma resposta que acompanhe todo o ciclo do desastre, desde a preparação das equipes e das comunidades, passando pelo atendimento durante a emergência e pela continuidade do cuidado na fase de reconstrução.

A proposta busca articular diferentes áreas do poder público, como saúde, assistência social, educação e defesa civil. Entre as diretrizes previstas estão a oferta de atendimento multiprofissional e de medidas de apoio que levem em conta as necessidades individuais e comunitárias, além da reconstrução de vínculos e do fortalecimento da vida comunitária.

O público atendido não se restringiria às pessoas que apresentam sintomas após um desastre. O projeto prevê atenção a familiares, crianças, adolescentes, idosos, pessoas com deficiência, profissionais que atuam na linha de frente das emergências e comunidades expostas a riscos climáticos. A preparação de equipes, a identificação de populações vulneráveis, a criação de protocolos, o atendimento durante a emergência e o acompanhamento no período de reconstrução fariam parte de uma mesma política. A proposta também considera as diferentes condições de vulnerabilidade socioambiental dos territórios.

Além disso, é apontada a criação de um Sistema Nacional de Saúde Mental Climática, para integrar serviços, produzir dados e articular ações entre saúde, assistência social, educação e outras áreas, e de Centros de Resiliência, Cura e Reconstrução de Comunidades, voltados ao atendimento especializado e à reconstrução emocional e comunitária após desastres. 

  • Mariana Dawas

    Estagiária de jornalismo. Formada em Relações Internacionais pela PUC-RS, estudante de Jornalismo na UFRGS e fotógrafa freelancer.

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