Reportagens

Uma causa, muitos efeitos

Relatório da Organização Mundial de Saúde mostra que 80% das doenças mais freqüentes estão ligadas a problemas ambientais, causando 13 milhões de óbitos.

Andreia Fanzeres ·
19 de junho de 2006 · 20 anos atrás

Degradação ambiental mata. Segundo relatório divulgado sexta-feira pela Organização Mundial de Saúde (OMS), 24% das enfermidades conhecidas no mundo e 23% de todas as mortes são causadas por desequilíbrios ecológicos. Isso significa mais de 13 milhões de óbitos todos os anos, com um agravante: as doenças em questão poderiam ser evitadas com esforços mínimos e básicos para garantir a qualidade de vida. Como acesso à água potável, higiene, uso de fontes mais limpas de energia, mais cautela no manejo de químicos e melhor planejamento urbano.

O estudo Preventing disease through healthy environments – towards an estimate of the environmental burden of diseases, mostra que descasos como esses provocam mais de 40% das mortes por malária e 94% dos falecimentos decorrentes de doenças ligadas à diarréia. Além disso, são o motivo de aproximadamente um terço das mortes e doenças em países em desenvolvimento. Mais de 33% dessas enfermidades acometem crianças menores de cinco anos. O documento mostra também que a taxa de mortalidade provocada por questões ambientais nesse grupo é 12 vezes superior nos países em desenvolvimento do que nos desenvolvidos.

A análise envolveu estudos anteriores e pesquisas recentes de 100 especialistas espalhados pelo mundo, que não só identificaram as doenças impactadas por determinados riscos ambientais, mas também o quanto. Um dos resultados é uma espécie de lista com os problemas que precisam ser sanados com mais urgência em termos de saúde e meio ambiente.

Casos mais graves

No topo do ranking está a diarréia, provocada pela má qualidade das águas, deficiências sanitárias e de higiene. Em seguida, aparecem infecções respiratórias que se manifestam devido à poluição do ar – o que representa 41% de todos os casos no mundo. Depois, problemas como acidentes industriais e em ambiente de trabalho, como exposição à radiação – categoria que tem 44% dos casos atribuídos a fatores ambientais.

O estudo mostra ainda que 42% dos casos de malária surgem por causa de maus cuidados com a terra e com o uso da água. Além disso, planejamentos urbanos fracos e carência nos sistemas de transporte causam 40% dos registros de acidentes nas estradas. Entre as principais fatalidades, o relatório ainda dá ênfase a uma doença que gradativamente causa perda da capacidade pulmonar e doenças perinatais.

Agora, existe a relação de doenças referentes às principais causas de morte no mundo, independentemente do motivo. Nesse caso, os óbitos decorrentes de problemas cardiovasculares lideram – o que não está diretamente ligado a questões ambientais. Depois vêm os casos de diarréia, infecções respiratórias e câncer. Mas, segundo o relatório, de uma forma ou de outra o meio ambiente afeta substancialmente mais de 80% dessas enfermidades mais freqüentes na população mundial. E esse número pode ser maior, uma vez que a pesquisa se restringiu àqueles problemas ambientais que podem ser solucionados com políticas e tecnologias já existentes.

Os pesquisadores que assinam o estudo da OMS demonstraram através de mapas de que maneira as mortes e as doenças atribuídas a causas ambientais estão distribuídas no mundo. Cerca de 25% dos óbitos acontecem em áreas em desenvolvimento. E 17% deles em países desenvolvidos. Entretanto, eles mesmos fazem uma ressalva: embora esses números representem uma contribuição significativa diante do total de doenças, ainda assim trata-se de uma estimativa conservadora, já que não se conhecem as causas de muitas enfermidades.

O estudo estabeleceu também uma medida para estimar o número de anos perdidos por pessoa exposta aos problemas ambientais. As maiores discrepâncias foram observadas no grupo das doenças infecciosas. O total de anos de vida perdidos por causa delas é 15 vezes mais alto em países em desenvolvimento do que nos desenvolvidos. Nos casos mais extremos, essa diferença é 120 e 150 vezes mais elevada devido às doenças infecciosas e à diarréia, respectivamente, se as áreas mais impactadas forem comparadas com as menos.

De acordo com o Dr. Anders Nordström, diretor-geral da OMS, a análise é a maior contribuição já elaborada para definir como meio ambiente e saúde estão ligados. Através de investimentos para manter a qualidade dos recursos naturais, promove-se por conseqüência saúde e desenvolvimento. Se a questão era arrumar diferentes formas de dizer a mesma coisa e se o argumento vale para preservar o meio ambiente, o recado foi dado. Os governos salvam vidas e diminuem gastos com saúde tratando melhor da natureza.

  • Andreia Fanzeres

    Jornalista. Coordena o Programa de Direitos Indígenas, Política Indigenista e Informação à Sociedade da OPAN.

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