
A conservação mantém de pé a economia que o mar produz
Como uma natureza conservada sustenta milhares de empregos, renda e atividades produtivas no litoral brasileiro
Reportagem
Aldem Bourscheit
Em Abrolhos, um dos pontos mais biodiversos do Atlântico Sul, a conservação ambiental não é apenas uma questão ecológica. Também é, na prática, um motor que sustenta milhares de empregos e movimenta bilhões de reais no litoral brasileiro.
O arquipélago não atrai visitantes apenas pelos cenários arrebatadores, com ilhas pedregosas cercadas por águas de azul hipnotizante, recifes de corais, atobás, tartarugas e baleias que migram desde a Antártica. Ali, natureza preservada e atividade econômica caminham juntas.
Isso é reforçado num estudo da ong WWF-Brasil mostrando que pesca e turismo sustentaram, só em 2024, mais de 32,3 mil empregos diretos e R$ 795,1 milhões em renda direta na região. Somados os efeitos em outros setores, os benefícios sobem para 97,1 mil empregos e R$ 1,9 bilhão movimentados.
Mais do que dimensionar impactos positivos, esses números apontam para uma lógica simples, mas muitas vezes esquecida. “A base de tudo é a conservação”, destaca Josângela Jesus, chefe do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, o primeiro da categoria, criado em 1983.
O valor equivale ao lucro bruto de até 889 mil hectares de soja em uma safra no Mato Grosso ou supera a economia anual de cidades como Prado e Caravelas. Ainda assim, é no próprio local que esses efeitos se distribuem de forma mais clara.
No balanço da entidade civil, o turismo tem maior peso em números absolutos, com 21.931 empregos e mais de R$ 611 milhões em renda, com o município de Porto Seguro como carro-chefe regional.
Já a pesca respondeu por 10.436 empregos diretos e mais de R$ 183 milhões em renda direta, com maior força em municípios como Canavieiras, Alcobaça, Caravelas e Prado, na Bahia, e São Mateus, Linhares e Conceição da Barra, no Espírito Santo.
“As unidades de conservação são amigas da pesca”, avalia José Truda Palazzo Júnior, coordenador do Instituto Baleia Jubarte (IBJ), voltado à pesquisa e conservação desse grande mamífero marinho. Isso ajuda a explicar por que especialistas defendem a ampliação urgente das áreas protegidas.



Visitação aquecida
Em 2024, o parque brasileiro recebeu quase 17 mil visitantes e ajudou a manter 233 empregos no turismo, setor ambiental e entre microempreendedores individuais, com R$ 7 milhões injetados sobretudo na economia de Caravelas – principal ponto de partida ao arquipélago, a 70 km da costa.
Programas especiais buscam ampliar o acesso à área protegida, permitindo que moradores locais – incluindo quilombolas e indígenas – também visitem o parque e se reconheçam como parte de sua conservação.
Por trás desses números está um dos ambientes mais biodiversos do mundo, onde processos ecológicos ultrapassam os limites legalmente protegidos. A vida ali abrigada transborda para manguezais, estuários e outras áreas habitadas por peixes, crustáceos, aves, tartarugas e grandes animais.
“A região é o ponto mais quente da biodiversidade em todo o Atlântico Sul. Boa parte das espécies usa habitats distintos ao longo da vida, do mangue ao recife”, descreve o biólogo Guilherme Dutra, secretário-executivo do coletivo Abrolhos para Sempre.
O estudo do WWF-Brasil reforça essas funções ao tratar as unidades de conservação como parte de uma rede de ativos ambientais que sustenta economias variadas na Bahia e no Espírito Santo. No conjunto, as dez áreas protegidas analisadas respondem por 29.163 empregos e R$ 536,3 milhões em renda.
As maiores contribuições vêm do bloco Parque Nacional e Reserva Extrativista (Resex) de Cassurubá, com 7.139 empregos e R$ 126,6 milhões, seguido pela Resex Canavieiras, com 5.897 empregos e R$ 106,1 milhões, e pela Resex Corumbau, com 5.544 empregos e R$ 105,3 milhões.
São contas que desmantelam o discurso frequente de que a proteção ambiental não traz benefícios econômicos. “Não é conservação versus desenvolvimento, mas sim conservação para um desenvolvimento sustentável”, reforça Marina Corrêa, líder da agenda de oceanos do WWF-Brasil.



Altos e baixos da maré
Abrolhos, como outras áreas protegidas, enfrenta desafios de conservação. Josângela Jesus lembra que sua proteção depende de um esforço diário e caro, em um espaço sem cercas, onde o monitoramento ocorre 365 dias por ano com apoio de satélites e fiscalização constante.
Ainda assim, persistem a pesca ilegal, o risco de mineração e outras pressões externas – muitas fora da alçada da gestão local.
Nesse cenário, especialistas também elencam fragilizações recentes na gestão do parque nacional, como o fim de sua zona de amortecimento, desde 2007, o que reduziu o controle sobre atividades em seu entorno direto.
Marina Corrêa acrescenta a esse quadro o impacto da crise climática. “Não basta cuidar do que já existe. É preciso fortalecer a gestão e ampliar o sistema de proteção regional”, defende.
Hoje, o parque cobre apenas cerca de 2% do Banco de Abrolhos – uma região influenciada pelo que acontece em terra, mar e rios. Seus 45 mil km2 equivalem ao tamanho da Dinamarca ou a pouco mais que o estado do RJ.“Qualquer avanço em proteção precisa ser participativo e dialogar com quem vive da pesca, do mangue e da maré”, ressalta Corrêa. No entanto, essas mesmas populações – que ajudam a manter as áreas naturais – ainda enfrentam desafios básicos em seus territórios.
*Foto da capa: Roberto Costa Pinto / Creative Commons
Esta reportagem de ((o))eco foi produzida com apoio da WWF Brasil.
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