Reportagens

Recifes, jubartes e a conta global da proteção marinha

A biodiversidade marinha que conecta o litoral brasileiro a desafios climáticos e metas internacionais de conservação

Aldem Bourscheit ·
23 de abril de 2026

Abrolhos não é um ponto isolado no mapa. O grande banco entre o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo abriga a maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul e funciona como um dos principais berçários de baleias-jubarte nessa parte do oceano, cujas populações se recuperam com o fim da caça.

São papéis como esses que projetam Abrolhos para além do interesse local, já que o que acontece ali afeta cadeias ecológicas, econômicas e climáticas que extrapolam os domínios brasileiros.

Os corais talvez sejam a face mais eloquente dessa conexão entre o local e o global. Eles abrigam uma diversidade extraordinária de espécies e prestam serviços que costumam passar despercebidos até começarem a falhar, como manter a pesca, atrair turistas, amortecer a força do mar e proteger o litoral.

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Essas funções têm ligações diretas com políticas públicas. “Nos ecossistemas costeiro-marinhos convivem funções ligadas à segurança alimentar, à proteção da costa e à mitigação climática”, reforça Marina Corrêa, líder da agenda de oceanos do WWF-Brasil.

Nesse contexto, as áreas protegidas ganham um papel estratégico. Elas não resolverão a crise climática sozinhas, mas podem reduzir impactos cumulativos, ampliar a resiliência dos ambientes naturais e seguir beneficiando economias em terra e mar. 

No caso dos corais, a lógica é quase didática. Eles podem branquear com o calorão, mas se estiverem em ambientes saudáveis, com menos sedimento, menos esgoto e menos sobrepesca, têm chance de resistir e se recuperar. “Sem isso, morrem com muito mais facilidade”, diz Corrêa. 

Por isso, ampliar e fortalecer a rede de unidades de conservação no Banco de Abrolhos deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a ser também uma estratégia climática e econômica.

Cardume entre os recifes de Abrolhos e visitante com camisa do coletivo Abrolhos para Sempre, formado por organizações da sociedade civil, cientistas, cidadãos e órgãos públicos que atuam pela conservação da região dos Abrolhos. Fotos: Eduardo Melo / Instituto Baleia Jubarte / WWF-Brasil

Além dos números

Essa discussão se conecta diretamente a metas internacionais como a de conservar 30% do planeta, até o fim da década. O Brasil já protege 27% da região marinha. Mas, como ressalta Corrêa, o desafio vai além dos números. “É preciso garantir representatividade ecológica, conectividade, gestão eficaz e respeitar as comunidades tradicionais”. 

Ou seja, não basta ampliar áreas “no papel”. É preciso que elas funcionem, estejam conectadas e mantenham os processos ecológicos que sustentam a biodiversidade e as economias.

No caso do parque nacional, especialistas defendem que sejam abrigadas formações únicas hoje fora de seus limites, como rodolitos, buracas, chapeirões, todas com alto potencial turístico e usadas como abrigo e na reprodução e crescimento de inúmeras espécies. 

“Chegar ao fim deste ano com proposta defensável de ampliação já será positivo”, avalia José Truda Palazzo Júnior, coordenador de Desenvolvimento Institucional do Instituto Baleia Jubarte (IBJ). 

O budião-azul, por exemplo, é um peixe muito capturado fora das áreas protegidas e que tem uma recuperação lenta, compondo um bom símbolo do que está em jogo quando a proteção fica menor do que o tempo e espaço mínimos para recuperação das espécies.

A ligação de Abrolhos com o restante do planeta também passa pelas jubartes.

O azul hipnotizante das águas rasas no Parque Nacional Marinho de Abrolhos, no litoral da Bahia. Foto: Gustavo Abrahim / Creative Commons

A recuperação da espécie nas últimas décadas costuma ser celebrada como uma rara boa notícia ambiental. Tal sucesso já reflete em outras regiões, como Ilhabela (SP), onde pode se consolidar um polo de observação de jubartes. 

Mas especialistas evitam qualquer triunfalismo. Afinal, a população atual da espécie ainda é uma fração do que existia antes da destruidora caça comercial. Além disso, com o fim do extermínio surgiram novos riscos, como trombadas com embarcações, enrosco em redes e poluição.

“Diante disso, é preciso reforçar a proteção das áreas-chave no ciclo de vida das baleias, como o Banco dos Abrolhos, e também de seus longos corredores migratórios”, afirma Truda. A ida e a volta da Antártica ao Brasil somam cerca de 10 mil km anuais.

Além do apelo simbólico e turístico, as jubartes exercem um papel ecológico relevante, pois ajudam a fertilizar as camadas superficiais do oceano e contribuem para o equilíbrio dos ecossistemas marinhos mundiais. Há grupos migrando nos dois hemisférios e nos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico.

No fundo, a situação da região de Abrolhos desafia o Brasil a realmente conservar um patrimônio natural único, multiplicando renda e empregos, mantendo pessoas nos ambientes naturais e ajudando o mundo a enfrentar as crises do clima e da perda de biodiversidade.

*Foto da capa: Mia Morete / Creative Commons

Esta reportagem de ((o))eco foi produzida com apoio da WWF Brasil.

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo há mais de duas décadas temas como Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Agron...

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