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Cortando Portugal em postas

Há mais de uma década, país integra movimento para a criação de trilhas que cortarão milhares de quilômetros entre belas paísagens de membros da Comunidade Européia.

3 de novembro de 2008 · 17 anos atrás
Ruínas de um forte setecentista no litoral de Sezimbra, com sinalização da trilha E-9 no canto superior direito. (Foto: Pedro Menezes)
Ruínas de um forte setecentista no litoral de Sezimbra, com sinalização da trilha E-9 no canto superior direito. (Foto: Pedro Menezes)
Sinalização para trilha em árvore no interior de Portugal. (Foto: Pedro Menezes)
Sinalização para trilha em árvore no interior de Portugal. (Foto: Pedro Menezes)

Naturalmente, nem a E-9 ou alguma outra dessas trilhas de fazer Marco Polo salivar estão prontas. A idéia é que todas elas tenham sinalização e mapas padronizados e que respeitem regras européias de manutenção. Enquanto isso não acontece, as trilhas vão sendo tiradas do papel aos poucos, como se fossem colchas de retalhos. Sempre que possível, aproveita-se percursos já existentes, apenas modificando sua sinalização para adeqüá-la ao padrão europeu.

No caso de Portugal, a E-9 promete muito. Começará em pleno Algarve, no cênico Cabo de São Vicente, e avançará em direção ao norte pela costa, cobrindo aproximadamente 800 quilômetros coalhados de falésias, praias e florestas, além de cruzar diversas unidades de conservação. Hoje, estão sinalizados (ainda que o padrão de manutenção não seja lá essas coisas) cerca de 250 quilômetros. Outros ainda não estão propriamente marcados no terreno, mas não são de navegação tão difícil assim.

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Nos últimos doze meses, percorri 132 quilômetros da E-9. Em um sábado livre fazia um trecho; durante a semana, em uma noite de verão, quando o sol se põe às dez horas, trilhava outra seção. Em um feriado prolongado mais tranqüilo, pegava o carro e cobria três trechos longos. E assim, posta por posta, venho esquadrinhando o litoral português. Não tenho me arrependido.

A E-9 ainda está em seus primórdios. Em um primeiro estágio, importa tirá-la do papel. A sinalização, baseada no modelo dos Grandes Randonés franceses, não é de fácil interpretação. A boa e velha setinha teria sido mais didática. Os responsáveis pela sinalização tampouco parecem entender muito do assunto e suas pinturas em pedras e árvores freqüentemente confundem mais do que elucidam. O traçado muitas vezes não é em trilhas propriamente ditas, mas aproveita aceiros, estradas florestais e caminhos rurais. Mas é assim mesmo.

Local tocado pela trilha portuguesa E-9. (Foto: Pedro Menezes)
Local tocado pela trilha portuguesa E-9. (Foto: Pedro Menezes)

Como nos primeiros tempos da Appalachian Trail idealizada por Benton Mackaye, ou da Bibbulmum Track do australiano Jesse Brampton, a idéia está sendo concretizada como é possível. Ambas as trilhas, modelos de caminhadas de longo curso, também passaram por momento parecido. Primeiro, fez-se a ligação que as circunstâncias da hora permitiam, depois foi-se aperfeiçoando o traçado. Tanto a Appalachian quanto a Bibbulmun mantêm hoje menos de 10% de suas rotas originais. Com o tempo e a pressão dos usuários, os trechos de estradinhas foram sendo substituídos por trilhas, florestas comerciais foram transformadas em parques nacionais para dar passagem aos excursionistas e até terrenos particulares foram desapropriados por que abrigavam opções mais interessantes para a passagem desses percursos intermináveis.

Quero crer que assim também será em terras lusas. O que já percorri nos parques naturais da Costa Vicentina, da Arrábida, de Sintra-Cascais e da Arriba Fóssil da Caparica é de uma beleza singular. Além disso, o caminho está bem projetado. Leva o excursionista a locais de pernoite, incorpora rotas de escape a restaurantes e supermercados e passa na porta dos centros de visitantes da maioria das unidades de conservação que atravessa.

É verdade que a simpática funcionária que me atendeu no escritório do Instituto de Conservação da Natureza na Arriba Fóssil disse desconhecer a E-9 e me mandou procurar informações com a prefeitura local. Mas isso é outra história. A idéia é boa embora, seja nova para a cabeça de muita gente. É preciso dar tempo ao tempo para que ela germine e cresça forte e viçosa. Quem trilha não corre, contempla; sabe que o apressado come cru. E quem gosta de peixe cru não é lusitano, é japonês.

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