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A terra encantada do vale-tudo

O desdém do Brasil por seu patrimônio natural está rendendo dividendos internacionais. O país tem sumido dos roteiros turísticos que dependem de áreas mais ou menos intactas.

9 de maio de 2008 · 18 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

Custou um pouco, mas este mês o Brasil emplacou seis páginas e meia na Adventure, a revista da National Geographic voltada às viagens e ao esporte, desde que eles sejam radicais. O país deve a honra a uma reportagem de John Falk, que semanas antes escrevera sobre “um banho de espiritualidade” na Índia, onde cantou hinos em sânscrito sem levar a sério o ioga.

Desta vez, Falk veio a Curitiba. Elogiou a cidade, como “uma fatia da Europa posta no Trópico de Capricórnio”, e botou um olho clínico nas cutiritibanas. Mas comprimiu esses elogios em meio parágrafo. Seu interesse era outro, e bem específico. Ele veio a Brasil para mergulhar por duas semanas numa academia local de Chute Boxe.

Modéstia à parte

O Brasil, modéstia à parte, é o berço da luta-livre, nascida por estas bandas há quase um século, quando os patriarcas da família Gracie misturaram os rituais do judô japonês com a pancadaria genérica do vale tudo sem fronteiras. Nos Estados Unidos, esse esporte custou a pegar. Mas entrou por cima, via Beverly Hills. Já ultrapassa, de longe, com 223 milhões de dólares contra 177 milhões, a renda do boxe tradicional, graças à audiência paga dos campeonatos de Ultimate Fighting nos canais fechados de TV.

Falk foi correspondente de guerra. A camiseta esticada sobre sua compleição de guarda-costas, que ostenta nas fotografias da reportagem, deu-lhe motivos de sobra para acreditar, em passeios por Curitiba, que as ruas da cidade são perfeitamente seguras, apesar do que afirmam as estatísticas policiais. Ele pratica luta livre na Califórnia. Mas, lá, a liberdade dos ringues esbarra em regulamentos que vedam golpes baixos ou potencialmente fatais. Aqui, sem tantos pruridos legalistas, o vale tudo é risonho e franco, mesmo fora do noticiário sobre a administração pública. E Falk para a casa reconhecendo que “não passa de um escritor com forma de ameixa surfando as margens da meia idade”. Sem entranhas, portanto, para encarar o desafio brasileiro.

Sua tentativa nos valeu, pelo menos, a atenção este mês de uma revista em que, geralmente, as aventuras não extravasam a cota de adrenalina da canoagem nos rios selvagens do estado de Oregon, das escaladas no monte Rainer ou das travessias nos labirintos gelados do litoral canadense. O Brasil, pelo visto, é dose para amadores. Deve ser por isso que há muito tempo vem sumindo do mapa, não só nas páginas editoriais, como nos anúncios classificados da Adventure.

As agências especializadas fazem o possível e o impossível para dar impressão de que o mundo, em geral, está crescendo ao ar livre. Há uma verdadeira corrida para os vulcões, as selvas e as praias remotas da Costa Rica, por exemplo. A Croácia, mal saída da guerra civil, tem programas variados para ciclistas, trekkers e remadores. O Himalaia e o Ártico estão ao alcance de ligações gratuitas, tipo 0800. Leões, elefantes, focas, baleias e gorilas andam em oferta nos dois hemisférios. Até a fauna nativa das florestas latino-americanas entrou na moda, pelo menos no Panamá, no Equador e na Patagônia.

Alguém quer Amazônia? Sugere-se a peruana, em Tamshiyacu-Tahuayo. Porque este é um mercado em que o Brasil está cada vez mais longe do grau de investimento. Ficou pequeno, senão invisível. Parece menor do que a Guatemala. Pelo visto, e sobretudo pelo não visto na Adventure, nosso descaso pelo patrimônio natural começa a nos render dividendos.

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