
Sinop (MT) – De volta à Sinop, despedi-me dos colegas de ofício e conversei com Jairo Gabriel Rodrigues, proprietário do modesto hotel em que me hospedei. Ele chegou em 1982 ao município para trabalhar em construção civil, e atualmente está ampliando seu pequeno hotel, construindo mais 6 apartamentos. O lugar vive lotado, pois recebe prestadores de serviços de vários segmentos, vindos de outras cidades. Um tanto acanhado, Jairo contou parte da sua trajetória:
— Na época tudo aqui era difícil. O que se via era apenas madeira. O meio de vida era trabalhar em madeireira. Era a única fonte de renda. Com o passar dos anos foi expandido pra soja e gado e é isso que vem melhorando o norte do Mato Grosso.
Pergunto se a floresta era aqui na área central, da cidade, ou próxima, pois é incrível pensar no tamanho da devastação para se construir uma cidade, ainda que aos poucos. E Jairo continua:
— Quando cheguei a floresta era bem próxima, inclusive a gente lavava a roupa em um córrego bem próximo da cidade. A luz era no motor, racionada, então quando o motor quebrava, a gente ficava vários dias sem luz. Um dia tinha luz até às nove da noite, outro dia era só em outro bairro, então era tudo muito difícil. Na época a maioria das casas era de madeira. Quem tinha melhores condições fazia de tijolo. O material de construção já vinha de fora. Depois foi desmanchando e virando alvenaria. A comida vinha de fora, vinha de avião na época da chuva, não passava nem caminhão.
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— Eu nunca trabalhei com madeira, sempre trabalhei com construção civil. Hoje meu ramo é hotel. Cresci junto com a cidade e com o estado. Aqui era tudo mato, tinha muito pouco para sobreviver e quem escapou até aqui com vida, daqui pra frente tem tudo melhor. Então, hoje a gente esta em suma situação melhor, devido à expansão agrícola e pecuária. Hoje se fala em apenas 20% pra se plantar. Já não se pode mais ser assim porque a população no Mato Grosso é grande, a gente vai precisar, no futuro, de mais alimento. Senão, daqui a 20, 30 anos não vai ter mais comida para o povo. Então a gente espera que o governo faça a expansão agrícola para que aumente a produção, para mudar para melhor e dar condições para nossos filhos e netos.Indago, então, se ele chegou a trabalhar com madeira. Ele nega, mas revela que a situação melhorou devido à exploração econômica da madeira.

Desde o momento em que cheguei à região pensava na necessidade de conversar com pessoas que não estivessem ligadas diretamente à madeira, mas que indiretamente se beneficiaram da sua exploração. As perguntas que me vêm à cabeça são: o que faríamos no lugar dessas pessoas se vivêssemos nesse local na época da colonização, passando as dificuldades que elas passaram? Onde estava e o que dizia o poder público? Os locais estão acostumados a ver a madeira como fonte de prosperidade há muitos anos. Não é simples para eles entender porque nos anos de 1970 até os de 1980 houve incentivo do governo para desmatar, povoar, e agora o ponteiro inverteu, mudou para repressão. As origens, a cultura e os incentivos para o desmatamento na Amazônia são mais complicados vistos de perto, quando nos embrenhamos em locais como Sinop.
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Próximo relato dessa reportagem
Dia 6 – Em busca de soluções para o desmatamento
Todos os relatos
Chegada a Sinop – a cidade que um dia foi floresta
Dia 1 – A primeira operação de apreensão a gente nunca esquece
Dia 2 – Sobrevoando a maior floresta do mundo
Dia 3 – O desafio da extração legal
Dia 4 – Uma conversa com o novo prefeito de Feliz Natal
Dia 5 – A relação das pessoas com a madeira
Dia 6 – Em busca de soluções para o desmatamento
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