
Como invejo a repercussão mundial que causou a notícia da caçada de um leão jovem e icônico em um Parque Nacional do Zimbábue. Principalmente o barulho feito pelos cidadãos dos Estados Unidos da América, onde a caça esportiva de determinadas espécies é praticada legalmente e aceita pela sociedade. Lá, é grande o clamor contra o abate, que também está sob investigação de ter sido ou não um ato legal, um assunto que pertence à Justiça. Afinal, não é impossível que o caçador, um dentista americano, tenha sido enganado.
Mas quem dera se outros atos atrozes também tivessem a mesma repercussão. Já pensaram se aqui no Brasil alguns crimes que matam muito mais indivíduos de várias espécies, quer do reino animal e/ou vegetal, recebessem o mesmo repúdio barulhento da população? Por exemplo, os enormes incêndios criminosos de muitas áreas protegidas do Brasil, e em especial nos nossos Parques Nacionais. Nossa biodiversidade teria mais futuro.
Já pensaram se a população expressivamente se voltasse contra a pesca predatória de espécies marinhas ameaçadas de extinção, ou à caca ilegal de espécies terrestres? Contra a presença de espécies invasoras que tanto prejuízo causam à nossa fauna ou flora silvestres, como, por exemplo, o javali, considerado o 20º predador do mundo, ou bambus exóticos, ou o capim Jaraguá nas nossas áreas protegidas? Já pensaram quão importante seria eliminar os teiús predadores de Fernando de Noronha, que comem os ovos de aves das espécies nativas?
O que não dá mesmo para discutir são os posicionamentos religiosos sobre o tema de se manejar ou não áreas silvestres. De se matar, quer seja necessário ou não, espécies de flora e fauna. Posicionamentos pessoais e mesmo aqueles sem base científica têm de ser respeitados.
Uma pergunta colocada por um filho meu, que não é caçador, no Facebook dele, merece ser repetida: porque a população não se revolta tanto quando se trata de peixes, tubarões, golfinhos, ou tartarugas? Por quê?
Não quero defender o dentista. Não o conheço, também não gosto de caçadores em geral, mas a discussão deve estar centrada na legalidade ou não do ato por ele praticado. Foi bonito? Não posso acreditar que alguém tenha coragem de dizer que foi. Mas o problema como tentei explicar vai além de só se proibir como querem muitos. A caca esportiva é legal na grande maioria dos países africanos. Hoje, ouvi na CNN que se matam legalmente 700 leões por ano na África. Muitas populações vivem de caça e pesca, mesmo dentro de áreas protegidas.
Por enquanto, eu fico com a versão, antes de crucificar o tal dentista, de que ele foi enganado, pois era muito dinheiro envolvido. Fico também com a inveja de não assistir tanto protesto aqui quando se mata ilegalmente um bicho não tão bonito, seja de que espécie for, como o peixe boi, tartarugas, baleias, o temerário tubarão; ou quando se comercializa e se exporta à vontade aves atraentes de nossa fauna, em especial as araras.
A discussão novamente deve ser fundamentada na ciência e na Lei e não em achismo, pelo menos é o que eu ACHO.
*Essa coluna foi publicada originalmente no Blog do Planeta, da revista Época
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