Análises

As cidades invisíveis

Redação ((o))eco ·
5 de dezembro de 2012 · 14 anos atrás

Italo Calvino
Companhia das Letras

Cidades Invisíveis não é um livro técnico e nem traz contribuições acadêmicas para o debate sobre mobilidade urbana nas metrópoles do planeta. Também não aborda problemas como congestionamentos, poluição, falta de investimentos em transporte público coletivo. Tampouco trata de bicicletas, cicloativismo ou bicicletadas. Mas o Cidades Invisíveis tem um mérito que o faz ser obra importante de referência para quem quer ousar pensar cidades: trata do espaço urbano com imaginação. Misturando poesia e prosa, o autor brinca com imagens, provoca, descreve ideias e questiona o tempo todo. As descrições das cidades visitadas durante a narrativa são matéria-prima rica para sonhar mudanças, refletir sobre o espaço urbano, sua ocupação e função. Sem falar diretamente de trânsito, Italo Calvino discute espaço, tempo, possibilidades, formas.

Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.

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– Você viaja para reviver o seu passado? – era, a esta algura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira:
– Você viaja para reencontrar o seu futuro?
E a resposta de Marco:
– Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá”.
Trecho do livro, páginas 28 e 29.


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