Análises

Precisamos gostar das árvores certas

A natureza urbana corre o risco da aversão das pessoas às árvores próximas e das escolhas que acabam com as florestas nativas.

Nicholas Kaminski ·
22 de janeiro de 2014 · 8 anos atrás

Ruas de Curtiba ainda mantêm espécies exóticas invasoras. Foto: Nicholas Kaminski
Ruas de Curtiba ainda mantêm espécies exóticas invasoras. Foto: Nicholas Kaminski

Há uma parcela de pessoas que demonstram aversão à manutenção de árvores em frente às suas casas, alegando que as mesmas só produzem “sujeira” ou não prestam para nada, não passam de um perigo nos dias de chuva e vento intenso. No entanto, o papel dos serviços ambientais gerados pelas árvores e áreas remanescentes de floresta no ambiente urbano é indiscutível.

Flores de alfeneiro. Foto: Nicholas Kaminski
Flores de alfeneiro. Foto: Nicholas Kaminski
A função da arborização de praças e ruas vai além da beleza cênica, pois gera conforto térmico e protege a fauna urbana. Pelo fato das áreas remanescentes de floresta nas cidades estarem praticamente isoladas umas das outras, estas “vias arbóreas” tornam-se verdadeiras avenidas para deslocamento da fauna entre os fragmentos.

No entanto, o que deveria ser uma vantagem, pode também ser um problema.

Grandes cidades brasileiras cometeram um equívoco grave no passado ao utilizarem espécies exóticas para compor a arborização urbana municipal. O problema é agravado por que boa parte delas não apenas é exótico como invasora.

Em um levantamento comparativo que relaciona a arborização urbana entre os anos de 1984 e 2010 na cidade de Curitiba, percebe-se que pouca coisa mudou. A proporção de espécies exóticas, nativas da Floresta com Araucária ou de outros biomas não mudou. Embora não sejam produzidas e utilizadas as exóticas invasoras na arborização urbana há mais de 5 anos, as árvores remanescentes continuam no mesmo lugar e ainda não foram totalmente substituídas.

Para exemplificar e ilustrar a problemática vou utilizar os dados referentes ao alfeneiro (Ligustrum lucidum), espécie exótica invasora, originária da China, que observo em diversos pontos da cidade. Em 1984, esta espécie correspondia a 14,81% das árvores amostradas, ao passo que em 2010, a mesma espécie (nos mesmos locais de amostragem) correspondeu a 12,18%, ou seja, uma redução ínfima para uma cidade que, desde 2008, já possui decreto definindo providências para espécies vegetais invasoras.

Exóticas invasoras

Corro o risco de ser mal interpretado por algum transeunte, que ache que estou degradando o local, enquanto tento exterminar as verdadeiras vilãs da história.

E qual é o problema do alfeneiro? Seus frutos possuem as melhores características possíveis para dispersão por aves (que juntamente com os morcegos, são exímios dispersores): coloração escura, carnoso e tamanho pequeno. Além disso, outro fator preponderante é que na região Sul do Brasil, onde os invernos são rigorosos, com temperaturas muito próximas a zero grau, seus frutos estarão disponíveis em um período do ano escasso em alimentos para as aves. Ou seja, estes alfeneiros, que observo floridos agora, irão produzir seus frutos no outono e inverno. Ao serem dispersos e germinarem, eles competem deslealmente com a vegetação nativa nos poucos remanescentes florestais nativos, crescendo com maior velocidade e se tornando dominantes.

Cadê o pula-pula? A floresta exótica levou. Foto: Nicholas Kaminski
Cadê o pula-pula? A floresta exótica levou. Foto: Nicholas Kaminski

No bosque de propriedade municipal em frente à minha casa, travo uma batalha contra as mudas de espécies exóticas que tendem a dominar o sub-bosque. Ele está se tornando cada vez mais aberto e ralo. Corro o risco de ser mal interpretado por algum transeunte que, por falta de informações, ache que estou degradando o local, enquanto tento exterminar as verdadeiras vilãs da história. Há alguns meses já não observo mais aves características de sub-bosque que costumava ver com frequência, como o pula-pula (Basileuterus culicivorus) e o cisqueiro (Clibanornis dendrocolaptoides).

Esta semana, um miguel-pintado (Matayba elaeagnoides) de aproximados 15 metros de altura foi suprimido em local próximo, na beira do remanescente, porque um dos seus galhos quebrou na última chuva. Mas isso não seria a razão da indignação, se um “majestoso” alfeneiro não permanecesse ao lado do local, todo florido e pronto para tomar o lugar na clareira que foi formada.

O esforço necessário para reverter esse quadro é enorme e depende da prática de políticas públicas locais, do papel consciente de cada um na utilização de elementos de arborização urbana adequados e do controle da regeneração de exóticas que substituem áreas de vegetação nativa. Se esse esforço coletivo, que inclui o poder público municipal, os educadores, as universidades e os cidadãos não ocorrer em um futuro próximo, nossas áreas de vegetação nativa urbana serão colonizadas por espécies exóticas invasoras – uma das maiores causas de perda de biodiversidade no planeta.

 

*Nicholas Kaminski é Biólogo, mestre em Engenharia Florestal e Técnico do ConBio.

 

 

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