Análises

E aí vem a pergunta, cadê a onça?

Uma viagem inesquecível com Peter Crawshaw e seu mentor George Schaller revela como se desenvolveu o estudo de onças no Brasil.

Eduardo Pegurier ·
28 de maio de 2014 · 8 anos atrás

 

Fazenda do Bonito, na borda do Parque Nacional da Bocaina. O habitat é perfeito e tem até presa, mas nada de onça-pintada. Fotos: Eduardo Pegurier
Fazenda do Bonito, na borda do Parque Nacional da Bocaina. O habitat é perfeito e tem até presa, mas nada de onça-pintada. Fotos: Eduardo Pegurier

No começo de outubro de 2013, recebo um email de Fabio Olmos contando que George Schaller viria ao Brasil encontrar-se com Peter Crawshaw, e ambos fariam um tour por duas UCs paulistas, o Parque Estadual Carlos Botelho e o Parque Estadual Serra do Mar, núcleo de Santa Virgínia. O propósito da viagem era comparar a situação das onças-pintadas nas duas áreas protegidas.  A melhor parte: estava convidado a me juntar a eles.

No início, a oportunidade parecia ser conhecer pessoalmente Peter, colaborador de ((o))eco de longa data, e Schaller, um ícone entre os biólogos. Quem sabe, de quebra, na minha ingenuidade, veria uma onça. Mas o que já parecia aventura suficiente transformou-se em outra ainda melhor: conhecer de uma só vez várias gerações de especialistas de felinos e compreender como a viagem inicial de Schaller ao Brasil, em 1977, deu o empurrão inicial a esse movimento.

Em agosto de 77, Peter escreveu a George candidatando-se a trabalhar com ele em seu estudo pioneiro de onças-pintadas na região do Pantanal, na fazenda Acurizal, à beira do rio Paraguai. Em janeiro de 78, Peter foi contratado. Para quem não sabe (e eu não sabia), apesar do nome inglês e do biótipo idem, com direito a olhos azuis e bochechas vermelhas, Peter Crawshaw é super brasileiro. O estudo da Acurizal durou cerca de dois anos e não terminou bem, mas essa história fica para o Peter contar. Entretanto, determinou sua carreira e iniciou uma amizade com Schaller que já dura quase 40 anos.

Schaller deixou o Brasil para iniciar, na China, novo estudo pioneiro, dessa vez sobre Pandas. E Peter nunca mais deixou as onças e outros felinos. E fez mais. Assim como Schaller o influenciou, ele também ajudou a formar as gerações seguintes de especialistas.

Encontrei na Dutra com Sandra Cavalcanti, especialista, adivinhe em quê? Carnívoros (leia-se onças). E ex-assistente de quem? Peter. Juntos, chegamos a São José do Barreiro, um dos municípios vizinhos ao Parque Nacional da Bocaina, para encontrar Peter e Schaller. De lá seguimos para a Fazenda do Bonito, da família de Sérgio Lutz, que nos hospedou e mostrou a região. A fazenda faz fronteira com o Parna da Bocaina, pouco conhecido do público, porém, com seus 104 mil hectares, quase 4 vezes maior que o Parque Nacional de Itatiaia, o mais antigo do Brasil, que tem 28 mil hectares. O Parna Bocaina, por sua vez, é contíguo ao Parque Estadual da Serra do Mar (315 mil hectares). Nessa imensa região, falta ou então está muito bem escondida uma habitante antiga e nosso maior e mais poderoso felino, a onça-pintada.

“Há tudo para a onça-pintada prosperar aqui. É uma pena que não seja assim”, disse Schaller na caminhada do dia seguinte, em que ele, eu e Sandra fomos da Fazenda do Bonito até a divisa do Parna da Bocaina. De lá até o Serra do Mar, o habitat para a pintada é perfeito, mas ela está virtualmente extinta na região, resultado da caça. A contradição é que a queixada, sua principal presa se recuperou na região e é abundante no Parque Estadual da Serra do Mar.

Onça sorrateira

Segundo Peter, é possível que ainda existam uns poucos indivíduos escondidos em cânions inacessíveis, mas com poucas possibilidades de procriação. Os sinais foram pegadas encontradas em 2010 e um cavalo morto com características de predação de pintada. Entretanto, estudo conduzido por Peter, entre 2008 e 2012, com armadilhas fotográficas, produziu milhares de fotos, muitas de onça parda, mas nenhuma de pintada. A presença da parda, um animal menor, é sinal de que não há pintadas para rivalizar pelo território.

Nos dias anteriores, a dupla Peter e Schaller havia visitado o Parque Estadual de Carlos Botelho, onde foram ciceroneados por Beatriz Beisiegel, pesquisadora do Cenap (Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros, criado em 1994, dentro do Ibama, e, hoje, sob supervisão do ICMBio). Lá, a situação é o contrário: faltam presas como a queixada, mas a onça-pintada não está extinta. Um estudo de Sandra Cavalcanti obteve cerca de 30 fotos de onça-pintada na região. 

George Schaller, na Fazenda do Bonito. Pioneiro no estudo de animais como tigres, leões e onças-pintadas
George Schaller, na Fazenda do Bonito. Pioneiro no estudo de animais como tigres, leões e onças-pintadas
Da esquerda para a direita: Peter Crawshaw, Cláudia Campos e George Schaller, com seu inseparável bloco de anotações
Da esquerda para a direita: Peter Crawshaw, Cláudia Campos e George Schaller, com seu inseparável bloco de anotações

Despedimos-nos de Sandra em São José do Barreiro e seguimos para o Serra do Mar, núcleo de Santa Virgínia. No caminho, encontramos Cláudia Campos, em Taubaté, e seguimos pela estrada que cruza a Serra do Mar e leva a Ubatuba. Mais ou menos no cume da serra fica a saída para o Núcleo Santa Virginia. Cláudia estuda onças-pintadas na região do Boqueirão da Onça, na Caatinga da Bahia, um local que os ambientalistas se empenham para que surja um novo Parque Nacional. Cláudia também trabalhou com Peter, que mais tarde foi membro da sua banca de defesa de tese do mestrado.

Foram três dias de caminhadas e convivência com especialistas em carnívoros separados em um intervalo de idade que, entre Schaller e Cláudia, deve se aproximar de 50 anos.

Não que isso pese a Schaller, que andou 10 km por dia, sem perder uma oportunidade para sacar seu famoso caderno e fazer incansáveis anotações. Andar com especialistas em carnívoros significa parar muitas vezes para analisar pegadas e se interessar por fezes de animais deixadas na mata como se fosse a busca por uma trilha de ouro.

Nessa última segunda-feira, George Schaller completou 81 anos. Como em 78, ele deixou o Brasil no fim de 2013 em direção à China.

Happy birthday, George, que sobrem anos de vigor, atividade e pesquisas à sua frente, além de ser um embaixador dos animais, que anda pelo mundo. Obrigado por transmitir a Peter o seu entusiasmo, e a ele por levá-lo adiante às novas gerações de especialistas brasileiros, que não deixam escapar um rastro de onça.

 

 

  • Eduardo Pegurier

    Mestre em Economia, é professor da PUC-Rio e conselheiro de ((o))eco. Faz fé que podemos ser prósperos, justos e proteger a biodiversidade.

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