Análises

A quem interessa minerar terras raras no Rio Grande do Sul?

Podemos reconhecer nossas riquezas que não necessitam de mineração, como a biodiversidade do Pampa e os ecótonos presentes na transição para a Mata Atlântica

Joel Henrique Ellwanger ·
23 de abril de 2026

Os debates sobre questões econômicas, geopolíticas e socioambientais relacionadas à exploração de minerais críticos vêm se intensificando e ganhando crescente complexidade no Brasil. Até recentemente, nomes de elementos químicos como Cério, Praseodímio, Neodímio, Promécio e Samário eram pouco conhecidos fora de círculos acadêmicos compostos por químicos ou por aficionados em curiosidades da tabela periódica. A partir de 2025, expressões como essas passaram a ser citadas com frequência na mídia brasileira, geralmente de forma unificada como “elementos de terras raras” ou simplesmente “terras raras”. 

Esse grupo de 17 elementos químicos é formado por Escândio (Sc), Ítrio (Y) e 15 lantanídeos: Lantânio (La), Cério (Ce), Praseodímio (Pr), Neodímio (Nd), Promécio (Pm), Samário (Sm), Európio (Eu), Gadolínio (Gd), Térbio (Tb), Disprósio (Dy), Hólmio (Ho), Érbio (Er), Túlio (Tm), Itérbio (Yb) e Lutécio (Lu). 

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O aumento dos debates sobre terras raras pode ser atribuído às recentes disputas geopolíticas sobre a extração e beneficiamento desses elementos. As terras raras são usadas principalmente para a fabricação de ímãs muito potentes e outros componentes utilizados na produção de smartphones, geradores de energia eólica, baterias de carros elétricos e aparelhos bélicos. 

As guerras e operações militares promovidas principalmente pelos EUA e Israel, a busca por equipamentos essenciais para a transição energética e o uso disseminado de dispositivos eletrônicos impulsionam as disputas comerciais por terras raras. Atualmente, a China é o país com maior autonomia na exploração e refino de terras raras, colocando diversos países, incluindo os EUA e membros da União Europeia, em uma situação de forte dependência em relação a esses elementos.

O Brasil possui uma das maiores reservas globais de terras raras, porém conta com apenas uma empresa que realiza a extração e o beneficiamento dessa matéria-prima em escala comercial, a Serra Verde Pesquisa e Mineração, localizada no município de Minaçu, em Goiás. O potencial econômico das terras raras brasileiras atrai os olhares dos EUA e de outros países que veem o Brasil como uma nação mais permissiva do que a China para atuar como fornecedor de terras raras para a indústria interessada no beneficiamento dessa matéria-prima. Confirmando o interesse americano nas reservas brasileiras, foi anunciado em 20 de abril deste ano que a empresa USA Rare Earth adquiriu a Serra Verde Pesquisa e Mineração por aproximadamente US$ 2.8 bilhões.

Como uma história que se repete desde a colonização do Brasil pelos europeus, o território brasileiro é visto como fonte de produtos brutos a serem beneficiados em países do Norte Global, onde adquirem valor e voltam a ser vendidos ao mercado brasileiro. Por mais óbvia que essa armadilha possa parecer, no Brasil, empreendedores, alguns cientistas e governantes estaduais já consideram as terras raras brasileiras uma fonte de riqueza, principalmente em estados com lideranças alinhadas ao neoliberalismo. Junto a isso, a aura futurista e tecnológica que recobre as terras raras fascina aqueles que acreditam que qualquer atividade ligada ao “avanço tecnológico” é benéfica e parte da solução para problemas econômicos, sociais e ambientais. Por esses e outros motivos, o entusiasmo em torno das terras raras atingiu com força o Rio Grande do Sul, um dos estados brasileiros com grandes reservas desse grupo de elementos.

Terras raras no Rio Grande do Sul: reservas e potencial poluidor

Terras raras, diferentemente do que o nome indica, não são difíceis de encontrar na natureza, mas são de complexa obtenção, pois estão presentes nas rochas e solos de forma dispersa e pouco concentrada. A extração desses elementos comumente envolve a exploração de volumosas quantidades de matéria bruta (por exemplo, argilas iônicas), com a produção de grandes quantidades de resíduos de mineração e o uso extensivo de componentes químicos tóxicos para a separação dos elementos. Ou seja, é uma atividade mineradora com um grande passivo ambiental.

Existem reservas de terras raras em diferentes regiões do território gaúcho, incluindo no município de Caçapava do Sul, conforme indicado por avaliações prospectivas realizadas recentemente por pesquisadores de instituições como a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e a Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA). 

A cidade de Caçapava do Sul, há muitos anos, tem suas paisagens modificadas por variadas atividades de mineração, com histórico de contaminação por diferentes tipos de rejeitos e metais tóxicos, incluindo mercúrio usado em processos minerários. É alarmante o fato de que a exploração de terras raras pode degradar ainda mais a paisagem desse município, principalmente considerando que Caçapava do Sul possui uma rica diversidade geológica reconhecida como Geoparque da UNESCO. Apesar do modelo de mineração de terras raras em Caçapava prever lavras em cava ou subterrâneas, e não extração dos elementos de argilas iônicas superficiais, é importante ressaltar que uma rocha minerada não pode ser recomposta. Isso significa a perda definitiva do patrimônio geológico.

Os potenciais impactos ambientais da mineração de terras raras não se limitam a Caçapava do Sul, podendo agravar a poluição de diferentes regiões do Rio Grande do Sul, que já é considerada uma das regiões mais poluídas por metais em todo o mundo em razão do grande uso de fertilizantes aplicados pela agricultura gaúcha, além de outras fontes poluidoras, como a queima de carvão na região de Candiota. A iminência da mineração de terras raras poderá adicionar ainda mais poluentes metálicos à carga de poluição já observada no Rio Grande do Sul. Caso se concretize nos moldes atuais, corre-se o risco de repetir cenários como o de Candiota, onde um estudo do Instituto Internacional Arayara, apresentado na UFRGS em março de 2026, já aponta significativos problemas de saúde na população decorrentes da extração e queima de carvão.

Também em março de 2026, aconteceu na UFRGS o “I Workshop de Terras Raras do Rio Grande do Sul: Potencial e Inovação”, onde as variadas potencialidades desses minerais foram apresentadas por acadêmicos, representantes do Departamento de Mineração da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA) do Rio Grande do Sul e membros da iniciativa privada. Porém, pouco se debateu sobre os impactos socioambientais da exploração de terras raras no estado. Além disso, apesar de não ser o objetivo do workshop, teria sido importante que o evento tivesse contado com a participação de representantes da sociedade civil e das comunidades impactadas pela mineração no estado, para que então se debatesse de forma equilibrada se o modelo de desenvolvimento extrativista primário-exportador, deve ou não continuar no Rio Grande do Sul.

Durante o evento, especialistas do Departamento de Mineração da SEMA, entre outros, citaram publicamente que as cinzas do carvão de Candiota poderiam ser boas fontes de terras raras. Essa informação, associada ao apoio contínuo dado pelo Governo do Rio Grande do Sul às atividades minerárias de Candiota, sugere que os atuais representantes do estado, além de não pretenderem abandonar tão cedo a exploração de carvão, veem essa atividade como fonte potencial de terras raras. Ainda no Workshop, os representantes da SEMA sugeriram inclusive que a mineração não seria uma atividade tão preocupante, por ocupar uma pequena porcentagem da área do Rio Grande do Sul, desconsiderando as evidências científicas de que os poluentes de mineração, como material particulado contendo metais tóxicos e os rejeitos gerados durante os processos minerários, se disseminam pelo ar, água, solo e teias alimentares.

Impactos tóxicos da mineração

Diferentes elementos metálicos, como chumbo e mercúrio, mostram grande efeito tóxico para humanos e animais. Similarmente, vários elementos de terras raras apresentam risco genotóxico para a população humana e a biodiversidade em decorrência da capacidade de interagirem com diferentes grupos de genes associados à regulação do metabolismo, reprodução e sistema imunológico. Além disso, a gestão inadequada de rejeitos gerados na mineração de terras raras, muitos deles radioativos, representa riscos severos para as populações humanas e a biodiversidade das áreas mineradas. Isso é bastante preocupante porque a fauna e a flora do Rio Grande do Sul já estão fortemente prejudicadas pelo cultivo de monoculturas como soja e eucalipto, além do intensivo uso de pesticidas. Os resíduos gerados pela exploração de terras raras podem agravar ainda mais a crise ambiental nos biomas Pampa e Mata Atlântica. E essa preocupação vai além de ecossistemas terrestres. 

Há evidências da presença de reservas de terras raras ao largo da costa do Rio Grande do Sul, mais especificamente na Elevação do Rio Grande, uma feição geológica oceânica reivindicada pelo Brasil, colocando o ambiente marinho também sob riscos relacionados à potencial exploração desses elementos em águas ultraprofundas, especificamente entre 2.000 a 5.000 metros, no caso da Elevação do Rio Grande. Porém, no momento, maior vigilância deve ser dada à possibilidade de mineração em Caçapava (onshore, uma reserva lavrável a céu aberto ou subterrânea) do que a Elevação do Rio Grande, pois esta ainda é apenas um recurso especulativo para mineração offshore, em águas ultraprofundas.

O histórico brasileiro com tragédias ligadas à mineração, como os emblemáticos casos de Brumadinho e Mariana, deveria trazer mais parcimônia na expansão da exploração de terras raras no Brasil. O presidente Lula já se posicionou publicamente, colocando-se a favor da exploração, mas sem sucumbir a pressões internacionais. Porém, no Rio Grande do Sul, a empolgação com as terras raras pode estar superestimando necessidades reais da indústria brasileira em relação a esses elementos e, por outro lado, subestimando impactos ambientais.

Poluição e modelo de desenvolvimento gaúcho

Diante dos variados riscos ambientais associados a atividades de mineração, alguns questionamentos devem ser feitos. Qual é o interesse do Rio Grande do Sul em minerar terras raras? Considerando as limitações da atual indústria brasileira, a demanda nacional absorveria a produção desses minerais? Grande quantidade de terras raras é usada para suprir necessidades da indústria bélica de países como os EUA e China. Considerando a tradição pacifista brasileira, é fundamental que o Brasil se afaste da posição de fornecedor de matéria-prima para suprir esse mercado. Além disso, a maior parte de nossa matriz energética e elétrica já é renovável, o que coloca em debate a necessidade de grandes quantidades de terras raras para a transição energética no Brasil. As terras raras são de fato fundamentais para fins não militares e o Brasil deve buscar soberania na exploração de terras raras, mas isso deve estar acoplado com um plano de beneficiamento desses elementos para atender ao mercado nacional de equipamentos eletrônicos, médicos e aqueles úteis para a totalidade da transição energética, e não para suprir a indústria militar e outras demandas de países do Norte Global.

Nesse sentido, é fundamental analisar de forma ampla qual o modelo de desenvolvimento que o Rio Grande do Sul deve seguir, com a participação de diferentes segmentos da sociedade gaúcha. Podemos escolher continuar a suprir demandas internacionais por matérias-primas e ficarmos com um crescente passivo ambiental, tornando-nos uma grande zona de sacrifício cada vez mais poluída por metais e rejeitos de mineração. Alternativamente, podemos reconhecer nossas riquezas que não necessitam de mineração, como a biodiversidade do Pampa e os ecótonos presentes na transição para a Mata Atlântica, aproveitando o potencial turístico dessa biodiversidade, além de outras atividades econômicas compatíveis com o bem viver e a preservação ambiental de longo prazo, e não com o acúmulo de capital nas mãos de poucas empresas e governantes. A exploração de terras raras no Rio Grande do Sul vai além da mineração. Ela deve ser encarada como a disputa do modelo de relação que o gaúcho quer ter com suas paisagens e riquezas naturais.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Joel Henrique Ellwanger

    Biólogo, doutor em ciências e pesquisador em nível de pós-doutorado no Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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