Durante o governo de Jair Bolsonaro, a Amazônia enfrentou não apenas a destruição acelerada de suas florestas, mas também o agravamento de um problema que ameaça a própria autoridade do Estado brasileiro: a expansão de organizações criminosas sobre terras públicas, territórios indígenas e áreas protegidas. O enfraquecimento da fiscalização ambiental, as políticas de flexibilização da posse de armas, os ataques aos direitos indígenas e os incentivos políticos à exploração de áreas florestais contribuíram para criar condições favoráveis à grilagem, à mineração ilegal e à atuação de grupos armados.
Essas consequências ajudam a compreender os resultados de uma pesquisa que liderei, recentemente publicada na revista científica internacional Transportation Research Part D, em colaboração com pesquisadores do Ministério da Defesa e de instituições científicas brasileiras e europeias. O estudo demonstra como uma rede de atividades ilícitas se estabeleceu ao longo da rodovia BR-319, que conecta Manaus a Porto Velho, transformando a abertura de estradas clandestinas, o desmatamento e a pecuária em mecanismos de apropriação territorial e circulação de recursos de origem ilegal.
Os primeiros sinais do desmonte ambiental
Em 2019, publiquei com o pesquisador e prêmio Nobel da Paz, Philip Martin Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), um artigo na revista científica Environmental Conservation, da Universidade de Cambridge, documentando as consequências das primeiras medidas ambientais do governo Bolsonaro. Naquele momento, já alertávamos que a redução da capacidade de fiscalização, as mudanças nos órgãos ambientais e as tentativas de flexibilizar o licenciamento poderiam intensificar a destruição da Amazônia e ameaçar diretamente os povos indígenas.
O governo substituiu dirigentes do Ibama em 21 estados, promoveu mudanças institucionais que enfraqueceram a política ambiental e tentou transferir a demarcação de terras indígenas para a estrutura do Ministério da Agricultura. O próprio Bolsonaro declarou que não demarcaria novas terras indígenas e defendeu a abertura desses territórios à exploração agropecuária e mineral.
O artigo também documentou episódios de violência em que invasores invocavam a eleição presidencial para justificar ameaças a comunidades indígenas. Na Terra Indígena Uru-Eu-Wau-Wau, em Rondônia, grileiros chegaram a ameaçar crianças indígenas, afirmando que os povos originários haviam perdido seus direitos com a chegada de Bolsonaro ao poder. Com os resultados do primeiro turno das eleições em 2026, indígenas também foram ameaçados e sofreram alertas que grileiros ligados ao crime organizado vão invadir suas terras se Flávio Bolsonaro for eleito.
Em 2020, publiquei um segundo artigo com Fearnside na revista científica alemã Die Erde. A pesquisa examinou como a militarização da governança ambiental e a pandemia de COVID-19 coincidiram com novas medidas de enfraquecimento da proteção da floresta. Um dos exemplos foi a declaração do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que propôs aproveitar a atenção da imprensa à pandemia para passar a chamada “boiada” de alterações na legislação ambiental.
O artigo também denunciou a exclusão de representantes dos órgãos ambientais, das comunidades indígenas e das instituições científicas do Conselho da Amazônia, reorganizado com 19 militares. Esses acontecimentos ilustram como decisões políticas podem comprometer os mecanismos necessários para impedir o avanço de grupos envolvidos na exploração ilegal da floresta.
Armas e pistolagem: o agravamento da violência territorial
Outro fator importante foi a flexibilização das regras de acesso a armas de fogo durante o governo Bolsonaro. As mudanças ampliaram a aquisição de armas e munições por colecionadores, atiradores desportivos e caçadores, conhecidos como CACs, em um período de intensificação dos conflitos fundiários na Amazônia. Essa medida favoreceu diretamente o crime organizado.
No debate presidencial que ocorreu na Band, no domingo, 18 de outubro, Flávio mentiu à população brasileira que armas estariam entrando pela fronteira na ausência de fiscalização do governo Lula. Entretanto, dados do estudo publicado com revisão pelos pares com a participação de integrantes do Ministério da Defesa, mostram que a maioria das armas apreendidas nesta porção da Amazônia vem de CACs que obtiveram licença com as políticas armamentistas dos Bolsonaro. Flávio também defendeu que balas e munições não tenham número de registro, o que favorece o tráfico e desvio de munições beneficiando diretamente o crime organizado.
Na pesquisa publicada na Transportation Research Part D, documentamos registros de pistolagem, assassinatos relacionados a disputas por terras e apreensões de armas, silenciadores, lunetas e munições na região da BR-319 diretamente ligadas aos CACs do governo Bolsonaro.
Em uma expedição que realizei em 2021, acompanhei um episódio particularmente grave: a descoberta do corpo de um trabalhador rural ao longo de um ramal clandestino em Humaitá (AM), poucos dias depois de ele prestar depoimento às autoridades federais. O caso mostra a vulnerabilidade de pessoas que denunciam atividades ilegais em regiões onde grupos armados conseguem impor medo e dificultar a atuação das instituições públicas.
Nossa pesquisa aponta que a maior circulação de armamentos sob o regime dos CACs agravou a insegurança da Amazônia e do Brasil.

Ramais clandestinos: a infraestrutura do crime organizado
A pesquisa publicada na Transportation Research Part D também identificou que a captura territorial da Amazônia ocorre por meio de uma rede de estradas clandestinas que partem da BR-319 e penetram áreas de floresta até então relativamente isoladas. Esses caminhos, conhecidos como ramais, permitem que invasores transportem equipamentos, retirem madeira, ocupem terras públicas e estabeleçam áreas de pastagem. Na região de Vila Realidade, em Humaitá, encontramos ramais ilegais separados por apenas 10 a 15 quilômetros, formando extensas redes de acesso à floresta.
A dinâmica é relativamente simples: primeiro é aberta a estrada clandestina; em seguida, ocorre a extração de madeira e a ocupação irregular; posteriormente, a floresta é derrubada ou incendiada e convertida em pastagem.
Em Humaitá, mais de 70% das pastagens atuais surgiram após 2015, ano em que foi retomada a manutenção da rodovia. Em Tapauá, esse percentual chega a quase 90%. A retomada ocorreu antes do governo Bolsonaro, mas a pesquisa identificou que as expectativas de pavimentação, combinadas com a fragilidade institucional, estiveram associadas à expansão da ocupação irregular. Apenas no governo Lula o desmatamento voltou a cair drasticamente na região.

Alguns ramais que foram abertos no governo Bolsonaro conectam áreas próximas dos rios Purus e Madeira e atravessam terras indígenas e unidades de conservação. Além de facilitar a grilagem, essas rotas podem favorecer a circulação de pessoas e mercadorias envolvidas em atividades ilegais de garimpo e tráfico de drogas.

Povos indígenas submetidos à violência e à perda territorial
Os impactos dessa expansão são particularmente graves para os povos indígenas. Em nosso artigo publicado na revista Die Erde, já alertávamos que a BR-319 ameaçava aproximadamente 18 mil indígenas em 63 terras indígenas. Na investigação mais recente, publicada na Transportation Research Part D, documentamos como essas ameaças passaram a se manifestar por meio de invasões, abertura de estradas clandestinas, conflitos armados e destruição de recursos essenciais às comunidades.
Em Tapauá (AM), lideranças Apurinã denunciaram ramais que atravessam as terras indígenas Igarapé de São João e Igarapé Tauamirim e o Parque Nacional Nascentes do Lago Jari. Segundo os relatos, algumas dessas vias foram abertas com a utilização de máquinas municipais. Em territórios Mura e Munduruku, registramos denúncias de invasões, intimidação armada, destruição de cursos d’água e pressão sobre moradores para participação em atividades ilegais. Na região do Lago do Capanã Grande, lideranças relataram a interrupção de uma reunião comunitária por aproximadamente 30 homens armados, acompanhados por um vereador. Também denunciaram tentativas de recrutamento de jovens indígenas para o tráfico de drogas e pressões para trabalhar em balsas de garimpo ilegal. Em Autazes (AM), documentamos a introdução de gado e búfalos em terras tradicionalmente ocupadas pelo povo Mura, associada a disputas fundiárias e interesses de exploração mineral. Essas evidências revelam que a perda de controle territorial ameaça não apenas a floresta, mas também a segurança, a autonomia e a continuidade dos modos de vida indígenas.
Pecuária e lavagem de dinheiro: quando a grilagem se transforma em negócio
A pesquisa também mostrou como diferentes atividades ilegais podem se conectar economicamente. Relatos coletados durante as expedições indicaram que recursos provenientes de garimpo ilegal, desmatamento e tráfico de drogas eram reinvestidos na criação de gado, frequentemente em áreas ocupadas irregularmente. Posteriormente, os animais poderiam ser comercializados por frigoríficos, permitindo que produtos e recursos associados a atividades ilícitas ingressassem em cadeias formais de comercialização.
A análise identificou relações estruturadas entre abertura de ramais, grilagem, desmatamento, mineração ilegal, tráfico, pecuária, frigoríficos e interesses político-institucionais que cresceram durante o governo Bolsonaro. O resultado revela um problema que ultrapassa o crime ambiental isolado: a possibilidade de organizações criminosas consolidarem poder econômico e territorial utilizando tanto atividades ilegais quanto estruturas comerciais formalizadas.
A partir de 2023, a retomada da fiscalização ambiental e das políticas de proteção da Amazônia pelo governo Lula foi acompanhada por uma redução expressiva do desmatamento, que, segundo os dados divulgados pelo INPE em outubro de 2026, atingiu o menor nível da série histórica, iniciada em 1988, acumulando uma queda de 71,2% em quatro anos.
O enfrentamento das organizações criminosas ligadas aos ilícitos ambientais também ganhou força com operações da Polícia Federal, como a Operação Expurgare, deflagrada em dezembro de 2024, que atingiu uma organização envolvida na grilagem de aproximadamente 538 mil hectares de terras públicas na região da rodovia BR-319, fraudes ambientais e corrupção de servidores, resultando, segundo a corporação, na descapitalização de quase R$ 1 bilhão. Essas ações evidenciam as ações do governo Lula e sua importância de combinar fiscalização ambiental, investigação financeira e combate à corrupção para recuperar o controle estatal sobre territórios ocupados ilegalmente.
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