Análises

Brasil: o país mais biodiverso e mais ansioso do mundo

O paradoxo brasileiro e as consequências para saúde da quebra desse elo vital entre seres humanos e natureza

Letícia Alves ·
30 de janeiro de 2026

Entre 2021 e 2024, vivi uma jornada ininterrupta ao lado do meu marido, Dennis Hyde: juntos percorremos, documentamos e habitamos todos os 75 Parques Nacionais do Brasil na expedição Entre Parques. Antes dessa travessia, que durou três anos e meio, eu trabalhava como psicóloga clínica. Pausar o consultório para viver o Entre Parques foi uma decisão radical, mas não uma ruptura. Levei comigo o olhar analítico que me acompanha em qualquer lugar. Esse olhar, que antes se voltava ao íntimo das pessoas, passou a se abrir também para os territórios, os parques e as comunidades que os habitam. 

Foi nessa vivência que se tornou impossível ignorar um paradoxo profundo: como podemos ser o país mais biodiverso do planeta e, ao mesmo tempo, estar entre os que apresentam as maiores prevalências de ansiedade no mundo? Segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil figura entre os países com taxas mais elevadas de transtornos de ansiedade. Estudos mostram que o contato com a natureza reduz o cortisol, fortalece o sistema imunológico e favorece a saúde mental. Mas, nos últimos dois séculos, estamos nos afastando justamente daquilo que garante nossa saúde. Um estudo recente liderado pelo psicólogo Miles Richardson mostra que a conexão humana com a natureza caiu mais de 60% desde 1800, um declínio cultural profundo que se manifesta tanto na linguagem quanto nos hábitos cotidianos.

Por milhões de anos, vivemos em profunda conexão com os ciclos da terra e do céu. As estações nos ofereciam alimento, os astros inspiravam nossos mitos de origem. Esse compasso está inscrito em nós: nossa saúde psicossomática depende desse vínculo. Mas em poucas décadas nos tornamos majoritariamente urbanos, cercados por luzes artificiais, ruídos constantes e rotinas que já não seguem o nascer nem o pôr do sol. Biologicamente, seguimos os mesmos de centenas de milhares de anos atrás, mas o mundo mudou em velocidade vertiginosa. É nesse desencontro que se instala o adoecimento: enquanto nossa biologia ainda pulsa em sintonia com florestas e rios, nossa vida cotidiana se organiza como se esse elo não existisse.

A biofilia, conceito descrito por Erich Fromm e desenvolvido por Edward O. Wilson, nos lembra que evoluímos em relação íntima com o mundo natural. Essa afinidade é parte do que nos constitui. Quando a rompemos, algo em nós também adoece.

Não à toa, muitos afirmam que não há como ser saudável em um planeta doente. Nesse sentido, falar de Unidades de Conservação não é apenas falar de biodiversidade ou de proteção ambiental: é falar de saúde pública. Políticas de conservação são, ao mesmo tempo, políticas de saúde preventiva. 

De certa forma, percebo que a psicologia e a conservação compartilham uma mesma tarefa: a construção de pontes. No consultório, trabalhamos para aproximar consciente e inconsciente, passado e presente. Na conservação, precisamos aproximar mundos – urbano e natural, sociedade e áreas protegidas, cidadãos e guardiões da floresta. Porque, afinal de contas, a nossa sobrevivência está entrelaçada: nós dependemos dos parques, e os parques dependem de nós. 

De onde vem a água que chega à minha casa em São Paulo? Ela brota em nascentes que só existem porque estão protegidas dentro de parques e outras Unidades de Conservação espalhadas pelo Brasil. Sem esses territórios, não há água, não há clima equilibrado, não há vida. Mas esses lugares não se sustentam sozinhos. Eles existem porque há pessoas de carne e osso que, muitas vezes de forma invisível, colocam seus corpos e suas vidas para que esses territórios continuem de pé: brigadistas, analistas ambientais, beiradeiros, comunitários, voluntários e indígenas. Essa é uma tarefa marcada por riscos constantes.

Em escala global, segundo dados da Global Witness em parceria com a IUCN, 212 pessoas foram assassinadas em 2019 por defender a natureza – uma média de mais de quatro mortes por semana. Já dentro das áreas protegidas, um levantamento publicado no PARKS Journal, em colaboração com a IUCN, registrou 2.351 mortes de guardas em serviço em 82 países entre 2006 e 2021 — o equivalente a quase duas por semana. Dessas, 42% foram homicídios, em grande parte durante confrontos armados com caçadores e grupos criminosos. Mesmo esses números já alarmantes são considerados subestimados, pois muitas ocorrências sequer são reportadas. A violência enfrentada por defensores da natureza é, portanto, ainda maior do que os dados conseguem revelar.

Recentemente estive com dezenas desses defensores em um curso na Colorado State University, como bolsista do Instituto Semeia. A formação reuniu durante um mês gestores e profissionais da conservação de sete países da América Latina e também colegas dos Estados Unidos. Foi uma convivência intensa, em que pude escutar e compartilhar as realidades de quem está na linha de frente. E os desafios são incrivelmente semelhantes. Não importa se no Brasil, no Panamá, no Peru ou nos Estados Unidos – quem trabalha com conservação enfrenta isolamento, sobrecarga, hostilidade e, muitas vezes, a sensação de invisibilidade.

No fim das contas, cuidar da natureza é também cuidar de quem cuida dela. O que está em jogo não é apenas a beleza das paisagens ou a diversidade das espécies, mas a chance de um país adoecido encontrar um caminho de cuidado. A biodiversidade brasileira não é um luxo – é uma necessidade vital, um antídoto contra a ansiedade e o colapso. Cuidar dos parques é, portanto, uma forma de cuidar de nós mesmos. Talvez ainda possamos transformar essa contradição em potência: que o país mais biodiverso do mundo seja também aquele que reencontrou, em sua natureza, a sua própria saúde. Quanto mais diversas forem as vozes, mais fortes seremos na defesa da vida. E você, me acompanha nessa nova expedição?!

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Letícia Alves

    Idealizadora e realizadora, junto com seu esposo, Dennis Hyde, da expedição Entreparquesbr por todos os parques nacionais do Brasil

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