Análises

Corredores para a vida: agroflorestas ajudam a conectar remanescentes de Mata Atlântica

Áreas que foram reflorestadas ou aproveitadas usando o sistema agroflorestal já estão servindo como habitat e corredores para a vida selvagem da região, provendo abrigo e recursos

Laury Cullen ·
24 de fevereiro de 2022

A região do Pontal do Paranapanema, no extremo oeste do estado de São Paulo, contém um dos últimos remanescentes florestais da sub-região Interior da Mata Atlântica. Esta floresta possui níveis excepcionais de diversidade e endemismo, é o lar de diversas espécies ameaçadas tais como o mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus), onças pintadas, jaguatiricas, pumas, bugios, antas e araras-canindé e possui o tipo mais ameaçado de vegetação dentro do hotspot de biodiversidade da Mata Atlântica. Hoje, menos de 2% da floresta da região do Pontal permanece de pé. A maior parte deste remanescente está protegido pelo Parque Estadual Morro do Diabo (36.000 hectares) e pela Estação Ecológica Mico-Leão-Preto (6.200 hectares no total); os 7.000 hectares restantes ocorrem em pequenos fragmentos isolados (entre 2 e 2.000 hectares) dentro de terras privadas.

A região do Pontal é uma das partes mais pobres e subdesenvolvidas do estado de São Paulo, com uma história complexa de posse de terras, desflorestamento e conflitos sociais. A degradação florestal da região foi causada por extração madeireira, criação extensiva de gado, agricultura de corte e queima, especulação de terras, produção de café e pela expansão de plantações de cana-de-açúcar nas regiões de baixada. De 1945 até 1965, mais de 80% das florestas da região do Pontal foram derrubadas para a criação de grandes fazendas de pecuárias pertencentes a ricos proprietários. Em anos mais recentes, a região foi colonizada por agricultores familiares buscando um lugar para cultivar a terra. Como parte da reforma agrária brasileira, o governo estadual distribuiu uma parte das terras dos grandes pecuaristas, garantindo terras para famílias sem terra. Mais de 6.000 famílias se acomodaram em 40 assentamentos até meados dos anos 90. Muitos desses assentados receberam terras adjacentes ao Parque Estadual Morro do Diabo, ou terras em regiões sensíveis adjacentes aos fragmentos florestais remanescentes. Essas famílias usam suas terras para cultivar uma agricultura de subsistência (milho, mandioca, arroz, feijão, café, dentre outros) e mantém animais leiteiros, mas a maioria tem dificuldade de manter a viabilidade econômica de suas atividades. A presença de assentamentos e grandes fazendas adjacentes a fragmentos florestais já levou a incêndios florestais, espécies de plantas invasoras, pastagens e uso de pesticidas, degradando as bordas das florestas e ameaçando sua conservação. 

Desde o início da década de 90, o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), uma organização não-governamental sem fins lucrativos, tem trabalhado para proteger e restaurar a diversidade de espécies e ecossistemas da região. Inicialmente, o IPÊ focou seus esforços na proteção do Parque Estadual do Morro do Diabo e dos fragmentos florestais remanescentes em seu entorno através de pesquisa e educação ambiental. No entanto, os líderes da organização rapidamente perceberam que para conservar as florestas e a biodiversidade da região, eles precisariam recuperar áreas que conectam essas manchas florestais para permitir que animais se movam de uma floresta para outra, uma vez que as áreas protegidas não eram grandes o suficiente para manter populações viáveis de espécies ameaçadas. Além disso, o IPÊ também entendeu que o sucesso a longo prazo de sua empreitada dependeria do suporte e engajamento de comunidades locais e um manejo mais sustentável da agricultura regional. Assim, o IPÊ ampliou suas atividades para trabalhar ao lado de donos de terra e da comunidade de assentados para conservar e restaurar fragmentos florestais, e ao mesmo tempo aprimorar as condições de vida da população local.    

Arte: Julia Lima

Em 1997, o IPÊ iniciou o Projeto Abraço Verde, para encorajar a proteção e restauração de florestas e aprimorar as condições de vida locais através do uso de sistemas agroflorestais (um sistema de manejo de terra no qual plantas lenhosas perenes crescem junto com plantações agrícolas e gado). O projeto encorajou o uso de diversos desses sistemas (incluindo bosques agroflorestais, sistemas de café agroflorestal e sistemas silvipastoris) através de workshops, capacitação, educação ambiental, suporte técnico, do estabelecimento de viveiros e do plantio de árvores. O propósito do estabelecimento de um sistema agroflorestal era duplo. Primeiro, essas agroflorestas auxiliariam na conservação de florestas nativas, criando zonas de amortecimento em volta dos fragmentos (minimizando o efeito de borda e a degradação), e estabelecendo novos corredores biológicos e stepping stones (pequenas manchas de habitat entre fragmentos maiores que encurtam a distância que um animal precisa percorrer fora de seu habitat para se mover entre esses fragmentos, atuando como um pseudo-corredor) que podem facilitar o movimento de plantas e animais através da paisagem agricultural. Segundo, esses sistemas agroflorestais objetivavam aprimorar a produção local e melhorar as condições de vida através da melhoria da fertilidade do solo e sua quantidade de matéria orgânica, aprimorando o controle de pestes e ervas daninhas, reduzindo a erosão do solo, e aumentando o volume de colheitas. Sistemas agroflorestais também diversificam as fontes de renda dos fazendeiros e contribuem para a melhoria de seu padrão de vida. Somado a isso, árvores de agroflorestas provêm uma fonte alternativa de lenha, madeira, frutos, ração para gado e outros produtos, fornecendo assim uma fonte sustentável desses itens para fazendeiros e aliviando a pressão sobre a exploração das florestas remanescentes.

O IPÊ agora abraça um modelo de ações integradas que combina pesquisa, educação ambiental, restauração de habitats e envolvimento comunal com desenvolvimento sustentável, conservação de paisagens e elaboração de políticas.

Durante os 30 anos de presença institucional no Pontal foram desenvolvidos sistemas agroflorestais em diversas configurações diferentes. Assentados que possuíam terras adjacentes ao Parque Estadual Morro do Diabo, a Estação Ecológica Mico Leão Preto ou aos fragmentos remanescentes foram encorajados a estabelecer agroflorestas nas bordas dessas florestas, para servir como zonas de amortecimento que são mais similares a um ambiente florestado natural do que uma plantação agrícola e assim prevenir a maior degradação das bordas florestais. Na maioria dos casos, assentados dedicaram cerca de 2,5 ha (ou 10-15% de suas terras) a sistemas agroflorestais e se comprometeram em plantar pelo menos 60% das plântulas de árvore doadas nessas zonas de amortecimento (o restante das plântulas poderiam ser plantadas em qualquer lugar da fazenda ou vendidas no mercado). Em outras partes da paisagem onde faltava cobertura florestal, assentados foram encorajados a estabelecer pequenos blocos de agrofloresta (como cafezais agroflorestais de 1 ha plantados com pelo menos 20 árvores nativas) que poderiam servir como stepping stones e prover um gradiente de continuidade entre florestas que estariam, de outra forma, isoladas. Essas diversas agroflorestas também criaram uma nova fonte de renda (por exemplo, produção de café) para os colonos. Nas fazendas de gado maiores, o IPÊ trabalhou com pecuaristas para restaurar a cobertura florestal (usando tanto os sistemas agroflorestais quanto reflorestamento) ao longo de áreas entre o Parque Estadual e fragmentos isolados, e criar corredores biológicos que melhoraram a conectividade da paisagem e permitiram o movimento de espécies de plantas e animais através da mesma. Em todas as agroflorestas estabelecidas, o projeto priorizou o plantio de árvores que atendiam múltiplos propósitos, usando uma combinação de espécies nativas e exóticas. Enquanto que a prioridade é restaurar espécies de árvores nativas, espécies exóticas foram incluídas em algumas áreas porque elas crescem rápido, e podem ajudar a satisfazer a alta demanda por lenha e madeira, provendo assim um benefício para para as comunidades locais mais rapidamente.  

O Parque Estadual Morro do Diabo é o principal remanescente de Mata Atlântica de Paranapanema e o maior refúgio pro mico-leão-preto. Foto: Marcio Isensee e Sá

Durante as 3 décadas que o IPÊ trabalhou na região, sua missão evoluiu de uma atitude mais centrada puramente em conservação para uma abordagem paisagística mais holística que inclui conservação, restauração e produção sustentável, e que envolve objetivos sociais, econômicos e ambientais. O IPÊ agora abraça um modelo de ações integradas que combina pesquisa, educação ambiental, restauração de habitats e envolvimento comunal com desenvolvimento sustentável, conservação de paisagens e elaboração de políticas. O Instituto tem uma visão para a paisagem (apelidada de mapa dos sonhos) que utiliza para priorizar futuras ações de conservação, atividades de restauração e desenvolvimento sustentável e para guiar decisões futuras sobre o uso da terra junto com outros atores locais.

Enquanto o trabalho do IPÊ continua, a organização já teve um sucesso significativo na conservação e restauração de florestas e na melhoria da qualidade de vida dos habitantes da região. Junto com parceiros, o IPÊ ajudou a impulsionar a proteção da Estação Ecológica Mico-Leão-Preto, aumentando a área de floresta protegida na região em 6.200 ha. O instituto assinou um contrato formal com o Instituto Florestal do Estado de São Paulo que garante a manutenção de um cinturão de 50 metros livre de assentamentos humanos ao redor dos fragmentos remanescentes, para ajudar a proteger as florestas do efeito de borda. Ele estabeleceu o maior corredor reflorestado do Brasil — um corredor de 1.800 ha que passa por áreas privadas ligando a Estação Ecológica Mico-Leão-Preto com o Parque Estadual Morro do Diabo usando árvores nativas — e catalisou o estabelecimento de 300 ha de sistemas agroflorestais na região, envolvendo 200 famílias. O IPÊ também estabeleceu 10 viveiros comunitários e programas de produção de sementes na região, plantou mais de 3 milhões de plântulas, ofereceu assistência técnica e treinou mais de 500 pessoas para o manejo dos viveiros, sistemas agroflorestais e para programas de produção de sementes, e aumentou a capacidade e suporte local para iniciativas de conservação e restauração. Contratos de serviço com associações locais geraram, no total, cerca de US$410.000 de renda local durante os últimos 24 meses. 

Áreas que foram reflorestadas já estão servindo como habitat e corredores para a vida selvagem da região, provendo abrigo e recursos para pássaros frugívoros como tucanos, araçaris e araras, e facilitando o movimento de animais. Além disso, as agroflorestas plantadas estão servindo como habitat para a regeneração de muitas espécies de árvores nativas. Talvez mais importante do que tudo isso, o IPÊ tem demonstrado que iniciativas de conservação florestal, restauração e desenvolvimento sustentável podem ser integradas com sucesso ao nível de paisagem, levando a paisagens mais sustentáveis que beneficiam tanto seres humanos quanto a natureza. Essa experiência pode servir como um modelo bem sucedido de restauração e manejo sustentável de outras regiões que sofrem com a mesma pressão de degradação florestal, agricultura não-sustentável, e opções de vida e renda limitadas.

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

O projeto Mata Atlântica: novas histórias é apoiado pelo Instituto Serrapilheira.

  • Laury Cullen

    Engenheiro Florestal formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz

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