Análises

É preciso enxergar o Tietê vivo por baixo da poluição

O que eu vi com meus próprios olhos foi um rio que nasce limpo, apesar de não imaculado, e vai desaguar na bacia do Paraná absolutamente lindo

Marina Vieira Souza ·
29 de outubro de 2026

Cocaína, agrotóxicos acima do limite, microplásticos desde a nascente. As manchetes sobre os resultados da Expedição Tietê 2025, realizada pela SOS Mata Atlântica, saíram todas com teor negativo. Eu mesma, quando montei a chamada para a notícia no site da instituição, destaquei: nenhum trecho do rio Tietê está livre de contaminação.

Talvez seja um vício da profissão, esse de focar sempre no que está ruim. O jornalismo e a sociedade civil, neste caso representada pela Fundação, devem mostrar o que precisa melhorar e cobrar o poder público. Os dados – aliás, fornecidos por quatro universidades públicas, cumprindo elas mesmas suas funções sociais – são realmente chocantes. 

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Não seria ético não chamar atenção para o fato de que 25 tipos de agrotóxicos foram encontrados no rio, cujas seis grandes represas fornecem água e energia para milhões de pessoas e negócios. A atrazina, por exemplo, é um herbicida de uso proibido na União Europeia desde 2004, mas ainda aplicada no Brasil, e foi detectada acima dos nossos limites legais em mais de um trecho. A equipe do CEMA-USP (Centro de Estudos Mesoamericanos, Amazônicos e Andinos da Universidade de São Paulo), responsável por esta linha de pesquisa, alertou ainda que muitas substâncias não são reguladas, e que outras moléculas, usadas principalmente na atividade agrícola, não foram investigadas devido à dificuldade de detecção. Ou seja: o cenário pode ser ainda pior.

A presença de até 23 mil partículas de microplástico por metro cúbico na água do Tietê também é uma questão impossível de ser ignorada, uma vez que já existem pesquisas comprovando a relação entre esses resíduos e o aumento de doenças no corpo humano. É uma questão de saúde, interesse público indiscutível.

Assim, eu não deveria me surpreender e muito menos me incomodar com a decisão da imprensa de escancarar a triste situação do Tietê retratada pelo relatório.

Mas me incomodei. Ou, ao menos, senti que ficou faltando algo ali.

Foto: Léo Barrilari/SOSMA

Pois eu testemunhei a expedição em primeira mão. O dia um da viagem coincidiu com o meu aniversário e eu o comemorei bebendo a água da nascente, em Salesópolis (à minha própria conta e risco, diga-se de passagem). Foi um início emocionante para uma viagem que seria uma montanha-russa de sentimentos. Especialmente para alguém que é, ao mesmo tempo e há alguns anos já, jornalista e ativista – condição que muitos professores da faculdade diriam ser uma contradição.

Independentemente do meu ambientalismo, o que eu vi com meus próprios olhos foi um rio que nasce limpo, apesar de não imaculado, e vai desaguar na bacia do Paraná absolutamente lindo.

Eu vi, claro, e principalmente senti, a poluição a que ele começa a ser submetido logo que escorre para trechos mais urbanizados. No mesmo dia, fomos de um pequeno fluxo de água cercado por árvores, de ar úmido e frio, onde ouvíamos pássaros e histórias de restauração florestal, para encarar o que deveria ser mata ciliar tomada por casas irregulares, abrigando populações vulneráveis a qualquer enchente, a qualquer chuva mais forte. Vimos pessoas acostumadas com o cheiro ruim, com o lixo acumulado nas margens. Na ponte em Osasco, um dos 14 pontos de coleta, mais de um transeunte apressado perguntou se alguém havia se jogado de lá de cima, se era por isso que havia tanta gente e a TV ali.

Meus colegas da causa Água Limpa sempre falam que os rios são espelhos da sociedade. Durante a expedição, vi refletida uma relação quebrada, de um rio que é negado para a maioria das pessoas que moram ao seu redor. Não podemos nadar nele, não podemos beber sua água, pescar seus peixes, e quando vimos pessoas à sua volta, assumimos ser por motivo de alguma tragédia.

Depois, os resultados lançados em junho deste ano nos fizeram encarar outros reflexos difíceis de tragar. Uma sociedade que toma remédios para dormir e acordar, deprimida e ansiosa. Que processa altas concentrações de drogas associadas ao desempenho, como cafeína e cocaína, em padrões semelhantes a outras das cidades mais ricas do mundo, ao passo que registra, ainda, doenças ligadas à falta de saneamento básico.

E, apesar de tudo isso, o rio termina lindo. Em seu caminho único, que corre para o interior em vez do mar, cruzamos com pessoas que o conheceram antes das barragens, antes de monoculturas extensivas dominarem boa parte de sua bacia. Que pescavam, sim, nele, e aprenderam a nadar em sua correnteza impetuosa. Que até hoje o navegam e insistem em levar cadeiras, uma bebida e uma caixa de som para sua beirada, ao pôr do sol.

Sei que, após aquela semana intensa percorrendo os 1.100 km de extensão do Tietê, após coletar água quase preta na região metropolitana e um caldo verde cada vez mais concentrado de cianobactérias, consequência provável do uso exacerbado de fertilizantes nas plantações de cana do planalto paulista, todos ficamos aliviados ao encontrar águas cristalinas em sua foz, na divisa do estado com o Mato Grosso.

Não estava no cronograma, mas paramos para mergulhar os pés na água. Nos abraçamos e compartilhamos deste sonho que é ter rios limpos, ambientes livres de poluição, acesso à natureza preservada, que nos é de direito. Eu queria que todo mundo pudesse ter essa experiência. Sabendo que muitos não terão, contribuo para a construção deste imaginário. Se não conseguirmos visualizar, conceber e projetar o Tietê que queremos, então realmente isso nunca vai acontecer.

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