Análises

Futuros governadores têm desafio de recuperar o Cerrado, berço das águas 

As candidaturas ao governo dos estados receberam uma lista de propostas concretas para recuperar as bacias hidrográficas do bioma que abastece oito das doze grandes bacias do país

Felipe Pinheiro ·
2 de outubro de 2026

No período eleitoral, ouvimos propostas sobre segurança, saúde, emprego, mas a pauta da água ainda ocupa pouco espaço, e, sem ela, nenhuma área da vida nem setor econômico funciona de forma adequada. Com a falta de água se tornando cada vez mais frequente nos campos e cidades do Brasil, o Centro Brasil no Clima apresentou aos candidatos a governador dos Estados que abrigam o Cerrado uma lista com propostas para enfrentar o desafio hídrico e alavancar o ganho de escala de práticas regenerativas. Para o Estado de São Paulo, foi enviado um documento específico elaborado junto à SOS Mata Atlântica. 

O Cerrado é a savana mais biodiversa do planeta e o berço de oito das doze grandes bacias hidrográficas brasileiras, abastecendo o país com água, alimentos e energia. Com o agravamento da crise climática e a expansão do desmatamento regional, entre 1985 e 2022, a vazão dos rios do bioma caiu, em média, 15%, com projeções que indicam redução de até 34% na vazão dos rios até 2050, se a destruição seguir no ritmo atual, gerando insegurança hídrica, alimentar e energética para todo o país. 

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Por que ao governo estadual? 

O Estado é o único ente federativo que reúne tanto escala quanto a proximidade de atores locais, além da legitimidade e instrumentos para coordenar essa agenda. O domínio das águas pertence à União e aos estados; a gestão do uso do solo e do saneamento é municipal, mas tem grande influência estadual, como via ZEE, exigências específicas para acesso ao ICMS Ecológico e ATER.  

Ao final de 2025, o Centro Brasil no Clima publicou um Guia de Restauração das Bacias do Bioma focado em gestores estaduais, destacando iniciativas regionais que merecem ser replicadas, tanto no campo prático quanto financeiro e de governança. Ao levantar, estado por estado, o que já funciona, a conclusão a que chegamos foi que o obstáculo à escala não é tecnológico nem, essencialmente, financeiro: é de governança, e os Estados têm também a centralidade necessária para articular e superar esse entrave. 

Em agosto de 2026, o Guia foi levado a uma mesa-redonda na SP Climate Week, para discutir caminhos para a restauração de bacias com membros da sociedade civil, do governo estadual e da iniciativa privada, e com base nessas discussões, foi elaborada a lista de propostas.  

A versão específica dirigida a São Paulo foi construída em parceria com a SOS Mata Atlântica e expõe um paradoxo: o estado tem a legislação de águas mais antiga e avançada do país e fundos milionários; ainda assim, já convive com a falta de água. A agenda perde terreno por duas pressões que se somam.  

De um lado, o setor agrícola, maior usuário em volume outorgado, nunca foi alcançado pela cobrança instituída em 2005. De outro, a ocupação irregular avança sobre as áreas de proteção aos mananciais da região metropolitana, inclusive em cidades do interior onde isso não existia há vinte anos. 

A premissa: restaurar não é despesa, é investimento 

O Guia e as propostas partem da tese de que recuperar as bacias é um investimento estratégico e não um custo. O país já tem gastos bilionários todos os anos por conta da degradação, como os estimados R$ 49 bilhões devido à erosão do solo, entre perda de produtividade agrícola, manutenção de estradas, desassoreamento de reservatórios e encarecimento do tratamento de água.  

Há no Cerrado mais de 35 milhões de hectares de pastagem em algum estágio de degradação – área maior que a Itália. Segundo o Observatório da Bioeconomia da FGV, recuperar cerca de metade, 15 milhões de hectares, meta que o país assumiu no Acordo de Paris, exigiria R$ 21,2 bilhões e geraria R$ 36,8 bilhões de receita, um excedente de R$ 15,6 bilhões. Somando os ganhos na redução de custos e o potencial de lucro das crescentes cadeias regenerativas, restaurar bacias é, hoje, um investimento estratégico de alto retorno para um governo estadual – e, com raras exceções, ele está parado. 

Adicionalmente, se o Brasil cobrasse o uso da água em padrões semelhantes aos de França, Espanha, Estados Unidos, Austrália, Inglaterra e Chile, a arrecadação alcançaria cerca de R$ 12 bilhões por ano – recursos que, por lei, devem ser reinvestidos nas próprias bacias. 

O que a lista pede 

No documento, detalhamos caminhos importantes ligados a cinco eixos: a) governança, b) financiamento, c) território, d) municípios e comunidades, e) mensuração; e, por fim, pedimos a adesão dos candidatos às seguintes 10 propostas: 

  1. Instituir, nos primeiros 100 dias, uma força-tarefa estadual de recuperação de bacias hidrográficas, coordenada pela Casa Civil. 
  2. Definir, no primeiro ano, de uma a três bacias prioritárias e um programa de investimento associado a elas. 
  3. Efetivar a cobrança pelo uso da água, alcançando os grandes usuários, e assegurar que a arrecadação seja reinvestida nas bacias de origem. 
  4. Implementar o enquadramento dos corpos hídricos e defender sua vinculação à outorga e ao licenciamento ambiental, abolindo a classe 4 nas bacias estaduais e apoiando a atualização da Resolução Conama 357/2005 para que essa vedação valha em todo o país. 
  5. Lançar, no primeiro ano, um Programa Estadual de Pagamento por Serviços Ambientais articulado aos fundos estaduais, ao crédito disponível e ao capital privado. 
  6. Rever o ICMS Ecológico para incluir critérios de restauração de bacias e práticas regenerativas, dar transparência aos valores repassados e apoiar a criação de fundos municipais de PSA. 
  7. Institucionalizar escritórios regionais de projetos e financiar planos regionais de macrodrenagem nas regiões metropolitanas e aglomerados urbanos. 
  8. Incorporar na política estadual de mudanças climáticas ou no Plano Estadual de Ação Climática um capítulo específico de segurança hídrica, com metas mensuráveis de recuperação de áreas degradadas. 
  9. Encaminhar projeto de lei criando um regime estadual de manejo múltiplo em áreas privadas conservadas, e defender junto ao governo federal a inclusão de uma categoria de reserva privada de desenvolvimento sustentável no Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). 
  10.  Publicar portal de transparência com indicadores de restauração e o mapa de todos os projetos em curso no território. 

Essa lista resumida é reforçada por um portfólio de experiências de sucesso no bioma, que devem servir para apoiar essa adesão, das quais destacamos, por exemplo: a) pactos com o setor produtivo reduzindo o desmatamento no ano seguinte em mais de 70%, b) um PSA que, a cada R$ 1 investido, gera R$ 8 de retorno à bacia restaurada, c) fundos constitucionais dando escala a sistemas agroflorestais (i.e. IPF e ILPF),  d) programas jurisdicionais de REDD+ no Cerrado com estimativa de gerar R$ 2,5 bilhões até 2030,  e) ganhos através do fortalecimento das cadeias da sociobiodiversidade: como investimento na cadeia do mel, que contribuiu para tornar um estado o maior exportador do país, com receita superior a R$ 100 milhões e mais de 10.500 famílias envolvidas, f) reconhecer povos indígenas e comunidades tradicionais como parceiros estratégicos, com conselho, fundo e editais próprios para a execução de seus planos de gestão territorial, e g) plataformas estaduais de monitoramento de iniciativas de restauração e conexão entre diferentes atores.  

Algumas propostas, porém precisam colocar o dedo na ferida, como vedar o enquadramento de corpos d’água em classe 4 da Resolução Conama 357/2005, na qual esta classe é a última e destinada apenas à navegação e à harmonia paisagística, não servindo para abastecimento, irrigação ou contato humano. Como o enquadramento não é apenas um diagnóstico, serve como meta, enquadrar um trecho em classe 4 é declarar oficialmente que ele pode permanecer em uma condição de baixa qualidade, sem planos recuperação; assim, vedar a classe 4, com metas progressivas para os trechos que hoje estão nessa condição, torna obrigatória a recuperação.  

Nenhuma outra pauta conecta tanto a sociedade e representa tanto a riqueza do Brasil quanto a água. A população do país dos gigantes aquíferos, rios monumentais e da maior biodiversidade de plantas do planeta já sente, na secura, o impacto do descuido com esse patrimônio. Hoje, os governadores têm em suas mãos a oportunidade de construir um caminho que proteja este patrimônio e  fortaleça a sua resiliência. Assim esperamos. 

*Os candidatos que aderirem às propostas serão divulgados pela página oficial do Centro Brasil no Clima.

 

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Felipe Pinheiro

    Biólogo, doutor em ecologia, consultor especialista na linha de Uso da Terra e Soluções Baseadas na Natureza no Centro Brasil no Clima. →

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