Entre o calor seco do município de Exu (PE) e a umidade da serra que se eleva ao redor da Chapada do Araripe, o território já parece anunciar a lógica do Encontro de Saberes da Caatinga. Basta subir alguns quilômetros de estrada para sentir a mudança no ar. O clima se transforma e a vegetação se adensa. A transição ecológica torna-se metáfora do que acontece ali: bordas férteis, zonas de contato, convivência entre diferenças.
Realizado anualmente desde 2016 no distrito de Posto da Serra, o Encontro de Saberes da Caatinga reúne mestres e mestras do conhecimento popular em um espaço de escuta e circulação de saberes tradicionais. Mais do que um evento cultural, trata-se de um ambiente de fortalecimento comunitário, onde práticas historicamente marginalizadas se reafirmam como formas vivas de cuidado com a terra e com as pessoas. A organização é conduzida pela Rede de Agricultores Experimentadores do Araripe, em modelo colaborativo e majoritariamente autônomo.
A Chapada do Araripe é estratégica para o semiárido nordestino. Além de sua biodiversidade singular, exerce papel fundamental na recarga hídrica da região. Nascentes, brejos de altitude e matas serranas formam um mosaico ecológico que sustenta populações humanas e não humanas. É ali que a Caatinga encontra fragmentos de Cerrado e Mata Atlântica.

Parte significativa desse território está inserida na Área de Proteção Ambiental (APA) da Chapada do Araripe, unidade de conservação de uso sustentável criada para compatibilizar a proteção dos ecossistemas com a presença humana e as atividades produtivas locais. A APA busca resguardar nascentes, remanescentes florestais e a biodiversidade regional, ao mesmo tempo em que reconhece a importância das comunidades que historicamente habitam e manejam essa paisagem.
Essa condição de encontro entre biomas atravessa também o espírito do Encontro de Saberes. Cultura, natureza, saúde e território deixam de operar como categorias separadas e passam a se manifestar como dimensões complementares. O conhecimento não é propriedade individual, mas prática compartilhada.
Durante os três dias centrais, as atividades se organizam em rodas temáticas: raizeiros e raizeiras; benzedores e benzedeiras; parteiras; mestres da cultura. Cada roda tem dinâmica própria, mas todas se comunicam. Não há palco central nem separação rígida entre quem ensina e quem aprende. O saber se constrói na partilha oral, no relato de experiências e na demonstração prática.
As rodas funcionam como espirais: no centro, mestres e mestras reconhecidos por suas comunidades; ao redor, aprendizes atentos que escutam e, gradualmente, assumem responsabilidades de continuidade. A estrutura favorece a transmissão intergeracional e reafirma o saber tradicional como construção coletiva.


Historicamente, esses ofícios nem sempre puderam existir à luz do dia. Raizeiros, benzedeiras e parteiras foram alvo de estigmatização e perseguição simbólica, frequentemente associados à ignorância ou ao atraso. Esse preconceito não recai apenas sobre as pessoas, mas também sobre o próprio território: tudo o que se vincula ao natural, ao florestal e ao manejo tradicional da terra foi, por muito tempo – e ainda é – enquadrado como sinal de subdesenvolvimento, diante de ideais de “progresso” ancorados na monocultura, na mecanização e na urbanização acelerada. Em muitos contextos, exercer esses saberes significava enfrentar preconceito religioso, deslegitimação institucional e a desvalorização sistemática de modos de vida enraizados na Caatinga. Ao reunir publicamente esses protagonistas e reconhecê-los como referências, o Encontro de Saberes atua também como gesto de reparação histórica e afirmação política.
Na roda dos raizeiros, um tema recorrente atravessou as conversas: a depressão. Mesmo entre pessoas reconhecidas como guardiãs de saberes tradicionais, o sofrimento mental foi abordado de forma aberta. Ao lado dele, surgiram relatos de cuidado fundamentados no uso de plantas medicinais.
A discussão não se restringe à dimensão individual. A perda de vínculos com o território, o avanço do desmatamento, as mudanças climáticas e a precarização das condições de vida no semiárido apareceram como fatores que atravessam o bem-estar coletivo. A saúde emocional foi apresentada como inseparável da saúde do ambiente.
Em regiões pressionadas por insegurança hídrica e modelos econômicos predatórios, o adoecimento individual dialoga com fragilizações comunitárias. Quando o ambiente se empobrece, as relações também se fragilizam. Cuidar dos biomas, nesse sentido, não é apenas proteger a natureza, é sustentar as condições simbólicas e materiais da vida coletiva.

Ervas conhecidas por seu uso terapêutico eram citadas não apenas como remédio oferecido a terceiros, mas como suporte para os próprios praticantes. A relação com as plantas ultrapassa a técnica medicinal: é vínculo cotidiano com o território. A farmacopeia tradicional, nesse contexto, funciona como memória ecológica e prática de autonomia. Expressa uma compreensão do ser humano como parte do ecossistema, e não acima dele.
Em tempos de crise climática, manter viva essa farmacopeia significa preservar biodiversidade e fortalecer comunidades. Cuidar das raízes é, ao mesmo tempo, cuidar da vida em sua amplitude e diversidade.
Essa dimensão ecológica da cultura também aparece nas canções que ecoam no Encontro. Em Fornalha Global, de Flávio Leandro, versos traduzem, em linguagem poética, a crítica ao desmatamento e às mudanças do clima:
“Queimando a mata
A verde roupa da terra
A humanidade entra em guerra com a natureza e seu dono
Todo carbono que ambição prolifera
Aquece a atmosfera
E a terra perde o seu sono
Gerando em massa fumaça de energia suja
A humanidade lambuza
O véu que cobre o planeta”
A canção converte denúncia ambiental em experiência sensível, aproximando a crise climática do cotidiano afetivo do sertão.
Relatos recorrentes entre participantes destacam a importância do encontro como espaço seguro de troca. Em um cenário de pressões ambientais, enfraquecimento de políticas públicas e desvalorização de saberes populares, reunir guardiões de conhecimentos tradicionais assume dimensão estratégica.
Na Serra de Exu, onde Caatinga, Cerrado e fragmentos de Mata Atlântica se tocam, o encontro materializa a ideia de que zonas de transição são também zonas de criação. Ao promover a circulação de saberes, reafirma que o conhecimento tradicional não é resquício do passado, mas ferramenta viva de permanência territorial.

Ao longo do encontro, essa dimensão ecológica ganha contornos explícitos. Ali foi elaborado um manifesto denunciando a expansão de monoculturas mecanizadas na Chapada do Araripe, especialmente a soja transgênica, e apontando riscos à vegetação nativa e aos aquíferos que abastecem o Semiárido. O documento foi apresentado em instâncias públicas locais, passou a circular como instrumento de mobilização política e incentivou a criação do Movimento Salve a Chapada do Araripe, que se mantém ativo dentro e fora do período do encontro.
Segundo o Relatório Anual de Desmatamento do MapBiomas (2024), a APA Chapada do Araripe está entre as Unidades de Conservação mais desmatadas do país. Foram registrados 5.965 hectares de vegetação nativa suprimidos. Em um território estratégico para a recarga hídrica do semiárido, esse número representa pressão direta sobre nascentes, biodiversidade e modos de vida tradicionais.
Para os envolvidos, preservar a Chapada não é apenas uma pauta ecológica, mas uma questão de continuidade cultural, segurança hídrica e autonomia territorial.
Ali, os biomas se abraçam e o conhecimento que nasce do chão segue sendo uma das formas mais sofisticadas de inteligência ambiental.
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