Análises

Parasitos, epidemias e sua relação com a destruição e restauração de ecossistemas

Evidência é o que não falta relacionando fragmentação de habitats, extinções locais e abundância de espécies oportunistas com o aumento da transmissão de algumas doenças

Cecilia Siliansky de Andreazzi ·
10 de março de 2022

As interações ecológicas descrevem as diversas formas de associações que existem entre os organismos em uma comunidade e os efeitos de um sobre o outro. Elas incluem aquelas que são benéficas (os mutualismos) ou negativas para os dois organismos (a competição), e abarcam também toda a extensa nuance de interações que são positivas para um, mas negativas para o outro (os antagonismos). Neste caso, podemos pensar na predação e no parasitismo. As interações ecológicas formam redes interconectando todas as espécies e são fundamentais para a sobrevivência delas e para o funcionamento do ecossistema como um todo.

Quando comecei meus estudos na Ecologia, durante o meu mestrado no Laboratório de Ecologia e Conservação de Populações da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nós estávamos justamente estudando como eram as interações antagonistas e mutualistas entre plantas, mamíferos e invertebrados. Queríamos entender como a perda das interações ecológicas entre os dispersores de sementes e as plantas acabavam criando as “florestas vazias”, nas quais pilhas de sementes se acumulavam em torno das árvores-mãe e eram intensamente atacadas por predadores e parasitos. 

Mas o que é um parasito? Um ser tão pequeno que muitas vezes causa um dano tão grande no seu hospedeiro. Mas por quê falamos em dano? Podemos pensar em dano se focamos no ponto de vista de um indivíduo hospedeiro, que perde parte de seus recursos e energia quando é consumido por um parasito co-habitante.. Mas do ponto de vista das populações, não podemos esquecer que os parasitos têm uma importância ecossistêmica pouco reconhecida e muitas vezes negligenciada. Os parasitos são responsáveis por controlar as populações dos seus hospedeiros, evitando que algumas espécies se tornem super-abundantes e desta forma ajudam a promover uma maior biodiversidade e coexistência entre muitas espécies. 

Epidemias nada mais são do que o resultado de uma interação ecológica que é dependente da densidade dos hospedeiros. Quanto mais hospedeiros disponíveis e próximos, melhor!

Voltando para o tema do meu mestrado, quando nós encontramos uma grande quantidade de sementes que não são dispersadas e ficam todas juntas acumuladas embaixo da planta-mãe, é justamente a ação dos inimigos naturais (predadores e parasitos) que evita que esta única espécie de planta domine o solo da floresta. Esse processo é chamado de regulação denso-dependente pelos inimigos naturais e foi inicialmente estudado por Daniel Janzen e Joseph Connell na década de 70. Este processo de regulação denso-dependente é um dos principais mecanismos que controlam a proliferação de pragas e é responsável pela promoção de alta biodiversidade, principalmente nos ambientes tropicais. Como vocês podem ver, a parasitologia é pura ecologia!

Epidemias nada mais são do que o resultado de uma interação ecológica que é dependente da densidade dos hospedeiros. Quanto mais hospedeiros disponíveis e próximos, melhor! Dentre os melhores hospedeiros para a propagação de um parasito podemos listar os animais de produção como as galinhas e os suínos, que são mantidos em em grandes densidades populacionais, os animais domésticos, e nós humanos. Na história da humanidade o que não falta são registros de epidemias. Elas aparecem desde a pré-história em todo o mundo, nos relatos das dinastias do Egito, no antigo testamento, na idade média, durante as navegações… Epidemias podem surgir a partir de parasitos ou patógenos já conhecidos, ou podem ser manifestações novas de um contato recente entre espécies. O fato de um parasito romper a barreira de uma espécie e passar a habitar uma outra não é uma raridade, mas sim um processo que faz parte da história natural deste tipo de organismo e favorecido pela seleção natural. É um processo muito parecido com o processo de invasão biológica, quando uma espécie é introduzida em um novo ambiente no qual encontra condições ideais para reprodução e sobrevivência e ausência de inimigos naturais. 

Da mesma forma que o que encontramos no processo de invasão biológica, ecossistemas degradados, com biodiversidade empobrecida, tendem a ser mais vulneráveis à introdução de um novo parasito, ou podem favorecer uma elevada reprodução (ou amplificação) de parasitos que já circulavam ali. Isso porque existem algumas poucas espécies de hospedeiros que são generalistas e oportunistas e se beneficiam das condições presentes nestes ambientes degradados. O tamanho das populações destas espécies tende a aumentar e isso significa uma maior disponibilidade de recursos para os seus parasitos, que também aumentam junto. Alguns parasitos são muito especializados e só conseguem interagir com uma ou poucas espécies de hospedeiros. No entanto, outros têm um espectro de potenciais espécies hospedeiras bastante amplo e quando eles encontram esses hospedeiros amplificadores em ambientes com pouca biodiversidade, aí é uma combinação perfeita para surtos e epidemias. 

Será que a restauração e refaunação dos ecossistemas pode reduzir a propagação de doenças infecciosas? Esta é uma das grandes perguntas da atualidade, principalmente se considerarmos que as doenças zoonóticas ainda são importantes causas de mortalidade e morbidade e que tem sido cada vez mais frequente o surgimento de novas doenças que se tornam pandêmicas.

Aqui na Fiocruz, no Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios, nós estudamos justamente quais são os hospedeiros silvestres destes parasitos e patógenos zoonóticos, ou seja, aqueles que também afetam humanos, e como eles são favorecidos pela degradação ambiental. Investigamos também como uma alta biodiversidade pode ajudar a diluir a transmissão destes agentes infecciosos e regular a propagação de surtos de zoonoses. O papel da biodiversidade como provedora do serviço ecossistêmico de controlar a transmissão de zoonoses teve um grande “boom” depois do aumento do número de casos de Doença de Lyme, nos Estados Unidos, associado à reduzida biodiversidade de mamíferos e é um tema que tem sido cada vez mais estudado. Evidência é o que não falta relacionando fragmentação de habitats, degradação ambiental, extinções locais, e super-abundância de espécies oportunistas com o aumento da transmissão de algumas doenças. Por outro lado, carecemos ainda de estudos que investiguem se o oposto também é verdadeiro. Será que a restauração e refaunação dos ecossistemas pode reduzir a propagação de doenças infecciosas?

Esta é uma das grandes perguntas da atualidade, principalmente se considerarmos que as doenças zoonóticas ainda são importantes causas de mortalidade e morbidade e que tem sido cada vez mais frequente o surgimento de novas doenças que se tornam pandêmicas. Estamos agora iniciando a década das Nações Unidas para a restauração dos ecossistemas e o que se espera é que estas ações coordenadas em escala global possam nos ajudar a enfrentar os impactos das mudanças climáticas e ambientais. Olhando aqui para a Mata Atlântica, temos ótimas experiências de projetos de restauração e refaunação que foram muito bem sucedidos e contribuíram para a conservação de espécies ameaçadas. O que ainda não podemos afirmar é o saldo positivo dessas ações em termos de redução de transmissão de doenças. 

Alguns trabalhos recentes indicam que o reflorestamento ajuda a controlar os tamanhos populacionais dos insetos vetores e também de certos roedores que são reservatórios de zoonoses, o que poderia contribuir para reduzir o risco de transmissão de doenças. No entanto, outros estudos também alertam para a importância de planejar a restauração ecológica levando em conta a configuração da paisagem, como por exemplo a quantidade e tamanho dos remanescentes presentes e o uso do solo do entorno destes remanescentes na paisagem. Por exemplo, se observou que os corredores florestais presentes ao longo das rodovias favoreceram a dispersão do vírus da Febre Amarela na Mata Atlântica porque serviram de habitat para os insetos vetores se dispersarem. 

Ainda são poucos os estudos que avaliaram como a restauração ecológica e a refaunação podem nos ajudar a controlar a transmissão de doenças zoonóticas, e o que eles indicam é que nem sempre o resultado é imediato e que pode levar um certo tempo até que estes benefícios sejam observados. No campo dos serviços ecossistêmicos, uma ação de manejo nem sempre é benéfica quando se leva em consideração a totalidade dos serviços providos pela biodiversidade. Algumas vezes há compromissos ou “trade-offs” entre os serviços e é muito importante que isso seja devidamente considerado para que se desenhe soluções baseadas em natureza de uma forma eficiente. Tenho certeza de que o reconhecimento da importância da biodiversidade de parasitos para a restauração das redes de interações

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

O projeto Mata Atlântica: novas histórias é apoiado pelo Instituto Serrapilheira.

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Comentários 1

  1. Gilberto diz:

    Eu nasci na vila de tapereba meu avô Dico Batista foi um dos fundadores da Vila