O planeta atravessa um momento de inflexão. A crise climática e a perda acelerada de biodiversidade não são mais ameaças distantes, mas realidades que impõem custos sociais e econômicos crescentes. Em um cenário onde os riscos ambientais – como eventos climáticos extremos e o colapso de ecossistemas – dominam o horizonte, a Soluções Baseadas na Natureza (SBN), entre elas a restauração de paisagens e florestas, emergem como uma solução central: representam pelo menos 30% da ação necessária para enfrentar a crise climática, uma vez que são capazes de reverter tendências negativas e construir um novo modelo de desenvolvimento de baixo carbono.
A restauração busca recuperar a vegetação nativa de áreas degradadas, ajudando a restabelecer o equilíbrio da natureza. Com “tecnologia” acessível e escalável – as árvores –, ela pode remover grandes quantidades de carbono da atmosfera, tornando-se crucial para manter o aumento da temperatura média global abaixo de 1,5ºC e para evitar o ponto de não retorno da Amazônia, o que a transformaria em uma espécie de savana e comprometeria sua capacidade de regular o clima. Cria as condições necessárias para a sobrevivência da biodiversidade, protege rios e nascentes, melhora a qualidade do ar e da água, e regula fluxos hídricos.
Seus benefícios, porém, alcançam muito mais do que a natureza. São múltiplos os ganhos gerados para as pessoas, como segurança hídrica e alimentar, resiliência climática, conservação da cultura e promoção de bem-estar. No campo socioeconômico, a restauração tem se consolidado como um pilar promissor da bioeconomia. Estudos indicam que, em média, cada dólar investido em restauração pode gerar até US$ 110 em benefícios econômicos, demonstrando um retorno potencial substancial. Até 2030, projetos bem-sucedidos podem gerar até 2,5 milhões de empregos diretos no Brasil, impulsionando a economia e fortalecendo áreas rurais.
Falando em Brasil, com seu vasto potencial de regeneração natural e um arcabouço legal robusto, o país tem a oportunidade de liderar essa agenda. O Código Florestal, por exemplo, determina a restauração de 21 milhões de hectares para regularização ambiental, enquanto o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) estabelece a meta de 12 milhões de hectares até 2030. Tais compromissos, alinhados às metas globais como o Acordo de Paris e o Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal, demonstram que a base técnica, legal e política já existe.
Essa potência já está virando prática: na CO30, o governo brasileiro anunciou que 3,4 milhões de hectares estão em restauração no país – quase um terço do objetivo nacional previsto para o final dessa década. Entretanto, para que a restauração seja ainda mais ampliada nos próximos 5 anos e se consolide como um pilar estruturante do desenvolvimento sustentável, é imperativo preencher cinco lacunas estruturais: financiamento de longo prazo, governança, salvaguardas, estruturação da cadeia produtiva e monitoramento dos impactos gerados.
Quando falamos sobre financiamento, é preciso começar pelo reconhecimento de que a restauração de paisagens é amplamente subfinanciada. Apesar da importância das SBNs para evitar os piores cenários climáticos, elas recebem menos de 3% do financiamento climático global. É urgente criar mecanismos financeiros sólidos, diversificados e com integridade, que mobilizem recursos de longo prazo e valorizem os resultados ambientais e sociais. O Tropical Forests Forever Facility (TFFF), estabelecido na COP30, é um passo importante para fechar essa lacuna e garantir que mais recursos financeiros cheguem diretamente aos Povos Indígenas e às comunidades tradicionais, que são os guardiões de nossas florestas. Outro exemplo importante é a Coalizão Brasil para o Financiamento da Restauração e da Bioeconomia (BRB FC), uma articulação entre organizações dos setores público e privado criada para acelerar a proteção e a restauração das florestas brasileiras por meio de investimentos direcionados e integrados de, pelo menos, US$ 10 bilhões até 2030 .
Da mesma forma, o avanço no Artigo 6.4 do Acordo de Paris reafirma a necessidade de mercados de carbono de alta qualidade que apoiem a ação climática. Modelos de negócio inovadores podem ajudar a aquecer esse setor e ampliar o volume de recursos disponíveis, como demonstra a estratégia implementada pelo Timberland Investment Group do BTG Pactual (BTG Pactual TIG) no Cerrado brasileiro: metade das áreas adquiridas pelo projeto é dedicada à restauração e à conservação de espécies nativas; enquanto a outra metade é alocada para plantações comerciais de árvores manejadas de forma sustentável e certificadas pelo FSC (Forest Stewardship Council). Como modelo de financiamento, a iniciativa se apoia na comercialização de créditos de carbono de alta integridade e na produção de madeira sustentável para viabilizar a restauração em larga escala.
Outro obstáculo que precisa ser superado é a dispersão e a falta de padronização das informações, que dificultam a tomada de decisão e atrasam a implementação de políticas públicas de restauração. Dados sobre passivos ambientais, incentivos financeiros por estado, Programas de Regularização Ambiental e custos por bioma existem, mas frequentemente em formatos incompatíveis e descentralizados. A restauração exige decisões técnicas, rápidas e fundamentadas, baseadas em dados integrados, interoperáveis e acessíveis. É bem verdade que existem ferramentas em desenvolvimento para atacar esse problema, como o Monitor do MapBiomas, o Observatório da Restauração e Reflorestamento (ORR) e a CIERA, plataforma que usa inteligência artificial no cruzamento de informações de políticas, planos, instrumentos legais e artigos científicos para indicar áreas prioritárias para restauração. Porém, o alinhamento entre diferentes esferas de governo e a clareza nas diretrizes são essenciais para acelerar a agenda.
Adotar salvaguardas socioambientais robustas – diretrizes técnicas, sociais e ambientais norteadoras das atividades – também é um imperativo. É necessário assegurar que agricultores familiares, povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais estejam no centro da agenda, com participação ativa e legitimidade dentro dos projetos. Restaurar ecossistemas é também restaurar modos de vida e isso só é possível com respeito às comunidades locais que já possuem relações com os territórios em recuperação e são detentoras de um conhecimento ancestral para a solução de problemas locais. Projetos como o Priceless Planet Coalition (PPC) mostram essa viabilidade na prática ao promover a restauração de 5 mil hectares de Mata Atlântica seguindo salvaguardas alinhadas aos direitos e interesses das comunidades locais, garantindo a integridade das ações implementadas, a redução de riscos e a repartição justa dos benefícios para as pessoas e ecossistemas.
Porém, a restauração não começa com o plantio de uma muda ou semente. Para se sustentar no longo prazo, é preciso investir em uma cadeia produtiva, garantindo insumos de qualidade e com oferta adequada, viveiros estruturados, logística eficiente, capacitação técnica e redes articuladas entre atores. O Pará, por exemplo, tem a meta de restaurar 5,6 milhões de hectares até 2030, o que representa metade da meta nacional estabelecida pelo Planaveg, mas enfrenta escassez de mudas e mão de obra capacitada. Por isso, são cada vez mais comuns iniciativas voltadas à estruturação da cadeia no estado. Uma aliança de organizações, empresas, governos e atores locais, por exemplo, está investindo na criação de redes estratégicas de atores, treinamentos e fortalecimento de viveiros para aumentar a capacidade anual de produção de mudas em até 4 milhões de unidades. Já iniciativas com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), financiadas pelo Fundo Amazônia, além de restaurar até 6,5 mil hectares em diferentes estados da Amazônia, capacitam e apoiam a formalização de coletores de sementes e viveiristas, fortalecendo a autonomia e profissionalização do setor.
Por fim, é fundamental monitorar com rigor os impactos gerados. Sem a mensuração precisa dos resultados, não é possível garantir a eficácia das iniciativas , otimizar estratégias para maximizar benefícios e replicar os aprendizados em outras áreas. É sabido que acompanhar grandes áreas é uma tarefa complexa, ainda mais em um país continental como o Brasil. Mas iniciativas como a em desenvolvimento pela sustainacraft inc., que une dados de campo com imagens de satélite para estimar biomassa, biodiversidade e estoques de carbono de forma automatizada, são promissoras.
Apesar dos desafios, o país vem demonstrando que restaurar paisagens é viável e estratégico. Como visto, atores de diferentes setores estão engajados em alavancar essa agenda – e isso inclui, é claro, a Conservação Internacional (CI-Brasil). Parceira de todos os projetos citados, o trabalho da organização atravessa a Mata Atlântica, Amazônia e Cerrado, e já resultou no plantio de mais de 146 milhões de mudas nativas na restauração de 58 mil hectares. Um esforço que gerou cerca de 29 mil postos de trabalho em comunidades locais e deverá remover 762 mil toneladas de CO₂ da atmosfera ao longo dos próximos 30 anos.
A nossa experiência é mais um exemplo de como a restauração tem tudo para se consolidar como uma das bases de um novo modelo econômico sustentável, promovendo inclusão social, resiliência climática e conservação em escala. Essa é a verdadeira agenda de ação e o caminho está claro. O momento exige que o país assuma essa agenda como um projeto nacional de longo prazo.
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