Emerson José de Sousa tem mãos de lavrador e cabeça de biólogo. Há cinco anos, ele era um expoente do que se costuma chamar de população tradicional, sempre que velhos hábitos esbarram em novos projetos para a conservação da natureza. Em Taiaçupeba, uma cidade que por sorte parou no tempo a uns 70 quilômetros de São Paulo, Emerson vivia da coleta clandestina de plantas ornamentais, nas bordas do Parque Estadual da Serra do Mar. Vendidas a turistas na beira da estrada ou a floriculturas em Bertioga, as helicônias e samambaias tiradas da mata atlântica sustentaram três gerações de sua família.
Seu avô catava muda na floresta. Seu pai, também. “E eu fui samambaieiro por 12 anos”, diz Emerson. Doze anos parecem uma vida para quem acaba de chegar aos 27. Menino ainda, aprendeu a andar no mato, varando a serra, morro acima e morro abaixo, até roçar os condomínios de luxo que iam brotando à beira-mar. Perdeu a conta dos bichos que encontrou nessas travessias – “paca, veado, caititu, onça parda, praticamente tudo”. Uma vez, no rumo de Bertioga, topou com onça pintada. Não caçava, porque samambaieiro, segundo ele, não perde tempo com espingarda. “Eu estava atrás das folhas”, explica.
“Milzinhos” mensais
Emerson é capaz de achar até hoje, por caminhos sem trilhas, os grotões perdidos em encostas inacessíveis onde crescem os melhores tufos de helicônias e samambaias. “Fixava bem a localização, voltava ao lugar quantas vezes quisesse, fazia as podas e deixava as matrizes para a regeneração”, ele esclarece. Tirou muita planta. Mas não leva ao pé da letra quem “fala que eu estava detonando o mato”. Não foi ele quem deu fim ao que anda sumindo de lá. “Muito lugar que conheci no meio da mata agora tem casa em cima, quando não está tudo cimentado por cima”, ele reclama. Os samambaieiros, a seu ver, “sabem que não podem catar tudo, senão acaba”. Ele só visitava de três em três meses cada ponto de coleta. Na trégua, as moitas se refaziam da visita anterior. E isso, para Emerson, não deixava de implicar “uma certa idéia de manejo florestal”.
Valia a pena? “Dava para ganhar a vida”, ele responde. Sabendo trabalhar e garantindo a freguesia, ganhava por mês “uns milzinhos”. Atualmente, Emerson é encanador e pedreiro. Dá aulas de graça nos fins de semana em escolas rurais. E guia turistas no Parque das Neblinas, que há quatro anos surgiu entre ele e a mata. O parque é uma reserva particular de 2.788 hectares, criada nos eucaliptais da fazenda Sertão dos Freires, onde antes a Suzano, fabricante de papel e celulose, colhia madeira de reflorestamento.
Helicônias e samambaias
“Fui o último, o mais teimoso”, ele relembra. Depois que a empresa proibiu de vez no parque a extração ilegal de flora nativa, a rotina de Emerson mudou tanto, que ele está terminando o curso de Biologia na Universidade Brás Cubas, em Moji das Cruzes. “No princípio, o parque me impediu de trabalhar. Mas cresci aqui, não quero sair de Taiaçupeba e tratei de sair por baixo para voltar por cima”, ele conta. Nem por isso maldiz o passado: “Deu o que tinha que dar”. Enquanto passa as últimas demãos de verniz acadêmico nas lições que recebeu do mato, vai embicando a carreira acadêmica para cima. Já apresentou em congresso de Biologia um ensaio sobre as virtudes ambientais do eucalipto, desagravando uma árvore difamada por gerações de palpiteiros. E, ultimamente, com o instituto Ecofuturo, braço sócio-ambiental da Suzano, treina moradores da região para produzirem helicônias e samambaias nas capoeiras de Taiaçupeba, num programa comunitário de manejo sustentável.
“É até estranho eu dizer isso. Mas sei, por experiência própria, que quando você pára de amansar o mato a samambaia some e rebrotam as guaricangas”, ele comenta. Aprende-se muito numa conversa com Emerson. Inclusive, que sua trajetória pessoal talvez não sirva de exemplo, por ser inimitável. Mas se, do outro lado dessa história, estivesse uma floresta do governo, e não uma propriedade particular, é provável que ele ainda estivesse catando planta no mato, enquanto as autoridades discutiam se não seria o caso de adaptar o parque aos costumes da população tradicional, em vez de adaptar ao parque a população tradicional.
Leia também
Brasil perdeu 1,4 bilhão de toneladas de carbono do solo por conversão de áreas naturais à agricultura
Quantidade equivale à emissão de 5,2 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, segundo cálculo feito por pesquisadores da Esalq-USP e da Embrapa →
Um ano de Trump: como os Estados Unidos reverteram avanços climáticos, dentro e fora do país
Earth.Org analisa algumas das ações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desde sua posse em 20 de janeiro de 2025, e o que elas significam para os estadunidenses e para o mundo →
Justiça afasta indenização milionária envolvendo desapropriação no Parque Nacional do Caparaó
TRF-2 reconheceu prescrição e e livrou Ibama e ICMBio de indenização sobre áreas da Unidade de Conservação criada em 1961 →




