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‘A Peleja do Eucalipto’, ou o avanço da celulose sobre o pampa

Com rigor jornalístico, jovem repórter conta que investimentos de papeleiras no RS foram lubrificados por estudos amigáveis de impacto ambiental e por normas frouxas do governo.

25 de junho de 2008 · 18 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

Verde-musgo por fora e cor de papel reciclado por dentro, A Peleja do Eucalipto caiu-me nas mãos como uma folha, meses atrás, no campus da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. O autor, João Werner Pflüger Grando, apresentou-o como seu trabalho de conclusão do curso de Jornalismo, sem tempo para conversa. O carro zarpava para o aeroporto, em cima da hora. O livro teria de falar sozinho.

No aeroporto, o vôo atrasou, para não perder o costume. E, antes que o avião pousasse, senão em terra, ao menos no placar eletrônico com a previsão de chegada, as 115 páginas estavam lidas. Primeiro, com benevolência, pois não passava de uma candidatura a repórter. Mas, na quinta linha, a benevolência virou atenção genuína. Não é todo dia que se encontra um texto acadêmico onde o começo da história não fica nos últimos parágrafos.

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No caso, os parágrafos iniciais noticiavam a demissão, no governo gaúcho, da secretária de Meio Ambiente. Ela caiu em meados de 2007, soprada pelo bafo azedo do debate entre empresários, políticos e ambientalistas, que agita os eucaliptais do Rio Grande do Sul. Plantados por gigantes da indústria da celulose, estão mudando a paisagem imemorial que acolheu os colonizadores do pampa, com 180 mil quilômetros quadrados de campos naturais, habitados por 3 mil espécies de plantas, 385 de aves e 90 de mamíferos.

Ao contrário da aviação comercial, que remanchava, Grando deu seu recado a jato, na sala de embarque lotada. Apesar do sotaque regional, A Peleja do Eucalipto, segundo ele, integra o enredo sem fim da novela que, no País e no mundo, opõe desenvolvimento econômico e meio ambiente, quando eles prevalecem a qualquer custo. Bom tema para um aprendiz de repórter extravasar seu radicalismo estudantil.

Mas Grando conseguiu se equilibrar nas arestas da polêmica, afiadas por investimentos de US$ 4 bilhões, vitais à economia do Estado, por denúncias de que os projetos papeleiros da Stora Enso, da Votorantim e da Aracruz foram lubrificados pelas avaliações panglossianas de impactos ambientais nos estudos das empresas e por regulamentos frouxos do governo.

Era a mesma história de sempre, mas contada com uma profusão de detalhes que a urgência diária das redações raramente encoraja nos profissionais. Entre consultas a bibliotecas, fontes presumíveis dos 29 livros e documentos citados na monografia, entrevistas de gabinete e longas conversas no campo, a apuração consumiu R$ 5.846 – incluindo os R$ 625 da comida e os R$ 320 da hospedagem, gastos modestos para 25 dias de viagem. Até na prestação de contas Grando deu uma aula de rigor jornalístico.

Quando os alto-falantes chamaram os passageiros, o livro, já lido, sumiu na sala de embarque apinhada, junto, um telefone celular cuja memória para endereços até hoje faz falta. O livro, ao contrário do aparelho, voltou. Veio acompanhado de uma carta do professor Carlos Locatelli, anunciando que Grando abrirá a série Projeto Final, uma coleção de livros do Departamento de Jornalismo, com reportagens de alunos. “E, acredite, temos muitas”, diz Locatelli, enumerando “a vida nas Farc” e “os campos de refugiados em Angola”. Pela amostra, presume-se que um dos títulos tem tudo para fazer barulho.

Cobre “os EIA-Rima falsificados para favorecer grandes empresas”, um assunto que a imprensa brasileira está devendo há muito tempo.

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