Com o avanço da urbanização, as cidades se expandem e transformam profundamente os ambientes naturais, ameaçando a biodiversidade. Diante desse cenário, torna-se fundamental pensar em formas de conciliar o crescimento urbano com a conservação da biodiversidade. Nas cidades, a conservação da biodiversidade se dá através dos espaços verdes urbanos. Esses espaços incluem desde jardins, parques e praças até fragmentos florestais, quando esses ainda existem nas cidades. Mas, embora convivamos diariamente com esses espaços, raramente percebemos a diversidade de organismos que vivem neles. As formigas estão entre esses organismos e, apesar do pequeno tamanho, desempenham funções de grande importância!
Uma dessas funções é a dispersão de sementes – etapa fundamental para o sucesso reprodutivo de diversas plantas. Na cidade de Belo Horizonte, as formigas se mostraram essenciais para a regeneração da vegetação dos espaços verdes urbanos. Um estudo experimental mostrou que, em diferentes tipos de espaços verdes, algumas espécies de formigas foram capazes de transportar sementes artificiais por distâncias de até sete metros. Embora essas sementes não germinem, elas funcionam como um modelo para estimar o potencial de dispersão de sementes reais. Assim, os resultados sugerem que as formigas podem transportar sementes verdadeiras por distâncias semelhantes, o que potencialmente aumenta suas chances de germinação. Dessa forma, esses insetos desempenham um papel importante na manutenção e regeneração dos espaços verdes.

Outra função desempenhada pelas formigas é a remoção de resíduos orgânicos e controle de pragas. No coração financeiro do mundo, em Manhattan, enquanto milhões de pessoas circulam diariamente, formigas trabalham silenciosamente como removedoras de resíduos orgânicos, prestando um serviço que quase ninguém percebe. Junto com outros artrópodes, elas removem, por ano, cerca de 600 a 975 Kg de resíduos orgânicos dos canteiros centrais, o equivalente a cerca de 60 mil cachorros-quentes ou 200 mil biscoitos ou 600 mil batatas chips! Essa remoção ajuda a manter sob controle visitantes nada populares como ratos e baratas.
Mas o que determina quais espécies de formigas conseguem viver em cidades? Para responder essa pergunta, nós, inicialmente, fizemos uma revisão sistemática da literatura científica e verificamos que ainda existem poucos estudos sobre como a quantidade e a distribuição espacial dos espaços verdes nas cidades afetam as formigas. Isso nos motivou a investigar, junto com os pesquisadores Jarbas Marçal Queiroz, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, e Jacques Hubert Charles Delabie, da Universidade Estadual Santa Cruz, o que moldava a diversidade de formigas na cidade maravilhosa: o Rio de Janeiro.
O Rio, apesar de ser a segunda maior metrópole do país, apresenta uma ampla cobertura verde. Isso se deve, em especial, à presença de duas das maiores florestas urbanas do mundo: o Parque Nacional da Tijuca e o Parque Estadual da Pedra Branca. Mas outros espaços verdes cariocas também contribuem para esse cenário. As praças, por exemplo, abundam na cidade, chegando a mais de duas mil, de acordo com o Plano Diretor. Essas praças fazem parte do cotidiano da população carioca como lugares de encontro e interação social, além de funcionarem como espaços culturais, políticos e de lazer, incluindo a prática de esportes. Sendo assim, decidimos investigar como as características locais de 30 praças da cidade e da paisagem ao redor delas poderiam influenciar a diversidade de formigas.

Nessas praças nós encontramos um total de 79 espécies nativas, um número muito alto considerando que o Parque Nacional da Tijuca abriga 86 espécies. E, uma das espécies que registramos nas praças foi Atta robusta, uma espécie ameaçada de extinção! Ela é uma formiga cortadeira e, embora esse grupo seja muitas vezes visto como praga, desempenha funções essenciais no ecossistema, como a ciclagem de nutrientes e a estruturação do solo.
Além das espécies nativas, também registramos oito espécies exóticas, ou seja, espécies que estão fora de sua área de distribuição original. Dessas oito, duas nunca tinham sido registradas no Brasil. É curioso perceber que essas espécies não estavam escondidas em áreas distantes, mas bem ali, nas praças de uma das maiores cidades do país. Isso mostra como a biodiversidade urbana ainda guarda surpresas, mas também reforça a importância de identificar e acompanhar espécies exóticas. Embora nem todas causem problemas, algumas podem se tornar invasoras, trazendo impactos negativos para a biodiversidade e para o próprio funcionamento dos ecossistemas urbanos.
Por fim, nossos resultados mostram que a vegetação dentro das próprias praças faz muita diferença: quanto maior a cobertura de árvores, maior a diversidade de formigas nativas (Figura 1). Além disso, o entorno dessas praças também é importante. Praças cercadas por muita área construída tendem a abrigar menos espécies, enquanto aquelas inseridas em paisagens com mais espaços verdes apresentam maior diversidade (Figura 2). Esses achados indicam que é possível favorecer a biodiversidade nas cidades, por exemplo, com o aumento da cobertura de árvores e manter ou ampliar a presença de espaços verdes distribuídos pela malha urbana.


Assim, nossa pesquisa revela uma diversidade de formigas escondida em espaços comuns do nosso cotidiano e mostra que as cidades podem, sim, abrigar uma biodiversidade rica e funcional. Mais do que isso, nossos resultados indicam que medidas relativamente simples podem favorecer essa biodiversidade. Em um cenário de urbanização crescente, pensar cidades mais verdes não é apenas uma questão estética, mas uma estratégia fundamental para conservar a biodiversidade e a qualidade de vida na cidade.
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