Colunas

A nova casa dos porquinhos

Esqueça a palha, a madeira ou o tijolo. Sinal de avanço e civilização agora é projetar casa feita de material sintético, à prova de "mistérios" da natureza.

6 de maio de 2005 · 21 anos atrás

extinção: com vinte milhões de anos de vida sobre a terra, o homem atingiu a civilização apenas nos últimos dez mil. Uma civilização, uma cultura, uma capacidade de domínio e apropriação das forças e mistérios da natureza de que nenhum animal jamais se aproximou. Com isso – vinte milhões de anos de vida, mas apenas dez mil de civilização – é o único animal que tornou possível uma coisa antes inacreditável – sua auto-destruição como espécie. Dando ainda, de lambuja, a destruição de todas as outras. Nada indica que o homem consiga escapar de sua própria fúria e estupidez nos próximos dez, cem ou, no máximo, mil anos.

Millôr Definitivo – A Bíblia do Caos, Millôr Fernandes

Millôr talvez seja um profeta ou, simplesmente um homem que vê as coisas como elas são. Não é difícil perceber que estamos cada vez mais próximos de cumprir sua profecia. Basta ler o noticiário sobre avanços tecnológicos e científicos. A maioria, hoje, tem a ver com trabalhos ou pesquisas que pretendem corrigir erros do passado, defender o homem de sua própria história.

Navegando pela Internet, encontrei uma reportagem sobre um novo tipo de casa, desenvolvida por engenheiros alemães e cujo principal atributo está na sua capacidade de resistir a catástrofes naturais. O tom do texto é laudatório, como se estivesse comemorando a subida de mais um degrau do processo da “evolução” humana. A tal casa espacial é uma maravilha tecnológica. Coisa de dar inveja aos Jetsons, que aparentemente serviram como inspiração para os cientistas.

A casa tem uma forma esférica, é construída com material de nave espacial e foi projetada para resistir a qualquer bordoada da natureza, como por exemplo, ventos de mais de 200 quilômetros por hora e enchentes de até três metros. O projeto teve a participação ativa da indústria de seguros alemã. Foi ela quem deu aos seus criadores os parâmetros de engenharia de uma casa que seus corretores aceitariam segurar sem se preocupar com o risco de algum dia, por conta de uma chuva mais forte, ou um tsunami, ter que pagar uma apólice.

Se esse projeto de moradia blindada é sinal de evolução tecnológica, eu certamente sou de uma espécie que não pretende evoluir e seguirei em busca do inverso. O projeto casa espacial me assusta. É fruto de uma ilusão que nos faz acreditar que temos a capacidade de nos tornarmos indestrutíveis. Sempre correndo atrás do rabo e cada vez com mais pressa. Parece ser mais fácil evitar as conseqüências de um comportamento ruinoso do que mudá-lo.

Como bem descreveu Millôr, “nada indica que o homem consiga escapar de sua própria fúria e estupidez nos próximos dez, cem ou, no máximo mil anos”.

Leia também

Colunas
13 de fevereiro de 2026

Perigos explícitos e dissimulados da má política ambiental do Brasil

pressões corporativas frequentemente distorcem processos democráticos, transformando interesses privados em decisões públicas formalmente legitimadas

Notícias
13 de fevereiro de 2026

Transparência falha: 40% dos dados ambientais não estavam acessíveis em 2025

Das informações ambientais disponibilizadas, 38% estavam em formato inadequado e 62% desatualizadas, mostra estudo do Observatório do Código Florestal e ICV

Análises
13 de fevereiro de 2026

O Carnaval é termômetro para medir nossos avanços no enfrentamento da crise climática

Os impactos da crise climática já são um problema do presente. Medidas políticas eficazes de prevenção aos eventos climáticos extremos não podem ser improvisadas às vésperas das festividades

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.