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Na Nigéria, três quartos de século de ‘atividades sustentáveis’ acabaram com a floresta. No Brasil, a corrupção sistêmica torna-me pessimista sobre as concessões florestais.

11 de abril de 2008 · 14 anos atrás
  • Fabio Olmos

    Biólogo, doutor em zoologia, observador de aves e viajante com gosto pela relação entre ecologia, história, economia e antropologia.

“Não somos daqueles que defendem a Amazônia como um santuário da Humanidade”. Luiz Inácio Lula da Silva, em visita à Guiana Francesa. (OESP, 13/fev/2008).

Precisava falar, presidente?

Com o auê gerado pelo mais que retorno em grande estilo do desmatamento Amazônico e do Cerrado, nosso presidente comunicou ao mundo que o agronegócio não é o responsável pelas áreas de florestas que imagens aéreas e de satélite mostram terem sido derrubadas, queimadas e convertidas em pastagens e plantações de soja.

Alguns colegas ironizaram que Lula deve acreditar que o desmatamento é resultado de árvores cometerem harakiri em massa (presumivelmente usando motosserras) e se atearem fogo. Outros apontaram a afirmação como mais um produto da ignorância de nosso presidente.

Discordo. Lula pode ser um ignorante do tipo que não sabe apontar o rio Solimões em um mapa ou explicar o ciclo hidrológico. Mas nosso presidente tem inegável inteligência política, e suas reações de primeira hora à divulgação da retomada do desmatamento mostram que ele sabia muito bem o que acontecia e suas implicações. Mostra também quais são suas prioridades, e a sensação de que o que lhe importa é a popularidade, que na sua cabeça o autoriza a falar e fazer qualquer coisa.

A afirmação dissociando o desmatamento do agronegócio se junta à folclórica série “nunca antes na história deste país”. E a afirmações, pouco mais antigas, de que ele nada sabia sobre o Mensalão. Lula não é ignorante, mas também não é amigo da verdade. Parafraseando o próprio, suas frases são uma cadeia de tumores que indicam um câncer bem real, e lhe valeriam descomposturas de Kant e Aristóteles.

Ser econômico com a verdade faz parte do jogo político, e é fato que pelo menos 18% do desmatamento amazônico é resultado de nossa imbecil política de “reforma agrária” (responsabilidade direta do governo federal). Mas é impossível não se sentir mal diante do uso da técnica em apoio à boçalidade predatória do setor majoritário do agronegócio. Aquele que, com a cabeça no século XVI, vê o futuro do Brasil em campos infinitos de soja, cana e pastagem enquanto promovem horrores como a escravidão, a jagunçagem, a grilagem de terras públicas e a música breganeja.

Pelo menos este pessoal é coerente. Não apenas estão repetindo o processo que gerou as cidades mortas do Vale do Paraíba (aguardem a próxima recessão global), como usam contra as áreas de reserva legal o mesmo argumento (“direitos adquiridos”) que usavam contra o fim da escravidão. Ao ler as entrevistas de expoentes do setor dizendo que o agronegócio nada tem a ver com o desmatamento, dá para ver que a turma também é adepta do uso do ouvido alheio como penico. Esses são os heróis de nosso presidente.

A agropecuária brasileira combina tanto o melhor em produtividade e eficiência em alguns setores, como o pior em arcaísmo e desperdício de outros. Há um longo caminho até que o setor como um todo possa ser chamado de social e ambientalmente responsável. Continuamos desmatando enquanto temos 16,5 milhões de hectares (ha) de pastagens abandonadas na Amazônia. Bela modernidade.

Enquanto o mundo queima surgem iniciativas que parecem ecologicamente corretas. Se fazem diferença é outra história. O supermercado onde faço compras vende bifes de “boi verde”, vindo do Mato Grosso do Sul. O site informa que se trata de boi “orgânico” (sempre quis ver um inorgânico) criado em pasto sem pesticidas e tratado com homeopatia. Em nenhum lugar informa se o tal “boi verde” é produzido por fazendas que respeitam suas APPs e reservas legais, e não estão entre as responsáveis por Mato Grosso do Sul perder cerca de 100 mil ha de florestas por ano. Nem se o “boi verde” não colabora para o processo que fará o Pantanal deixar de existir em 40-50 anos.

Como consumidor eu ficaria feliz em saber se os bifes que compro não subsidiam o fim do Pantanal. Como não me informam, prefiro carne uruguaia ou argentina.

Economia com a verdade é comum para justificar políticas públicas baseadas em convicções dos que as alardeiam (ou de quem os pagou para tê-las). Muitas, mesmo se populares entre as massas acríticas que caracterizam o eleitorado dominante, encontram pouco apoio quando cotejadas com a realidade objetiva. A questão ambiental é farta neste aspecto.

O exemplo vem de cima. Mesmo que a demografia das árvores permita a exploração madeireira sustentável e lucrativa das florestas públicas, ainda uma hipótese, a ausência do Império da Lei e a corrupção sistêmica que contaminam o Brasil me tornam pessimista sobre as concessões florestais. Visitei o futuro e voltei para contar.

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