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Nem tudo que afunda é mercado de ações

Com a avalanche de notícias sobre crise financeira, aplausos para o jornal The Guardian, que esta semana botou na sua primeira página chamada alertando sobre os perigos do aquecimento global para o litoral da Inglaterra.

17 de outubro de 2008 · 17 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

A notícia de que 142 monumentos arquitetônicos, 111 edifícios tombados, o retiro de verão da escritora Agatha Christie e quase 300 quilômetros de praias podem desaparecer na Inglaterra, engolidos pela maré da mudança climática, fez o que parecia impossível nestes tempos de obsessão internacional com a crise financeira. Ela furou a casca do único assunto que interessa. Amanheceu na segunda-feira passada (13) na primeira página do jornal The Guardian.

Ponto para o repórter Steven Morris. Ele não poderia ter encontrado uma hora melhor – nem mais difícil – para nos lembrar que nem tudo o que está afundando no mundo de uma hora para outra é índice de bolsa ou cotação de papel. Fez isso com munição pesada. Armou-se com o National Trust, uma fundação com 3,5 milhões de doadores e 52 mil trabalhadores voluntários, responsável por um patrimônio ambiental e histórico orçado em mais de 300 prédios, parques, moinhos, estradas, relíquias da revolução industrial, parques e florestas. Pelo menos 50 milhões de pessoas visitam anualmente esses lugares.

Recorde de temperatura

A National Trust avisa que, com o gelo do Ártico degelando a olhos vistos (acaba de bater mais um recorde neste outono do Hemisfério Norte, com os termômetros lá em cima estão ultrapassando em 5ºC a média histórica da estação), uma parte considerável desse tesouro pode ir a pique na costa sudeste da Inglaterra. Se a temperatura começar a subir, o Atlântico tende a avançar terra adentro.

“Praias e penedos fabulosos, ancoradouros e edifícios estão em perigo”, diz a reportagem. Da lista publicada pelo Guardian consta Saint Michael, penhasco onde o Cristianismo fincou o pé no país de Gales há dois milênios. O lugar já constava das rotas comerciais na Europa há mais ou menos 2.500 anos. No Século 12, coroaram-se seus rochedos com a abadia fortificada que é um dos grandes trunfos turísticos da Inglaterra.

A ilha tem população permanente e um castelo medieval ainda ocupado por “uma família moderna”, segundo os guias da região. E, como acontece na França com Mont Saint Michel, do outro lado da Mancha, na maré baixa é possível caminhar pela areia úmida até a ilha. Por seu relevo escarpado, Saint Michael, em si, construído no alto de pedras, está garantido. Mas o relatório dá, no máximo, 45 anos de sobrevida à passarela que liga o rochedo à terra firme.

Há casos piores, como o de Bossington, vilarejo de uma só rua, onde as casas conservaram seus tetos de palha, seus fornos de pão estufando o adobe das fachadas e seu isolamento rural. Ali, a erosão ameaça os pântanos e bosques que margeiam suas estradas e são parte inseparável da paisagem.  

E é difícil saber o que restará dos jardins de Westbury Court, um parque plano, plantado no Século 17 à beira-mar. Ele se encaixa entre canais. Tem aléias com árvores que já passaram dos 300 anos. Guarda, como troféu vivo, um carvalho com fama de ser o mais velho da Inglaterra. Quarenta anos atrás, Westbury Court parecia a um passo do desmonte final, com canais assoreados e canteiros invadidos pelo mato. Por pouco, não se rendeu à especulação imobiliária. Mas a prefeitura local comprou o parque a tempo, salvando-o das mãos de um incorporador e entregando-o à National Trust, que fez dele um dos melhores endereços turísticos de Gloucestershire. De repente, ei-lo classificado entre 13 monumentos sob “alto risco”. É candidato forte a acabar debaixo d’água ou num pântano, se o nível do Atlântico passar do ponto naquelas bandas.

Phil Dyke, conselheiro da National Trust, queixou-se ao repórter do Guardian que está passando da hora de tomar providências contra o que vem por aí nos próximas décadas. Pede com urgência uma mudança de hábitos na administração pública, que precisa aprender agora a pensar no que deve acontecer “daqui a 20, 50 ou 100 anos”, e não na eleição do ano que vem. Isso inclui a realocação de cidades inteiras. Não é, portanto, um plano fácil de engolir. É o tipo de coisa que, em qualquer lugar do mundo, os políticos e os governos preferem empurrar com a barriga.

A mudança climática é uma emergência de longo ou, pelo menos, médio prazo. Dá sinais agora do que acontecerá nos próximas décadas. Ou seja, o sucessor que se vire. E, como todo sucessor tem seu sucessor, a hora de levá-la a sério nunca chega. “Ainda estamos para ver homens públicos que acordem de verdade para o impacto da mudança”, disse ele. Dyke fala de um país que tem 30 agências diferentes para tratar dos problemas costeiros e há três anos criou programas específicos para lidar com desde já com os impactos da mudança climática no litoral. Imagine-se o que não diria se tivesse que encarar o futuro com os pés plantados na costa do Brasil.

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