Colunas

Preconceito contra as pererecas

Quase todos os dias nos chega um pedido de dicas de algum veneno para acabar com as pererecas ou repelente para afastá-las para bem longe e para sempre. E muitos são de pessoas bem esclarecidas

9 de junho de 2009 · 12 anos atrás
  • Germano Woehl Junior

    Catarinense, doutor em física pela UNICAMP, pesquisador titular do Instituto de Estudos Avançados, em São José dos Campos (SP...

Estudantes de Corupá (SC) participantes da força-tarefa para salvar os sapos infestados por carrapatos.

Desde criança eu luto para diminuir o preconceito das pessoas contra sapos, rãs e pererecas. Nos últimos anos consegui uma aliada muito forte, com muita energia e uma determinação surpreendente. Trata-se de minha esposa, Elza Nishimura Woehl. Não sei como aceitou encarar este desafio de defender as pererecas. Graças a esta parceria, nosso esforço ficará para história pela impressionante escala que conseguimos empreender no sentido de popularizar estas criaturas, tão “abomináveis” para brasileiros de todas as classes sociais.

Nestes últimos 12 anos, período em que nos dedicamos de corpo e alma na defesa das pererecas, tivemos uma forte interação com uma amostra significativa da população brasileira o que nos permitiu ter uma idéia da dimensão do problema. Colecionamos muitas histórias de horrores e de sucesso também.

Eu lembro muito bem dos conflitos em que me envolvia com os colegas da escola, já aos 6 anos de idade, ao protestar contra a matança de sapos numa lagoa temporária que ficava no trajeto da escola do batalhão ferroviário, no bairro Lucena, em Itaiópolis (SC), que tinha apenas duas salas de aula. O principal lazer da maioria dos colegas da 1ª a 4ª série, para aliviar a tensão na saída da aula, era apedrejar os sapos que estavam em atividade reprodutiva nesta lagoa. Ninguém ia para casa enquanto não matasse uns 2 ou 3. Até hoje eu tenho guardado na memória aquela carnificina. Acho que foi nesta lagoa temporária que eu comecei a entender o ser humano e como a natureza está sem chances diante desta fúria destruidora.

No formulário de contato do site do Instituto Rã-bugio as mensagem  mais comuns que chegam são sobre como acabar com a praga das pererecas. Quase todos os dias chega uma pedindo dicas de algum veneno para acabar com as pererecas ou repelente para afastá-las para bem longe e para sempre. E muitas são de pessoas bem esclarecidas.

Uma delas foi de uma professora de uma importante universidade, com pós-doutorado na França, que nos suplicou por uma receita para acabar com as pererecas que insistiam em aparecer no banheiro de sua casa de campo. Ela explicou que tinha horror de pererecas e que queria acabar com elas de qualquer jeito. Então, enviei nossa resposta padrão, que os anfíbios não oferecem perigo, que devem ser respeitados pelas pessoas, que é só fechar bem as janelas durante a noite etc. Furiosa com esta resposta, ela escreveu que não é obrigada a gostar de um bicho pelo qual tem pavor e muito nojo.

O campeão de reclamação é o sapo-martelo. Clique aqui e ouça o coaxar, que você já vai entender o porquê deste nome e de tanta reclamação. Certamente até mais do que o Procon recebe sobre as empresas de telefonia. Já recebemos muitas mensagem de gerentes hotéis-fazenda e pousadas desesperados para solucionar o “problema”, de tanta reclamação dos hóspedes que não conseguiam dormir. É engraçado que estes hóspedes não devem reclamar tanto dos baderneiros e, ao contrário destes, por volta da meia noite, os machos do sapo-martelo param de coaxar intensamente emitindo alguns sons esporádicos ou ficam completamente em silêncio.

Crianças observando um sapo-martelo dormindo escondido numa bromélia da RPPN Santuário Rã-bugio.

Há um caso em que o sapo-martelo teve um pouco mais de sorte, um indicador de que nosso trabalho dá certo. Ocorreu no município de Schroeder (SC), da região do vale do rio Itapocu onde atuamos com muita força. Um morador não suportava mais o barulho do sapo-martelo e solicitou à prefeitura que aterrasse o banhado da comunidade, com esta justificativa. Houve uma revolta dos demais moradores quando descobriram o plano macabro ao verem as máquinas chegando para fazer o serviço. Desesperados, chegaram a nos procurar para interceder junto à prefeitura. Não deixaram aterrar o banhado. Foi interessante perceber que eles não queriam que acabassem com os anfíbios.

Mas não dá para se iludir muito com isso. Recentemente teve uma reportagem na TV sobre o drama das pessoas que tentam na justiça livrar-se a todo o custo de nomes ridículos que receberam dos pais. A reportagem elegeu um dos piores casos para exemplificar o drama. Foi de um jovem registrado com o nome de girino. Segundo a reportagem o adolescente parou de freqüentar as aulas quando descobriu o significado do nome. Já nos EUA este nome correspondente no idioma inglês, tadpole, é usado para denominar uma famosa marca de roupas para bebês. Recentemente, o fabricante da marca decidiu doar um percentual do resultado da venda para uma ONG inglesa que luta contra a extinção e declínio da população de anfíbios.

Quem sentiu na pele, ou melhor, no bolso os problemas do preconceito contra os anfíbios foram os desavisados que tentaram ganhar dinheiro com a criação da rã-touro-gigante, importada dos EUA. Dá até pena de ver a fria em que se meteram. Mas quem pagou o pato foi a natureza. Ao caírem na real, que os brasileiros não suportam nem ver uma rã, quanto mais comer uma – e ainda pagar uma fortuna por isso -, abandonarem a atividade e soltaram as rãs na natureza, que vem causando grande impacto, pois esta espécie é predadora dos nossos anfíbios e até de aves.

Como estratégia para popularizar os anfíbios, em 2001, nós conseguimos convencer a Brasil Telecom a utilizar doze imagens de anfíbios da Mata Atlântica de Santa Catarina em cartões telefônicos, que na época eram muito consumidos. Foram impressos 1,8 milhões de cartões, 150 mil de cada estampa. Já na seleção das 12 imagens sentimos que não seria fácil convencê-los. Mas, no final, acabaram aprovando, sob protestos enérgicos de alguns diretores, segundo confidências de um funcionário.

Elza e crianças de Corupá, alunos da Escola de Educação Básica Francisco Mees vestidas de sapinho para homenagear nosso trabalho.

Os que desaprovaram a idéia não estavam tão errados assim. Nunca na história ocorreu da pessoa não comprar um cartão por causa da estampa. Afinal, o cartão é necessário para o uso do orelhão. Numa reportagem sobre o hábito de colecionar cartões, uma revendedora falou muito entusiasmada sobre grande saída de cartões, a diversidade e beleza das estampas, e o mania dos colecionadores. Mas, no final, em tom de desânimo, disse: “Agora, eles (Brasil Telecom) são doidos de terem feito estes cartões com estas estampas de sapos, nada contra estes animais, mas as pessoas têm horror, muito nojo, não gostam nem de pegar no cartão e até deixam de telefonar se eu não tiver outra estampa. Eu mostro os cartões, e as pessoas saem correndo daqui, em pânico”

De fato, foi inédito uma parte dos cartões ser enviada para outros estados. Diante disso, ocorreu-me uma idéia de sugerir ao Ministério da Saúde obrigar as companhias de cigarro a usar as estampas com pererecas nas carteiras de cigarro ao invés daquelas imagens das vítimas. Garanto que daria mais resultados.

Mas como já nascemos com a missão de defender os sapos, nada é capaz de nos desanimar. Entre os anos de 2000 e 2004, tivemos um projeto patrocinado pela Fundação O Boticário de Proteção à Natureza onde divulgamos uma exposição itinerante de banners sobre os anfíbios, dez cópias com 15 banners cada, que atingiram 140 municípios de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul.

A exposição chegava aos municípios e era distribuída para as escolas por um coordenador local, geralmente da secretaria municipal de educação. Foi impressionante a receptividade do material. Os custos foram mínimos, pois a empresa de ônibus Viação Auto Catarinense fez o transporte gratuito em suas linha de ônibus e as prefeituras, até pais de alunos, professores e diretores de escolas isoladas se encarregam de transportá-las localmente. Todas as prefeituras toparam receber a exposição, exceto o município de Atalanta (SC), que recusou a exposição, sem explicar o motivo. Pelas declarações das prefeituras, secretarias de educação e diretores de escolas, mais de 500 mil estudantes viram a exposição. Verificamos que as crianças lembravam da exposição meses após ter passado na escola.

A empresa WEG também patrocinou 30 mil exemplares de uma cartilha sobre anfíbios distribuída nas escolas de toda a região norte de Santa Catarina. Para estimular a interação com a cartilha foi realizado um concurso onde 5 mil estudantes da região de Jaraguá do Sul (SC) participaram apresentando um trabalho relacionado com os anfíbios.

O trabalho mais marcante foi a força-tarefa com os estudantes do ensino médio e fundamental em Corupá (SC). A motivação deste projeto veio durante uma palestra sobre os anfíbios para todos os professores de Corupá. Nesta palestra uma professora perguntou: “Por que os sapos lá de casa estão morrendo?” Fomos investigar e constatamos uma grande mortandade de sapos na cidade. Só no quintal da professora achamos sete sapos mortos. Todos infestados por carrapatos. Mandamos amostras do carrapato para a Fundação Instituto Osvaldo Cruz, que prontamente fez a identificação. Comprovou-se que é um carrapato específico de animais de sangue frio que ocorre na região Norte e parte do Centro-Oeste do Brasil,  e que foi introduzido em Corupá, certamente pelo tráfico de jabotis.

Crianças perdendo o medo dos anfíbios.

Neste projeto os estudantes (crianças e adolescentes) tinham que observar os sapos que habitavam os quintais e jardins de suas casas e contar quantos carrapatos parasitavam cada sapo, removendo-os em seguida. Foi fornecida uma ficha onde eles anotavam também o tamanho, sexo e os sapos mortos. No início, 750 estudantes toparam participar. Mais da metade dos estudantes do município. Desse número, 350 efetivamente participaram do projeto durante um ano entregando as fichas. Amostraram mais de 2000 mil sapos. Verificou-se que eles coletaram corretamente os dados e isto foi muito impressionante. Foram poucas as fichas descartadas.

Foi interessante que a cidade toda acabou sendo envolvida. Os pais, avós, irmãos mais velhos, enfim todos se empenharam em examinar os sapos e preencher as fichas. Teve casos de mães que compraram luvas para as crianças remover e contar os carrapatos nos sapos infestados. Uma pessoa nos contou que presenciou a conversa de donas de casa na porta de um mercado e uma mãe disse: “Nossa! Já são quase 5 horas! Eu tenho que ir para casa, pois meu filho vai chegar da escola e eu achei um sapo com carrapato para ele tirar e preencher a ficha do projeto.” Este trabalho deu muita repercussão na mídia de TV e jornais como a Folha de São Paulo.

Conseguimos divulgar os sapos na mídia de massa, como o Jornal Nacional, Fantástico, Globo Repórter, TV-Xuxa, Globo Ecologia, Programa do Jô (duas vezes!), TV-Cultura de SP – Repórter Eco (duas vezes), Rede Record – Domingo Espetacular (reprisado várias vezes) e outros. Provavelmente o sapo-pingo-de-ouro , o pequenino catarinense de 11 mm, foi o sapo mais visto por seres humanos até hoje. Foi mostrado em vários programas de TV, com audiência de milhares de pessoas, jornais, revistas e internet. Espero que ninguém tenha desligado a TV.

Não é falta de modéstia dizer que somos embaixadores dos sapos, tratando da reputação dessas criaturas.

Leia também

Salada Verde
3 de dezembro de 2021

Paraná pretende reativar trecho brasileiro de trilha histórica que liga o Atlântico ao Pacífico

Chamada de Caminhos do Peabiru, trilha tem 1.550 no trecho paranaense, que vai de Paranaguá a Guaíra. Caminho era usado por incas e guaranis, antes da colonização

Notícias
3 de dezembro de 2021

Amapá vende terras públicas invadidas a R$ 46 o hectare

Estado possui mais de 2,5 milhões de hectares de áreas ainda não destinadas. Cerca de 50% deste total é classificado como de importância biológica extremamente alta

Reportagens
3 de dezembro de 2021

Novo Código de Mineração propõe aprovação automática de milhares de processos parados na ANM

Proposta pode afetar mais de 90 mil requerimentos que aguardam aprovações técnicas e ambientais; medida ainda interfere na criação de unidades de conservação e dificulta demarcação de terras indígenas

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta