Colunas

A Serra da Canastra

Baú, para os antigos, é canastra-caixa feita à mão para guardar o que há de mais importante. O formato nomeou uma serra originada quando Américas e África ainda eram unidas – a Serra da Canastra, no sudoeste de Minas Gerais e que há muito tempo guarda tesouros: um dos maiores arcabouços da biodiversidade brasileira, mundialmente conhecida pela riqueza de espécies da fauna e flora.

25 de maio de 2008 · 18 anos atrás
  • Adriano Gambarini

    Fotógrafo profissional desde 1991. Vencedor do Prêmio Comunique-se, é geólogo de formação, com especialização em história natural e espeleologia, autor de 20 livros e diretor de dezenas de documentários.

Baú, para os antigos, é canastra-caixa feita à mão para guardar o que há de mais importante. O formato nomeou uma serra originada quando Américas e África ainda eram unidas – a Serra da Canastra, no sudoeste de Minas Gerais e que há muito tempo guarda tesouros: um dos maiores arcabouços da biodiversidade brasileira, mundialmente conhecida pela riqueza de espécies da fauna e flora. Plantas e anfíbios endêmicos escondidos nos campos rupestres; o pato mergulhão que atrai a atenção de pesquisadores e sinaliza a qualidade das águas; a perseverança do lobo-guará em continuar a existir e o vôo em corte de Galitos, Gaviões-de-coleira e Águias Cinzentas. Excêntrica também em valores culturais e tradições, estas terras escondem histórias de um povo enraizado dignas de Jorge Amado; um jovem que cresceu nas matas e compreende a “linguagem” dos animais; a cidade do “já teve”; a saga dos retireiros, gente que se abriga no topo das montanhas durante o inverno; o santo que fugia da igreja; o segredo do queijo-canastra e do doce joão-deitado; uma cidade onde casamentos foram extintos – todos os habitantes são descendentes de um padre; o casal separado pelo rio. Tudo isso junto, testemunhando o nascimento do Rio São Francisco.

Eu também me tornei testemunha deste universo. Há seis anos, quando percorria os campos da Serra da Canastra para documentar o Lobo-guará com o biólogo Rogerio Cunha de Paula, do Instituto Pró-Carnívoros e CENAP/IBAMA, surgiu a idéia de se fazer um livro sobre a região. O pesquisador detinha todo o conhecimento ambiental de anos de pesquisa; eu, a atração por uma luz natural fantástica e a curiosidade em descobrir meandros deste cenário misterioso. Mas nossa proposta não era abordar apenas o meio ambiente – a Serra da Canastra é bem mais que isso. Foi no vácuo da história humana local que surgiu a jornalista Lais Duarte Mota, que já tinha percorrido a região e documentado justamente o povo, suas histórias e tradições. Formamos um trio que apesar dos olhares, sensações e buscas distintas, fundíamos num mesmo ideal: traduzir em palavras e imagens uma região abençoada por características únicas no quesito ambiental, decorada por pessoas e modos de vida contagiantes. Este esforço a seis mãos acaba de lançar o livro bilíngüe “Serra da Canastra”, com 200 paginas e mais de 140 fotografias, retratando todo este fantástico mundo paralelo que existe nos campos e moradias da Canastra.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
30 de abril de 2026

Maior evento de observação de aves do mundo contará com etapa no norte do Paraná

Global Big Day promove a observação de aves como ferramenta para conservação; movimento no Brasil ganha força com o turismo de natureza na região norte do Paraná

Reportagens
30 de abril de 2026

Santa Marta encerra conferência com avanço político e pressão por tratado dos fósseis

Sem acordos vinculantes, conferência articula coalizão internacional e pressiona por saída dos combustíveis fósseis

Colunas
30 de abril de 2026

A distância também adoece: o acesso à saúde em comunidades remotas da Amazônia

Garantir um acesso contínuo e digno à saúde na Amazônia exige atuação conjunta. Nenhuma instituição, isoladamente, dará conta dessa complexidade

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.