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A guerra fria agora é quente

EUA e Rússia voltam a tomar posições políticas antagônicas. Desta vez, com relação às medidas de combate ao aquecimento global. Vou torcer pelos russos.

29 de julho de 2005 · 21 anos atrás

Caso uma nova versão da Guerra Fria venha a eclodir, quero deixar bem claro, desde já, que minha torcida será pela vitória russa — pelo menos enquanto a líder do antigo bloco soviético continuar a dar demonstrações de sensatez e os EUA permanecerem voltados única e exclusivamente para o seu próprio umbigo. Em termos ambientais e, especialmente, no tocante à questão do aquecimento global, Rússia e EUA têm adotado posições divergentes. E os EUA divergem de minhas preferências pessoais.

Para citar apenas exemplos recentes, a Rússia, terceira maior emissora de gases de efeito estufa do mundo, permitiu, com a sua ratificação, a entrada em vigor do Protocolo de Kyoto — apesar de recentemente ter sido condenada a indenizar uma cidadã pelos danos ambientais causados por uma de suas indústrias metalúrgicas e seus habitantes, ao que tudo indica, vêm apoiando e acreditando na iniciativa. Os EUA, por outro lado, no geral, seguem a linha Bush de raciocínio com relação ao meio ambiente: acham que esse negócio de efeito estufa é conto da carochinha e que o importante é ficar bem rico para, num futuro próximo, comprar ar puro e água potável de países subdesenvolvidos — ou, pelo menos, para fabricar armamentos e invadir aqueles países que se recusarem a vender seus recursos naturais.

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Está bem, eu confesso que esta talvez seja uma maneira um tanto radical de encarar as coisas, mas vejamos as seguintes notícias publicadas na Internet: a BBC News trouxe uma reportagem sobre como uma fábrica de papel de uma cidadela chamada Archangel, no norte da Rússia, está se preparando para a entrada em vigor das normas de redução das emissões antes mesmo de Moscou ter regulamentado a forma como isso será feito. Para que se tenha uma idéia, a Rússia ainda não tem qualquer obrigação de reduzir suas emissões, já que o colapso de seu parque industrial nos anos 90 manteve seus níveis de emissão bastante baixos, como informa a reportagem. Mas Vladimir Beloglazov, diretor da fábrica, afirmou à BBC que, segundo seus cálculos, é possível reduzir as emissões em 12% já no primeiro período após a entrada em vigor do tratado, sem deixar de aumentar a produtividade. Ele admite que sua principal motivação é econômica, e não ambiental — já que o dinheiro recebido na venda de créditos de carbono será investido na modernização da própria estrutura industrial, o que muito se assemelha à postura do país como um todo, já que a Rússia só ratificou o Protocolo em troca de apoio à sua entrada na OMC —, mas ele, assim como muitos outros na sua cidade, vêem o Protocolo como uma forma de unir o útil ao agradável. A primeira medida adotada foi a instalação de um novo boiler que ao invés de carvão queima as lascas de madeira que a fábrica costumava jogar fora, com maior eficiência e menos emissões.

Mas, como bem aponta a matéria da BBC, “idéias significam pouco sem fundos e em Moscou o progresso anda lento na implementação do Protocolo de Kyoto. Após três meses da ratificação, ainda há pouco consenso a respeito das normas necessárias e poucos sinais do inventário de emissões obrigatório”. Mas isso não deve ser encarado como um sinal de falta de compromisso do país com o tratado. Segundo declarou à BBC, Vsevolod Gavrilov, membro do Ministério de Desenvolvimento Econômico, “o prazo para a adequação aos limites do Protocolo é 2007. A Rússia deverá estar inteiramente de acordo com todas essas exigências até 2006. Nós queremos construir uma economia competitiva e não é possível fazê-lo sem modernizar. Kyoto é um estímulo para o aumento da eficiência”.

Localizada em latitudes bem acima do confortável, Archangel tem ainda um grande potencial de redução de emissões nas estações de aquecimento que, em sua maioria, precisam de reparos urgentes e lançam nuvens de fumaça negra nos céus da cidade. Na reportagem, Vadim Eremeev, um oficial do Fundo de Eficiência Energética da cidade, aponta que sob a vigência do Protocolo os países desenvolvidos poderão investir na limpeza do parque industrial russo em troca de créditos de carbono, e que até investimentos modestos poderão fazer uma grande diferença.

Por outro lado, ficam cada vez mais fortes os boatos de que os EUA, juntamente com a Austrália e um grupo de países asiáticos — que provavelmente incluirá a China, a Índia e a Coréia do Norte — estariam preparando um tratado para fazer frente ao Protocolo de Kyoto, no qual, ao contrário desse, o foco das reduções seria os países em desenvolvimento e sub-desenvolvidos.

Ou seja, enquanto a Rússia — em profunda crise econômica há cerca de uma década — aposta que colocar a mão na massa e reduzir as emissões de gases do efeito estufa é a solução para o desenvolvimento e o progresso econômico, outros têm medo de que isso pode custar-lhes o lugar mais alto do pódio na corrida desenvolvimentista — no caso dos EUA, é o lugar que ele ocupa, sozinho, há mais ou menos o mesmo tempo. Enquanto a antiga ameaça vermelha aposta no meio ambiente, o guardião da democracia se apega ao enriquecimento egoísta.

Quem é o comedor de criancinhas desta vez?

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