Colunas

O seguro, morreu afogado

Pouca gente já parou para pensar nisso, mas a Lloyd’s, gigante dos seguros, está preocupadíssima com o efeito das mudanças climáticas nos seus negócios.

14 de junho de 2006 · 20 anos atrás

A indústria mundial de seguros tem que se adaptar aos efeitos presentes e futuros das mudanças climáticas, ou corre o risco de quebrar. Quem adverte é a Lloyd’s, uma das maiores companhias do ramo no mundo, que acaba de lançar o primeiro de uma série de relatórios que compõem um programa denominado “360 Risk Project”, que se propõe a colocar em debate temas fundamentais para a indústria securitária.

Ano passado, alerta o relatório, em letras garrafais, desastres naturais mataram 97 mil pessoas e custaram para as seguradoras 83 bilhões de dólares. Um recorde histórico. A preocupação, portanto, não é sem fundamento. O título desse primeiro relatório — “Climate Change: Adapt or Bust” ; adapte-se ou quebre — reflete bem o que esse quadro, que tende a piorar, significa para o setor.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Os níveis do mar mais elevados e a temperatura das águas mais elevadas no Golfo do México, por exemplo, têm conduzido a um aumento no número e na intensidade dos furacões que atingem os Estados Unidos, uma considerável fonte de prejuízo para as seguradoras. Por isso, diz o relatório da Lloyd’s, o setor precisa agir imediatamente para “criar sistemas de avaliação de riscos que se mantenham atualizados com as últimas descobertas científicas” sobre mudanças climáticas e investir na prevenção — segundo o relatório, investindo na redução das emissões de CO2 e na redução da concentração demográfica em áreas de risco, “como as zonas costeiras”.

O relatório é dividido em 6 capítulos, por assim dizer: gases do efeito estufa; temperatura dos mares; nível dos mares; temperatura do ar e da terra; chuva e neve; e instabilidade climática. Em cada um deles, há uma breve explicação do problema e dos seus efeitos para o setor, bem como propostas de o que fazer para evitar maiores prejuízos.

O que o relatório não diz, contudo, é o quanto disso vai ser repassado aos consumidores em termos de preço. E talvez isso ainda nem esteja definido. Mas que alguma forma de repasse ocorrerá, quanto a isso não pode haver dúvidas. E nem se pode dizer que isso seria inesperado.

Todo contrato é celebrado diante de um determinado conjunto de condições, dentro do qual cada uma das partes avalia seu interesse em assumir, ou não, as responsabilidades ali representadas. Com o contrato de seguro não é diferente. Antes de contratar, o consumidor avalia a sua necessidade de adquirir a cobertura oferecida pela seguradora, o preço que terá que pagar por isso, suas obrigações e benefícios. A seguradora, por sua vez, avalia o perfil do consumidor, os riscos a que ele está sujeito e fixa um preço dentro do qual aquela relação jurídica se torna interessante. Se ambos estiverem de acordo, o contrato será assinado e, enquanto tais condições foram mantidas, ou, no máximo, modificadas dentro de um determinado limite previsível, o contrato estará em equilíbrio. É mais ou menos isso, em síntese, que em direito se chama “equilíbrio contratual”.

Em determinados casos, quebrado esse equilíbrio por fatores excepcionais, inesperados e imprevisíveis, pode-se desfazer o contrato.

Como ficarão, portanto, os contratos de seguro diante do aumento desproporcional dos riscos trazidos, por exemplo, por temporadas de furacões cada vez mais violentas para imóveis e pessoas segurados contra esse tipo de sinistro? Será que isso era inesperado ou imprevisível?

O diretor da Lloyd’s, Rolf Tolle admitiu, em declaração publicada na página da própria empresa que “embora faça, quase duas décadas desde que a ONU reconhece que a as mudanças climáticas são uma ameaça catastrófica para a Terra, é claro que a indústria dos seguros não levou suficientemente a sério tais ameaças”. Como tal repasse será feito e como a indústria dos seguros responderá a um alerta desses, dado por um de seus mais poderosos membros, ainda é cedo para dizer. Mas se a Lloyd’s estiver certa e suas expectativas se confirmarem, os atuais contratos de seguros podem entrar em breve nas listas de espécies ameaçadas de extinção.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
25 de maio de 2026

15ª Mostra Ecofalante de Cinema destaca cinema socioambiental com programação gratuita

Os 104 filmes que serão exibidos no festival abordam mudanças climáticas, conflitos geopolíticos, direitos dos povos originários, pautas feministas e de gênero, além da saúde mental

Podcast
22 de maio de 2026

O papel das pessoas na recuperação de um rio

A transformação do Córrego Tiquatira de esgoto a céu aberto a parque, repleto de gente e atividades revela um componente essencial: o pertenciment

Salada Verde
22 de maio de 2026

STF valida redução de área protegida no Pará para abrir caminho à Ferrogrão

Supremo considera constitucional mudança nos limites do Parque Nacional do Jamanxim, em decisão que favorece projeto ferroviário alvo de críticas socioambientais

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.