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Governo Bolsonaro e o apocalipse da Amazônia

Ou o Brasil escolhe melhor seus representantes para o Executivo e o Legislativo, ou afundaremos neste apocalipse protagonizado por lobistas que estão saqueando e demolindo o futuro do País

15 de março de 2022
  • Carlos Bocuhy

    Carlos Bocuhy é presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

A abertura irrestrita da Amazônia para a exploração econômica e a anistia aos criminosos que vêm devastando a floresta estão nos planos da gestão de Jair Bolsonaro. O índice de desmatamento da floresta, fragilizada em sua resistência e próxima do ponto de inflexão, registrou em fevereiro 198 km²,  um crescimento de 62% em relação ao mesmo período de 2021, quando os alertas indicaram desmatamento em 122,89 km². Este é o pior fevereiro desde 2016.

Bolsonaro cumpre suas promessas de campanha para as forças econômicas nocivas que se abrigam em sua base de governo – e que também vem se revelando na derrocada moral do legislativo federal, tomado por lobistas que favorecem os espoliadores do meio ambiente. A iniciativa mais recente é o projeto de lei, cujo regime de urgência foi aprovado na quarta-feira 9 na Câmara, que pretende liberar a mineração em terras indígenas.

As perspectivas eleitorais apontam que Bolsonaro terá dificuldades para se reeleger. Se de fato não houver continuidade desse governo, termina uma tragicomédia de despreparo e conveniências e de prejuízos ao meio ambiente. Logo após assumir, em 2019, o governo promoveu a desregulamentação normativa e a desestruturação do Sistema Nacional do Meio Ambiente e dos sistemas de gestão participativa da área ambiental brasileira. Os fatos são conhecidos, documentados e foram judicializados.  

O governo de Jair Bolsonaro e sua sanha de devastação lobística continuam, em 2022, a tomar de assalto a floresta, áreas indígenas e o território brasileiro, agora com quatro propostas apocalípticas: o PL da Grilagem (nefasta conjugação dos PLs 2.633/20 e PL 510/21) e dos PLs 191 e 490/07, que eliminam a proteção das terras Indígenas contra a especulação econômica, ao lado do PL 6.299/02, que flexibiliza o uso de agrotóxicos e que tramita no Senado ao lado do PL 2.159/21, que fragiliza o licenciamento ambiental brasileiro.

Todos representam desastres normativos, que corroerão o que restou de proteção ambiental para o Brasil. Atingem sobretudo aquilo que temos de mais precioso: as florestas e povos indígenas. Para justificar, Bolsonaro divulga informações falsas. Que são medidas necessárias, como, por exemplo, a mineração para produzir fertilizantes. Assim, a tragédia da Ucrânia serve de desculpas para consumar a devastação ambiental e dar sequência às atividades lobísticas de Jair Bolsonaro.

De outro lado, esses absurdos normativos ocorrem neste momento em que a possibilidade de colapso da Amazônia deixou de ser teoria para ser mensurável. Segundo Niklas Boers, da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, um dos autores de pesquisa publicada na revista Nature Climate Change, “muitos pesquisadores teorizaram que um ponto de inflexão da Amazônia poderia ser alcançado, mas nosso estudo fornece evidências empíricas vitais de que estamos nos aproximando desse limiar”.

Corroborando o resultado do estudo, Chris Jones, do Met Office Hadley Centre, no Reino Unido, afirma: “Esta pesquisa adiciona evidências convincentes de que a mudança climática é um risco agora, e que esses impactos graves e irreversíveis podem se tornar realidade. Temos uma janela estreita de oportunidade para tomar medidas urgentes”.

É neste cenário de urgência que ocorrem as intervenções lobísticas do governo de Jair Bolsonaro. Certamente há mais por vir, pois diante do final do atual mandato deverá ocorrer maior aceleração do desmantelamento ambiental. A depender do parco discernimento e lucidez do mandatário, não se sabe se o ponto de inflexão será o apocalipse progressivo da floresta ou simplesmente este se consumará debaixo de uma horda de tratores e motosserras.

As manifestações de artistas e da sociedade civil que têm ocorrido em Brasília são pertinentes e necessárias. Diante dos fatos faz-se mais evidente o sentido da palavra “ecocídio”. Registre-se o silêncio incompreensível das autoridades ambientais, da Procuradoria Geral da República e do Poder Judiciário diante destes fatos inaceitáveis.

É incompreensível que, em pleno século XXI, com todas as sinalizações e alertas que vêm sendo emitidos e mensurados pela ciência, ocorram mais e mais ataques ao maior ecossistema natural, pleno de biodiversidade e a maior fonte da produção hídrica continental.

Ou o Brasil escolhe melhor seus representantes para o Executivo e o Legislativo, neste ponto de inflexão vital para a nação brasileira, ou afundaremos neste apocalipse protagonizado por lobistas que estão saqueando e demolindo o futuro do País.

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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Comentários 1

  1. Natalia diz:

    “Apocalipse da Amazônia” é uma expressão extremamente certeira para nosso momento atual. Parabéns pela matéria.