Outro dia topei com um gavião-asa-de-telha em perseguição a um pombo doméstico. O pombo foi mais ágil e viveu para arrulhar mais um dia. A cena de São Paulo Selvagem só pareceu inusitada por ocorrer na avenida Faria Lima, em frente ao Shopping Iguatemi.
A Faria Lima é o endereço de boa parte do PIB brasileiro e, com os farialimers que lá trabalham, se tornou substantivo, adjetivo, metáfora e metonímia. Nem todos sabem que a arborização e as áreas verdes do bairro, apesar de pouco valorizadas pelos farialimers bípedes, abrigam um bom número de espécies com penas.
O gavião que caçava seu almoço é uma figura conhecida, a metade do casal que tem seu ninho no alto de uma araucária no Esporte Clube Pinheiros e controla os pombos da área. Ano passado, duas ninhadas deixaram o ninho e se juntaram à população de gaviões-asa-de-telha de Sampa.
Os asas-de-telha não vivem apenas na Faria Lima. Já os encontrei na Praça da República, Parque da Luz, Anhangabaú, Campus da USP, Instituto Butantan, Guarapiranga… Os observadores de aves da Paulistânia poderão acrescentar muitos outros lugares onde o Top Predador da Selva de Pedra tem seu lar. Mapas e fotos no eBird e Wikiaves documentam asas-de-telha hoje em boa parte da cidade e do estado de São Paulo.
Nem todos sabem que a cena em frente ao shopping é parte de uma história de recuperação. O gavião que caça pombos sobre a cabeça tanto de farialimers que usam Prada como de universitários que leem Marx já foi considerado extinto não só na cidade, mas em todo o estado de São Paulo.
O asa-de-telha (nome que viria da cor das asas) é um gavião de habitats mais abertos, e em São Paulo era conhecido apenas de um exemplar coletado em 1897, em Piquete, no Vale do Paraíba.

Sem notícias posteriores, a extinção local da espécie foi notada em 1993, juntando-se a uma lista considerável de aves exterminadas – e esquecidas – no estado de São Paulo. Como a rolinha-do planalto, o bacurau-de-asa-branca, o gavião-real, o cuitelão, o gralhão…
Estas aves jamais reocuparão suas terras ancestrais. Seu habitat, os campos cerrados e as florestas do interior (aquela que tinha jequitibás e perobas gigantescas) foi obliterado pelo gado-café-cana-laranja-soja, e pelas hidrelétricas.
Com o asa-de-telha foi diferente. Em uma época sem redes sociais nem Wikiaves, eBird ou iNaturalist, o fluxo de informações era bem mais lento e registros de asas-de-telha feitos na década de 1980 e início da de 1990 haviam passado batido.
Estes registros vinham da Serra da Cantareira, dentro da cidade de São Paulo, de Pontal, próximo a Ribeirão Preto e, vários, dos manguezais de Santos. Que calha de ser minha terra natal.
Entre 1994 e 1997, eu e meu colega Robson Silva e Silva fizemos dezenas de visitas para monitorar as aves dos manguezais de Santos e Cubatão. Encontramos asas-de-telha várias vezes em ambientes abertos nas bordas do manguezal, incluindo o horroroso depósito de lixo que servia Santos, hoje um neo-sambaqui.


Os poucos gaviões e a perseguição (um ninho foi destruído por um sujeito que construiu seu barraco no mangue ao lado) em uma área marcada para ser convertida em favela ou terminal portuário não prometiam um futuro brilhante.
Mas algo virou a chave na cabeça dos asas-de-telha. Para mim foi fundamental que as crescentes exportações de soja pelo Porto de Santos e as toneladas de grãos jogadas na beira das estradas e ferrovias tornaram o lugar um gigantesco buffet para pombos. O que criou um buffet para asas-de-telha.
No início dos anos 2000, asas-de-telha começaram a ser observados na área urbana de Santos, provavelmente seguindo os pombos que se alimentavam na área portuária na beira do manguezal. Os primeiros casais fizeram ninhos em lugares mais arborizados, incluindo os jardins de um hospital e de um colégio. Hoje podem ser vistos caçando ratos (outro acepipe) e em ninhos ao longo dos icônicos canais da cidade, e pombos e outros bichos nas praças e entre os edifícios.
O primeiro asa-de-telha paulistano foi visto em 2007, no Butantã. Dali em diante, o que era uma espécie rara que poucos observadores de aves e mesmo ornitólogos haviam visto se tornou uma figura familiar do neoecossistema urbano.
A família que vive na Praça da República (que também está com filhotões que saíram do ninho) é dos meus vizinhos mais bacanas e é sempre divertido observar como põem o terror nos pombos da região e as estripulias dos jovens que brincam pendurados de ponta-cabeça. E às vezes dão um susto em algum passante.
Inteligência, adaptabilidade e gestão de riscos reprodutivos ditam o sucesso das aves urbanas em um habitat onde interações ecológicas são simplificadas e exclui passarinhos coloridos e especialistas.
A vida na cidade não é um paraíso e todos os anos vários asas-de-telha, na maior parte jovens procurando seus próprios territórios, acabam em centros de resgate de fauna como o CEMACAS e, lá em Santos, no Parque Zoobotânico. A maior parte se acidenta em colisões (vidraças são uma das maiores causas de mortalidade entre aves) e apenas metade consegue voltar à vida livre.

Metamorfose voadora
A cidade de São Paulo tem a vantagem de contar com levantamentos de sua avifauna desde o final do século 19. Os associados do CEO – Centro de Estudos Ornitológicos, os inventários regulares da equipe da Divisão de Fauna Silvestre da Secretaria do Verde e Meio Ambiente e os registros de centenas de observadores de aves usuários do Wikiaves e do eBird mostram como a comunidade de aves da Pauliceia muda ao longo do tempo.
Muitas aves que convivem com o gavião farialimer e ocasionalmente são parte de seu cardápio são imigrantes recentes numa cidade construída por imigrantes.
Na avenida da arquitetura do eclético ao gosto que se lamenta, voam aves que um ornitólogo da primeira metade do século 20 também teria encontrado. Espécies como bemtevis, sabiás-laranjeira, sabiás-barranco, periquitos-ricos, rolinhas-roxas, cambacicas e os aparentemente improváveis pica-paus-de-cabeça-amarela e almas-de-gato, que estão lá graças à arborização dos bairros vizinhos. Visitantes raros como o gavião-pombo-pequeno que precisou ser resgatado de um caixa eletrônico (coisas de São Paulo) também seriam familiares.
Também seriam familiares os pombos-domésticos que chegaram com os portugueses e são paulistanos mais que quatrocentões. E os pardais também vindos da Europa (e antes do Oriente Médio), registrados na cidade pela primeira vez em 1933, quando Sampa já era a maior cidade brasileira, um caldeirão de imigrantes, industriais, artistas modernistas e barões do café, e ponto de parada de zepelins.
Nosso ornitológico viajante temporal ficaria pasmado não só com nosso gavião farialimer.

As pombas-asa-branca que pousam nas luminárias do canteiro central chegaram ao estado de São Paulo apenas em 1975 e na cidade no início da década de 1990.
As avoantes que ciscam no mesmo canteiro central e nas ruas mais tranquilas apareceram em 1996 após colonizarem o interior do estado com a estratégia dupla de formarem colônias com centenas de ninhos no meio de canaviais e ninhos isolados em árvores em sítios e cidades.
Um grupo de birros cruzando a avenida vindo dos Jardins certamente geraria expletivas. Esse pica-pau social de áreas abertas foi registrado na cidade pela primeira vez em 1989.
Também causariam espécie papagaios-verdadeiros que pousam junto nos heliportos das torres de vidro/estufas. Os louros farialimers são descendentes de filhotes roubados de suas famílias para serem escravos por quem acha que bichos sentientes são brinquedo. Escapados, formaram suas próprias comunidades pela cidade.
Junto a eles voam maracanãs-pequenas, descendentes de solturas feitas no fim da década de 1980 e já estabelecidas em 1991. Praticamente eliminada em sua área de ocorrência natural no interior do estado, as maracanãs prosperam na cidade onde são imigrantes involuntárias.
Fenômeno que não é único. Cidades como Miami e Los Angeles abrigam populações de espécies de papagaios mexicanos e da América Central ameaçados de extinção em seus países natais, os louros escapados e estabelecidos formando populações de segurança contra a extinção global.
Indo além da Faria Lima e visitando a represa de Guarapiranga, finalizada em 1908, nosso birder do passado também encontraria gaviões-asa-de-telha em uma paisagem onde o urbano encontra o rural e muita água. E aves que renderiam muitas expletivas.

Garças-vaqueiras (primeiro registrado no município na década de 1970), lavadeiras-mascaradas (1993), gibões-de-couro (2010) e tapicurus (2015) podem ser vistos nas margens da represa, enquanto tucanos-toco (2008) voam ali do lado. Na represa é fácil ver marrecas-toicinho (1964), irerês (1969) e mergulhões-grandes (2009) entre outras aquáticas mais old-timers.
Nosso viajante sentiria falta de muitas aves. Não só de aves campestres como a perdiz, que deu nome a um bairro, e o canário-do-brejo, que tem o nome científico Emberizoides ypiranganus por razão óbvia. Faltam na área urbana aves como coloridas saíras, chocas e limpa-folhas, que só reaparecem onde ainda há manchas de floresta como na Serra da Cantareira, Horto Florestal e Jardim Botânico, e na Zona Sul onde a Paulicéia encontra a Serra do Mar.
A riqueza de aves paulistanas (e de outras cidades) resulta da área ocupada por espaços verdes e sua configuração, e não é difícil ver por que os bairros de São Paulo com mais concreto e asfalto e menos árvores têm apenas uma pequena fração das mais de 400 espécies de aves registradas no município.
E como há uma correlação direta entre áreas verdes e qualidade de vida e renda, podemos dizer que a falta de parques, praças e arborização não é só questão de perder passarinhos, mas também expõe desigualdades.
Muito do que tornaria São Paulo uma cidade mais amiga das aves também tornaria a cidade mais hospitaleira em tempos de ondas de calor, eventos climáticos e crises hídricas, sem falar na saúde física e mental.
Coisas óbvias como mais arborização (sombra vai bem), praças e parques com vegetação mais diversa, jardins de chuva, restaurar cursos d’água e várzeas criando esponjas. São Paulo poderia olhar para Singapura, ex-favelão que virou Primeiro Mundo, que é exemplo de urbanismo biofílico onde a biodiversidade prospera.
Também ajudaria muito tornar vidros opacos para as aves obrigatórios nos caixotes de vidro amados pelos arquitetos, uma política agressiva de telhados verdes (como em shoppings e terminais rodoviários), e reduzir a poluição luminosa que empesteia a cidade e é um problema de saúde pública que todos ignoram.

Admirável Mundo Novo
As aves imigrantes de São Paulo mostram que a Natureza é, antes de tudo, mudança e adaptação. O “equilíbrio da Natureza” que a vê como algo estático é mera ilusão.
Avançamos com a Sexta Grande Extinção numa Terra dominada por humanos. Se pesarmos todos as aves do mundo, 71% da biomassa é galinhas, patos e outras aves domésticas. As outras ~ 11 mil espécies correspondem a 29%. Se pesarmos os mamíferos, nós somos 36% do total, nosso gado e pets 59% e todos os outros mamíferos, de morcegos a baleias-azuis, meros 5%.

No Antropoceno criado por nós, já elevamos a temperatura do planeta em 1,5˚C e 3̎˚ C são quase certeza no final do século. O mundo à frente será muito diferente. Em um planeta dominado por gente, vacas e galinhas, bichos como o asa-de-telha e os papagaios libertos são exemplos de resiliência e mostram para onde vamos.
As aves do Antropoceno mostram um futuro de misturas de espécies que antes não ocorriam juntas e formam novas comunidades. Literalmente criamos o clima para isso e a Natureza Sem Precedente das cidades é um dos novos habitats, que nunca existiriam sem nós, onde evoluem novos ecossistemas.
Há quem torça o nariz para os imigrantes que não combinam com estereótipos como “equilíbrio da natureza” e “espécie nativa”. A questão real é como tornar o mundo artificial que criamos mais habitável e agradável para um número maior de espécies. Incluindo nós.

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