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O mundo pós-Trump: a reconstrução da governança ambiental global

Saída dos EUA de mecanismos ambientais expõe fragilidades do multilateralismo e reforça o desafio de construir uma governança global mais integrada e resiliente.

1 de outubro de 2026
  • Carlos Bocuhy

    Presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam) →

Perguntar que mundo existirá depois de Donald Trump não significa apenas refletir sobre a política norte-americana após o encerramento de seu ciclo de poder. A questão mais profunda é saber o que restará da arquitetura de cooperação internacional que, apesar de suas insuficiências, foi construída durante décadas para enfrentar problemas que nenhum Estado é capaz de resolver isoladamente.

Essa questão torna-se particularmente grave no campo ambiental. A segunda administração Trump não se limitou a alterar políticas ambientais domésticas. Sua orientação atingiu mecanismos centrais da própria governança ambiental internacional.

Em janeiro de 2026, a Casa Branca determinou a retirada, a cessação da participação ou do financiamento norte-americano de dezenas de organismos, convenções e estruturas internacionais, alcançando instituições diretamente relacionadas ao clima, biodiversidade, energia renovável, florestas, oceanos, água e produção científica.

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Entre elas encontram-se a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), o Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) e outras organizações ambientais internacionais.

O próprio governo norte-americano apresentou essas decisões como parte de uma política destinada a “recuperar soberania” e afastar os Estados Unidos de organismos considerados “incompatíveis com seus interesses nacionais”.

Isso permite avaliar o quanto interesses domésticos podem estar dissociados de avanços humanitários, no momento em que a crise ambiental planetária exige crescente cooperação internacional.

A governança ambiental global foi construída progressivamente, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, quando a humanidade começou a reconhecer que determinados problemas ambientais ultrapassavam fronteiras nacionais.

A Conferência de Estocolmo de 1972, a criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a Conferência do Rio de Janeiro de 1992, as convenções sobre clima e biodiversidade, o Protocolo de Kyoto, o Acordo de Paris, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e inúmeros tratados sobre oceanos, espécies, substâncias químicas e proteção dos ecossistemas constituíram etapas dessa construção.

Por trás desses instrumentos existia um princípio fundamental: a soberania dos Estados não é suficiente para governar processos ecológicos que atravessam fronteiras.

Vivemos em atmosfera compartilhada, oceanos interdependentes, biodiversidade que constitui sistemas ecológicos que não obedecem às divisões políticas, onde grandes florestas interferem na circulação atmosférica e nos regimes de chuva, onde a poluição atravessa territórios e a mudança climática transforma emissões produzidas localmente em impactos distribuídos globalmente.

Quando Trump recolocou “soberania econômica” contra essa interdependência, isso assumiu significância maior do que a política ambiental de um governo. Demonstrou que o interesse momentâneo e predominante de uma nação pode causar o abandono dos avanços científicos e humanitários construídos por décadas.

Seria equivocado atribuir toda a crise da governança ambiental internacional a Donald Trump. O sistema multilateral ambiental já apresentava limitações importantes. Países desenvolvidos e em desenvolvimento continuam divergindo sobre responsabilidades históricas, financiamento e direito ao desenvolvimento.

A governança climática internacional não constitui um sistema único, centralizado e hierarquicamente organizado. Robert Keohane e David Victor, renomados cientistas políticos e acadêmicos norte-americanos, propuseram compreendê-la como um “regime complexo” (regime complex): um conjunto de instituições, tratados, organizações, normas e mecanismos parcialmente sobrepostos, conectados entre si, mas sem uma autoridade central capaz de coordená-los integralmente.

Essa formulação ajuda a compreender tanto a força quanto a fragilidade da governança ambiental contemporânea. A literatura sobre governança ambiental global mostra que a fragmentação institucional não constitui apenas uma falha ocasional do multilateralismo: tornou-se uma de suas características estruturais.

A retirada dos EUA fragiliza instituições, financiamento e capacidade científica, mas não necessariamente paralisa todo o sistema. O problema fundamental passa a ser como transformar um regime complexo e fragmentado em uma arquitetura suficientemente articulada.

Em 2023, cerca de US$ 7,3 trilhões foram direcionados para atividades consideradas prejudiciais à natureza, enquanto aproximadamente US$ 220 bilhões foram destinados a soluções baseadas na natureza.

Portanto, a governança ambiental global sofre com a enorme distância entre compromissos diplomáticos e funcionamento concreto da economia mundial.

Organizações internacionais relacionadas a energia, florestas, oceanos e recursos naturais permitem acumular dados, estabelecer padrões e coordenar políticas. Quando essas estruturas são enfraquecidas, não desaparecem apenas reuniões diplomáticas. Enfraquece-se a própria capacidade coletiva da humanidade de compreender, antecipar e administrar riscos ambientais planetários.

É por isso que a discussão sobre o mundo pós-Trump ultrapassa a política norte-americana. A redução da participação dos EUA cria um vazio, mas não representa necessariamente o fim da governança ambiental internacional. Expõe, sobretudo, sua necessidade de reestruturação em bases mais sólidas, nas quais União Europeia, China, Brasil, Índia, países africanos, pequenos Estados insulares e outras potências médias possam ocupar espaços maiores.

Uma governança multipolar pode ampliar a participação internacional e tornar o sistema mais resistente à retirada de um de seus integrantes. Mas também pode aprofundar a fragmentação, criar blocos concorrentes e transformar clima, minerais críticos, energia, biodiversidade e até água e alimentos em instrumentos da competição geopolítica.

Neste cenário o Brasil poderá adquirir relevância especial. Não apenas porque abriga grande parte da Amazônia ou porque possui extraordinária biodiversidade. Sua importância poderá decorrer de sua postura e capacidade de defender uma ideia política mais abrangente: a reconstrução da governança ambiental global como condição de estabilidade internacional.

A conservação da Amazônia depende do clima, a agricultura brasileira depende dos regimes de chuva e a geração hidrelétrica depende dos ciclos hidrológicos. As cidades dependem de adaptação às ondas de calor, enchentes e eventos extremos. Defender a governança ambiental global é, portanto, também defender o interesse nacional brasileiro. Mas o Brasil precisará superar uma contradição para exercer multilateralismo ambiental no exterior.

A credibilidade internacional brasileira dependerá crescentemente da capacidade de exercer boa governança ambiental. Isso significa avançar para algo mais amplo que uma política ambiental convencional, mas sim para uma política de governança ecossistêmica, que implica superar a administração fragmentada de clima, biodiversidade, água, florestas, oceanos, solo e território, reconhecendo que esses componentes constituem sistemas interdependentes.

Significa também considerar a capacidade de suporte e os limites biofísicos como condicionantes das decisões econômicas, territoriais e de infraestrutura.

Depois de Trump, reconstruir não será suficiente. O mundo não deverá simplesmente restaurar a governança ambiental existente antes dele, pois ela já era insuficiente. A crise atual demonstrou que instituições excessivamente dependentes da vontade política circunstancial das grandes potências permanecem vulneráveis.

O desafio depois de Trump será maior do que reconstruir o multilateralismo ambiental fragilizado. Será transformar um regime internacional fragmentado em uma governança ecossistêmica capaz de integrar economia e atividades humanas aos limites biofísicos planetários.

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