Colunas

Plástico, como seria bom voltar no tempo e desinventá-lo

Descoberta de mil e uma utilidades, tornou-se também uma praga ambiental, pois é um material que não se deteriora e costuma acabar em rios e mares

12 de janeiro de 2017 · 5 anos atrás
  • Suzana Padua

    Doutora em educação ambiental, presidente do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, fellow da Ashoka, líder Avina e Empreen...

plastic-bottles-388679_1280
Foto: Pixabay.

O plástico tem causado danos terríveis ao meio ambiente e à saúde humana. Em menos de 100 anos, quando iniciou-se seu uso em larga escala, o estrago tem sido avassalador e crescente. A vontade nesse, e em outros tantos exemplos danosos causados pela humanidade, é rebobinar o filme da história, até que se voltasse ao momento da invenção do plástico em 1907, feita por Leo Beekeland, para que pudéssemos alterar o destino. Imagino que nem ele e nem os cientistas que anos depois trabalharam no aprimoramento do plástico, o ganhador do Prêmio Nobel, Hermann Staudinger, conhecido como o “pai da química dos polímeros”, e Herman Mark, chamado de “pai da física dos polímeros”, imaginavam o estrago que causariam ao planeta com suas invenções. Na verdade, a culpa não é do plástico em si e nem de seus inventores, mas da irresponsabilidade dos que o usam em larga escala, já que hoje é vasta a evidência dos seus efeitos nefastos.

O plástico passou a ser utilizado em maior escala durante a segunda guerra mundial por conta da escassez de materiais comuns à época como metais e vidros. Em menos de 100 anos o plástico transformou o mundo e, infelizmente, na maioria dos casos não para melhor! O fato é que hoje estamos tão acostumados a facilidades que os utensílios plásticos nos propiciam, que nem imaginamos a vida sem ele. Em muitas situações ajudou e ajuda a resolver problemas sérios para a humanidade, mas na maioria dos casos seu uso é totalmente irresponsável pela falta de perspectivas de solucionar seus efeitos.

Por que resolvi escrever sobre isso? As notícias sobre danos causados por plásticos à fauna e ao ambiente se sucedem pelas redes sociais e outros meios de comunicação. São baleias, golfinhos, peixes, tartarugas, arraias que morrem ao ingerir plásticos ou por se atrelarem a dejetos encontrados nos oceanos. Este é o resultado do acúmulo de lixo desproporcional jogado nos mares. Um filme da National Geographic Ocean afirma que são 8 milhões de metros cúbicos de plástico por ano jogados nos oceanos, o que equivale a cinco sacolas plásticas por cada metro e meio de toda a extensão da costa marinha do mundo. A entrevistada, Ellen MacArthur, sugere uma total mudança nos parâmetros de produção para que o plástico nunca se torne lixo. Para tal, é necessária uma mudança radical em todos os segmentos do processo produtivo, com o envolvimento dos principais players do cenário. Mas, o importante é que ela acredita ser possível.

Por toda a parte

“Em alguns trechos, a água nem é visível devido ao acúmulo de embalagens plásticas que flutuam na mesma água que é consumida pela população local”

O lixo nos oceanos está espalhado por toda parte, mas, devido a correntes marinhas, se aglutinou em duas porções, ambas no Oceano Pacífico e cada uma delas do tamanho dos Estados Unidos. Já que o plástico praticamente não se decompõe, acaba predominando nos cenários dos dejetos. Um terço do lixo doméstico é composto por embalagens e 80% delas é jogado fora depois de apenas um uso. São 25 mil toneladas de embalagens por dia só no Brasil, o que equivale a 2.000 caminhões de lixo enfileirados numa extensão de 20 quilômetros.

O plástico descartado causa problemas graves. Mesmo sendo ultrapassados e até proibidos por lei, os lixões ainda estão presentes em 40% dos 5.570 municípios brasileiros. O plástico causa a morte de animais que comem restos de alimentos ainda dentro de embalagens. Isso ocorre mesmo fora dos lixões. Filmes passados em locais de turismo na África mostram animais comendo nos lixos deixados pela atividade turística em parques nacionais.

Nos Estados Unidos, segundo dados da Plastic Pollution Coalition, o consumo é de quase 88 mil toneladas de plástico por dia. Como o plástico vem do petróleo, apenas para produzir garrafas de água, são usados 17 milhões de barris de óleo por ano, e esta é a conta somente dos EUA. Essa quantidade de óleo seria o suficiente para fornecer combustível para um milhão de carros por ano. Segundo a Plastic Pollution Coalition, há seis vezes mais pedaços de plástico nos oceanos do que vida marinha. Plástico compõe 90% do lixo marítimo e estima-se que há 46 mil pedaços de plástico para cada milha quadrada do oceano.

No Brasil, só 20% do plástico é reciclado. Não é apenas falta de vontade, mas de tecnologias adequadas que aproveitem os diferentes plásticos existentes e até a necessidade de se melhorar detalhes no design dos produtos descartados, para facilitar sua reciclagem. No cenário atual, grande parte do que consumimos acaba em locais inadequados como lixões, aterros e em cursos d’água que levam aos mares. São muitos os rios gravemente contaminados por garrafas PET e outras embalagens, a exemplo do Rio Negro que banha Manaus. Em alguns trechos, a água nem é visível devido ao acúmulo de embalagens plásticas que flutuam na mesma água que é consumida pela população local. Manaus tem abundância de água, mas de baixa qualidade.

Riscos 

Em termos da saúde humana, dados mostram que o plástico causa toda sorte de enfermidades. Há elementos químicos no plástico (como o BPA) que, quando absorvidos pelo corpo humano, provocam danos ao sistema hormonal e endócrino, o que resulta em riscos cardíacos, câncer do cérebro, mama e próstata, doenças sexuais, puberdade precoce, infertilidade, diabetes e obesidade, entre outros males. E o que é pior, muito do que comemos vem embalado em plástico.    

Informação sobre o assunto existe em abundância e está disponível para quem quiser. Todos deveriam mergulhar na busca de substitutos para o plástico, do fabricante ao consumidor. Deveria haver investimento em tecnologias que permitam a reciclabilidade do que é fabricado, trazendo viabilidade econômica e soluções menos danosas ao ambiente e a nossa saúde.

São variadas as iniciativas de tentar minimizar os efeitos do desperdício. Mas, por mais louváveis, ainda são insignificantes diante do volume e da grandeza do problema que a própria humanidade criou. Recentemente, a Nike lançou um tênis fabricado com plástico reciclado advindo dos mares e outra iniciativa de calçados feita com PET também tem sido divulgada nas redes sociais. Outros exemplos de reutilização vem de pastilhas para recobrir paredes e até a construção de casas feitas com garrafas PET. Lindas iniciativas que merecem nossos aplausos. Dois surfistas inventaram um balde que suga lixo e é de fácil retirada, com intuito de limpar o mar que tanto amam. Outro caso é do jovem escocês, Boyant Slat (TED-X Boyant Slat), que criou um sistema de retirar lixo dos oceanos que ele garante que além de funcional seria lucrativo. O processo criado por Boyant baseia-se nas correntes marinhas e, por isso, as telas são colocadas de maneira a aproveitar o movimento das águas para coletar o plástico que circula.

Mas, para qualquer dessas iniciativas, fica a pergunta: para onde irá o lixo coletado? Se voltar para os oceanos todo trabalho será em vão.

Criatividade há, mas a questão é tão grave que merece uma mudança substancial em nossos sistemas de produção. Todos somos responsáveis pelo destino adequado, do fabricante ao distribuidor e consumidor, ou seja, toda a cadeia produtiva. Se levado a sério, o número de garrafas PET ou de embalagens de alimentos, cosméticos, brinquedos, e tantos outros itens de consumo tenderia a diminuir drasticamente, o que é urgente. O ideal seria ir além de qualquer punição a quem não age corretamente, com recompensas financeiras e outros benefícios para favorecer aqueles que são ambientalmente responsáveis. Esse é um tema que mereceria encontros com setores múltiplos da sociedade para que pesquisadores, setor privado, governos e todos os envolvidos nas cadeias de produção e de consumo pudessem buscar saída para uma crise inusitada que começou sutilmente, mas adquire cada vez maior dimensão.

Permanece a vontade de passar o filme da história ao revés até o ponto em que o plástico não era consumido em tão larga escala como agora . Mas, como é impossível, que a gente consiga aprender com os erros e também colocar nossa criatividade para resolvermos algo tão sério como o uso inapropriado e a disposição inadequada do plástico e outros resíduos, já que afetam tão negativamente a vida no planeta.

 

Obs. Agradeço as fontes variadas que consultei que me permitiram perceber que vemos apenas uma ponta ínfima do problema e a Nícia Mafra, Mestrando e profunda conhecedora dessa temática, além de Gustavo Pinto, que me instigou a escrever esse artigo com suas preocupações pertinentes.

 

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

Leia também

Poluentes de vida curta aumentam nível do mar

O mito da ideia do progresso

 

 

Leia também

Colunas
29 de março de 2016

O mito da ideia do progresso

Ganância - um dos problemas ambientais mais graves e a ilusão de um progresso redentor que a todos salvará.

Reportagens
10 de janeiro de 2017

Poluentes de vida curta aumentam nível do mar

Impacto causado por gases como o metano e HFCs pode durar 800 anos, mesmo que esses poluentes permaneçam por poucas décadas na atmosfera, dizem cientistas norte-americanos

Salada Verde
3 de dezembro de 2021

Paraná pretende reativar trecho brasileiro de trilha histórica que liga o Atlântico ao Pacífico

Chamada de Caminhos do Peabiru, trilha tem 1.550 no trecho paranaense, que vai de Paranaguá a Guaíra. Caminho era usado por incas e guaranis, antes da colonização

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Comentários 2

  1. Aristides Arthur Soffiati Netto diz:

    Devemos creditar aos povos indígenas o pioneirismo na abertura de trilhas que, posteriormente, serão aproveitadas pelos europeus nas chamadas estradas gerais e sua ramificações, como mostra Capistrano de Abreu em “Caminhos antigos e povoamento do Brasil” (1930). Os povos indígenas usavam essas picadas para a prática de uma economia de subsistência bastante robusta. Com os europeus e seus descendentes, a economia de mercado, ainda que precária, produziu desmatamento, ataques à fauna nativa e extermínio de indígenas.


  2. Raphael Albino diz:

    O Eduardo Bueno, do canal Buenas Ideias no Youtube possui um excelente vídeo sobre essa trilha e as aventuras que alguns personagens da nossa história passaram por ela.