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Quando negar já não basta: as novas faces da desinformação climática

Observamos como o negacionismo climático passou a conviver com estratégias de greenwashing e a transformar os principais responsáveis pela mudança do clima em agentes da solução

30 de julho de 2026
  • Gabriella de Barros

    Doutoranda em Comunicação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Integra o Grupo de Pesquisa em Jornalismo Ambiental da UFRGS, Laboratório de Comunicação Climática (UFRGS/CNPq) e o projeto Community-based change local and traditional knowledges in NbS (COmCHA).

Durante muito tempo, a desinformação climática tinha um rosto conhecido. Ela aparecia em discursos que negavam o aquecimento global, desacreditavam cientistas ou insistiam que as mudanças climáticas eram apenas um ciclo natural da Terra. Bastava procurar pela negação explícita para identificar o problema.

Poucos governos ou grandes empresas afirmam publicamente que a crise climática não existe. Ao contrário, a sustentabilidade tornou-se um valor quase obrigatório. Empresas de petróleo falam em transição energética. Mineradoras destacam seus compromissos ambientais. Representantes do agronegócio afirmam produzir de forma cada vez mais sustentável. A linguagem climática passou a fazer parte da comunicação institucional de setores que, ao mesmo tempo, estão entre os maiores responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa.

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Hoje, uma das estratégias mais eficazes para atrasar o enfrentamento da crise climática não é negar a ciência, mas construir a impressão de que as mudanças necessárias já estão em curso. A comunicação passa a enfatizar projetos, metas futuras, tecnologias e iniciativas pontuais, enquanto silencia aspectos fundamentais, como a expansão de atividades altamente poluentes ou a resistência a mudanças estruturais em seus modelos de negócio.

Não se trata, necessariamente, de divulgar informações falsas. Em muitos casos, os dados apresentados são verdadeiros. O problema está na seleção do que é mostrado e, principalmente, do que permanece oculto. É uma desinformação construída pela omissão, pela distorção de prioridades e pela maquiagem verde.

Foi essa transformação que foi analisada no artigo “Negar, omitir e maquiar: a desinformação climática que se atualiza”, publicado recentemente na Revista Alceu. A partir de três estudos de caso envolvendo os setores do petróleo, da mineração e do agronegócio, observamos como o negacionismo climático passou a conviver com estratégias de greenwashing. Enquanto discursos públicos apresentam esses setores como protagonistas da transição ecológica, suas práticas continuam fortemente associadas à manutenção de um modelo econômico intensivo em carbono. A narrativa apresentada é que aqueles que mais contribuem para o agravamento da crise climática seriam também os principais agentes de sua solução.

Essa inversão reduz a percepção pública sobre as responsabilidades desses setores, enfraquece a pressão social por mudanças estruturais e desloca o debate para soluções que preservam o modelo econômico existente. A crise climática deixa de ser apresentada como consequência de escolhas políticas e produtivas e passa a ser tratada como um problema que será resolvido pelo próprio mercado, sem alterações profundas.

O greenwashing, nesse contexto, deixa de ser apenas uma estratégia de marketing, ele se torna um mecanismo de disputa pelos sentidos da sustentabilidade. Afinal, quando todos dizem defender o clima, a pergunta deixa de ser quem está comprometido e passa a ser que interesses esse discurso ajuda a proteger.

Esse cenário também impõe novos desafios ao jornalismo. Verificar fatos continua sendo essencial, mas já não basta, é preciso investigar as contradições entre discurso e prática, identificar quem financia determinadas narrativas e revelar aquilo que as campanhas institucionais preferem não mostrar. A integridade da informação climática depende não apenas de combater mentiras, mas também de iluminar os silêncios.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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