Durante muito tempo, a desinformação climática tinha um rosto conhecido. Ela aparecia em discursos que negavam o aquecimento global, desacreditavam cientistas ou insistiam que as mudanças climáticas eram apenas um ciclo natural da Terra. Bastava procurar pela negação explícita para identificar o problema.
Poucos governos ou grandes empresas afirmam publicamente que a crise climática não existe. Ao contrário, a sustentabilidade tornou-se um valor quase obrigatório. Empresas de petróleo falam em transição energética. Mineradoras destacam seus compromissos ambientais. Representantes do agronegócio afirmam produzir de forma cada vez mais sustentável. A linguagem climática passou a fazer parte da comunicação institucional de setores que, ao mesmo tempo, estão entre os maiores responsáveis pelas emissões de gases de efeito estufa.
Hoje, uma das estratégias mais eficazes para atrasar o enfrentamento da crise climática não é negar a ciência, mas construir a impressão de que as mudanças necessárias já estão em curso. A comunicação passa a enfatizar projetos, metas futuras, tecnologias e iniciativas pontuais, enquanto silencia aspectos fundamentais, como a expansão de atividades altamente poluentes ou a resistência a mudanças estruturais em seus modelos de negócio.
Não se trata, necessariamente, de divulgar informações falsas. Em muitos casos, os dados apresentados são verdadeiros. O problema está na seleção do que é mostrado e, principalmente, do que permanece oculto. É uma desinformação construída pela omissão, pela distorção de prioridades e pela maquiagem verde.
Foi essa transformação que foi analisada no artigo “Negar, omitir e maquiar: a desinformação climática que se atualiza”, publicado recentemente na Revista Alceu. A partir de três estudos de caso envolvendo os setores do petróleo, da mineração e do agronegócio, observamos como o negacionismo climático passou a conviver com estratégias de greenwashing. Enquanto discursos públicos apresentam esses setores como protagonistas da transição ecológica, suas práticas continuam fortemente associadas à manutenção de um modelo econômico intensivo em carbono. A narrativa apresentada é que aqueles que mais contribuem para o agravamento da crise climática seriam também os principais agentes de sua solução.
Essa inversão reduz a percepção pública sobre as responsabilidades desses setores, enfraquece a pressão social por mudanças estruturais e desloca o debate para soluções que preservam o modelo econômico existente. A crise climática deixa de ser apresentada como consequência de escolhas políticas e produtivas e passa a ser tratada como um problema que será resolvido pelo próprio mercado, sem alterações profundas.
O greenwashing, nesse contexto, deixa de ser apenas uma estratégia de marketing, ele se torna um mecanismo de disputa pelos sentidos da sustentabilidade. Afinal, quando todos dizem defender o clima, a pergunta deixa de ser quem está comprometido e passa a ser que interesses esse discurso ajuda a proteger.
Esse cenário também impõe novos desafios ao jornalismo. Verificar fatos continua sendo essencial, mas já não basta, é preciso investigar as contradições entre discurso e prática, identificar quem financia determinadas narrativas e revelar aquilo que as campanhas institucionais preferem não mostrar. A integridade da informação climática depende não apenas de combater mentiras, mas também de iluminar os silêncios.
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