Análises

SEMA lança “cortina de fumaça” sobre origem da fumaça em Manaus e encobre BR-319 como causa

Ao colocar a seca e El Niño no centro da explicação, autoridades ambientais deslocam o debate daquilo que realmente exige resposta do Estado: fiscalizar as áreas atingidas e responsabilizar os autores

Lucas Ferrante ·
28 de setembro de 2026

Manaus volta a ser sufocada pela fumaça, e a resposta oficial da Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Amazonas (SEMA) insiste em empurrar a responsabilidade para o clima e para focos de queimadas de outras regiões. O problema é que El Niño não incendeia a floresta e não produz, sozinho, milhares de focos de calor. Ao colocar a seca e as condições meteorológicas no centro da explicação, autoridades ambientais deslocam o debate daquilo que realmente exige resposta do Estado: identificar quem provoca as queimadas, fiscalizar as áreas atingidas e responsabilizar os autores. Essa narrativa não é apenas tecnicamente insuficiente, ela ajuda a naturalizar e encobrir um problema que envolve uso ilegal do fogo, desmatamento e falhas crônicas de fiscalização por parte do estado. Quando uma crise produzida por ignições humanas passa a ser apresentada principalmente como consequência do clima, o resultado é conveniente para quem deveria explicar por que, ano após ano, o fogo continua começando.

Em entrevista à revista Cenarium, Renato Trevisan Signori, o coordenador da Sala de Situação da Secretaria de Estado de Meio Ambiente do Amazonas (SEMA), apontou que o comportamento das queimadas em setembro é diferente daquele observado no período tradicionalmente mais crítico no Amazonas. Embora agosto costume concentrar a maior quantidade de focos de calor no estado, setembro já havia ultrapassado esse número até aquele momento. O coordenador da SEMA ainda afirmou: “Agora, em setembro, a Região Metropolitana de Manaus e a região leste do Estado começaram a queimar de forma anômala, acompanhando esse padrão”. Entretanto dados históricos do projeto queimadas do INPE mostram que os picos de queimadas no estado ocorrem em agosto ou setembro, e se considerarmos os dados de 2010 até o presente, 35,3% dos picos de queimadas no Amazonas ocorreu em setembro, incluindo os anos de 2013, 2015, 2018, 2022, 2023 e 2026 (figuras 1 e 2). Logo, não existe regime anômalo sendo observado em setembro.

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Figura 1. Distribuição mensal de focos de queimadas no estado do Amazonas de 1998 até 2026.
Figura 2. Distribuição mensal de focos de queimadas no estado do Amazonas de 2010 até 2026.

O coordenador da Sala de Situação da Sema também relaciona o cenário, em sua fala à Cenarium, à atuação do El Niño que, em sua avaliação, prolonga a estação seca e desloca para o norte da Bacia Amazônica as condições de menor precipitação e umidade. Segundo essa interpretação, esse deslocamento faria com que áreas da Região Metropolitana de Manaus e da calha do Amazonas, onde, segundo ele, já ocorreu conversão da cobertura do solo e há maior ocupação humana, passassem a apresentar condições mais favoráveis à ocorrência e à propagação do fogo. “Quando essa ‘área de seca’ se desloca para o norte, a área com maior risco de fogo se desloca justamente para a Região Metropolitana de Manaus e para a calha do Amazonas, onde a conversão da cobertura do solo já aconteceu”, afirma o secretário da SEMA.

Entretanto, a ideia de que a calha do rio Amazonas funcione como uma espécie de corredor ou condutor da fumaça carece de sustentação científica e já foi utilizada pelo governo do Amazonas, inclusive durante a crise de fumaça em 2023, como parte de uma narrativa que desloca para fatores climáticos a responsabilidade pelas queimadas em zonas de especulação fundiária, grilagem e desmatamento ilegal no estado do Amazonas. Esse tipo de explicação pode desviar o foco das responsabilidades do poder público em relação à fiscalização, ao combate ao desmatamento e ao controle do uso ilegal do fogo, questão apontada por estudo científico revisado por pares publicado na revista Discover Sustainability, da Springer Nature.   

Na crise de 2023, a análise publicada na Discover Sustainability combinou dados do INPE, INMET, ATTO, sensores de qualidade do ar e observações de campo e concluiu que a atribuição da fumaça ao leste do Amazonas não correspondia aos dados de emissões e ventos e focos reais da fumaça do episódio. O estudo identificou zonas atravessadas pela rodovia BR-319, como fontes centrais das emissões que atingiram Manaus (figura 3).

Figura 3. Mapa da origem das emissões de calor de focos de incêndios que afetaram Manaus em 2023. Fonte: Ferrante et al. 2025 Discover Sustainability.

Como demonstrado no artigo científico publicado na revista Discover Sustainability, que analisou os focos de incêndio durante o El Niño de 2023, a fumaça que afetou Manaus naquele período teve origem na região da rodovia BR-319. Ao observar os dados do INPE para 2026 (figura 4), descarta-se novamente a hipótese de que a fumaça tenha origem no leste do Amazonas, como afirmado pelo secretário da SEMA, e seja conduzida pela calha do rio Amazonas. Entre 22 e 23 de setembro, os maiores focos de queimadas sequer se concentraram na calha do Amazonas ou no leste do estado, que, além disso, não correspondem às áreas de maior concentração de mudanças na cobertura do solo como também demonstrado no estudo na Discover Sustainability.

Figura 4. Dados de 22 de setembro de 2026 do Projeto Queimadas do INPE

Os dados por município, por sua vez, mostram que localidades situadas na região da BR-319 concentram a maioria dos focos nos dias que Manaus foi coberta pela fumaça, com destaque para Novo Aripuanã, Manicoré e Autazes. O estudo científico também mostra que esse padrão ocorre nessas áreas porque a rodovia BR-319 favorece a especulação fundiária e a grilagem de terras, enquanto o período seco e a menor umidade da floresta criam condições que facilitam incêndios criminosos provocados por grileiros na região. Esses municípios estão justamente entre as áreas que apresentam as maiores mudanças na cobertura do solo de floresta para pastagens. Ou seja, mais uma informação falsa dada pela SEMA.      

O coordenador da Sala da SEMA também apontou “Especificamente sobre os últimos dias, a fumaça vem majoritariamente das queimadas que estão acontecendo aqui na RMM [Região Metropolitana de Manaus] e em áreas mais ao leste do Estado do Amazonas, trazida por ventos vindos de leste, com variações para norte e sul”. Na reportagem da revista Cenarium, Renato Trevisan Signori também afirmou que a modelagem realizada pela Sala de Situação da Sema na quinta-feira, 24, acrescentou um novo componente à análise. Segundo ele, o modelo identificou ventos provenientes do sudoeste do Pará em níveis mais altos da troposfera, o que poderia permitir o transporte de poluentes daquela região em direção ao Amazonas. Trevisan ressalvou, no entanto, que esse dado não permite atribuir toda a fumaça ao estado vizinho, “Mas isso não quer dizer que a fumaça tenha vindo exclusivamente de lá. Até porque esse deslocamento do ar passa por regiões como Novo Aripuanã, Autazes e Careiro da Várzea, que também estão queimando e emitindo fumaça na direção de Manaus”.

Sobre a afirmação do secretário de que a fumaça teria origem em áreas da Região Metropolitana de Manaus e do leste do Amazonas, cabe perguntar: os dados sustentam essa explicação? Ou tentam jogar uma “cortina de fumaça” nos efeitos da pavimentação da rodovia BR-319 na fumaça que afeta Manaus?

É importante destacar que, durante eventos de El Niño, podem ocorrer anomalias de ventos vindos do oeste em determinadas regiões e períodos da Amazônia. Isso significa que o fluxo predominante de leste para oeste pode enfraquecer e, episodicamente, apresentar componente no sentido oposto, como ocorreu nos dias em que Manaus ficou coberta pela fumaça. As medições do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) mostram, nesse período, um deslocamento atmosférico de oeste para leste (Figura 5). Se esse padrão é confirmado pelos dados meteorológicos do INMET, ele contradiz a explicação apresentada pela SEMA para a origem da fumaça. Nesse caso, restam duas possibilidades preocupantes: ou a Secretaria não dispõe de capacidade técnica adequada para interpretar corretamente a dinâmica atmosférica envolvida, ou está direcionando a explicação para fontes que não correspondem ao padrão observado nos dados, contribuindo para mascarar, por mais um ano, a verdadeira origem dos focos de incêndio.

Figura 5. Dados do INMET e imagens do satélite GOES para 22 de setembro de 2026. O padrão atmosférico indica ventos se deslocando predominantemente de oeste para leste, com fluxo de sudoeste na região da BR-319, no sentido de Careiro para Manaus, o que carreou a fumaça para a capital.

A gravidade de uma possível distorção ou manipulação da interpretação dos dados pela SEMA não pode ser tratada como um problema secundário. Em 2023, o artigo publicado na Discover Sustainability registrou que a SEMA atribuiu oficialmente parte da fumaça ao Pará e ao leste do Amazonas, mas a análise de dados do INPE, INMET, ATTO e das estações de qualidade do ar apontou outra origem. No estudo, que coordenei, concluímos que a pluma que cobriu Manaus estava associada a incêndios no próprio Amazonas, sobretudo em Careiro e Autazes e nos corredores da BR-319 e da AM-254. O mesmo estudo relata que o apoio federal foi solicitado apenas quando a situação já era extremamente grave. Repetir uma atribuição de origem sem demonstrá-la adequadamente tem consequências práticas: a fiscalização e as ações de combate podem ser direcionadas para o local errado, enquanto os focos responsáveis pela fumaça permanecem ativos.

Há outro alerta que não pode ser ignorado. No último grande episódio associado ao El Niño, o pior pico de fumaça em Manaus ocorreu em outubro. Em 12 de outubro de 2023, a concentração de PM2.5 chegou a 314,99 µg/m³, e a cidade permaneceu exposta à fumaça entre setembro e novembro. Por isso, setembro não deveria ser tratado como o encerramento da crise, mas como uma janela para prevenção. A resposta pública precisa chegar antes de um novo pico. Identificar os focos responsáveis, intensificar fiscalização e combate nas áreas de maior emissão, reduzir a exposição da população e preparar a rede de saúde para um eventual agravamento em outubro. Uma resposta baseada em explicações sem nenhum respaldo científico ou dados reais desperdiça exatamente o tempo em que o Estado ainda pode evitar que a crise se amplifique.

A discussão sobre a fumaça também é inseparável da viabilidade da BR-319. O estudo de 2025 concluiu que a reconstrução e consolidação da rodovia tende a acelerar mudanças de uso da terra, ampliar os incêndios e agravar riscos à biodiversidade, ao clima e à saúde pública. Na crise de 2023, as áreas sob influência direta da BR-319 concentraram emissões que atingiram uma capital com mais de dois milhões de habitantes, levando a níveis extremos de material particulado. Portanto, os efeitos da rodovia não terminam na margem da pista, alcançam a qualidade do ar e a vida cotidiana de Manaus.

  • Lucas Ferrante

    É pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e colaborador do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM). →

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