Vasculhando O Eco por alguma inspiração, cai nas palavras denunciantes sobre o rio São Francisco, e devo confessar que doeu a alma. Naveguei pelo Velho Chico pela primeira vez em 1989, quando as barrancas, suas águas e matas ciliares ainda emanavam um tanto de esperança. Na véspera da virada do milênio foi minha segunda viagem e agora, dois anos atrás, trabalhei para o Ministério do Meio Ambiente na documentação do Programa de Revitalização. Atônitos foram meus olhares sobre o mesmo cenário. Tão familiar e ao mesmo tempo tão incômodo. Apesar de ter fotografado uma beleza ímpar em certos trechos do rio, animais silvestres e uma cultura ribeirinha deliciosa de se conviver, trazer este assunto em forma de imagens seria mais um ensaio-denúncia, não poderia deixar de ser. Então resolvi desencantar um outro trabalho, daqueles que, pelo menos, nos dão uma réstia de bem estar.
A demora para publicação deste ensaio começou com o próprio autor, afinal Jonny Gitty é uma pessoa que prefere escrever no papel, para depois transcrever para o Word. Só isto já o torna alguém fora deste avassalador mundo moderno. Além disso, o fato de ser um fotógrafo que atua no mercado de moda e publicidade, e ter começado profissionalmente já na era digital, é suficiente para alguém torcer o nariz e me perguntar “o que faz ele aqui?”. Mas são justamente estes antagonismos que me agradam, histórias de quem vê o meio ambiente com aquele olhar de contemplação pura, ingênua. Em que flores, insetos são meros representantes de um mundo que não lhe pertence, onde é apenas um visitante. Em seu dileto prazer de fugir das agruras da luz precisa dos estúdios e se enveredar na fotografia de plantas e animais, tem a grata sensação de que aquelas fotos poderão, um dia, servir para proteger quem esteja sendo fotografado.
Jonny começou em 1998 com a lendária Zenit, aquela câmera ‘trator’ russa. “Fotografava patinhos, pardais, poste, pombos, tudo que tivesse na minha frente” comenta. Com altos e baixos, tentou vestibular para publicidade, faltou grana, começou a fotografar desfiles de moda. Freqüentou palestras, workshops, cursos gratuitos, e hoje é diretor de arte e fotografia de uma pequena agência de design.
Nota-se uma preocupação estética nas fotos, a colocação de regras fotográficas dando leveza na leitura e uma luz bem interessante. Mas acima destes quesitos que servem muito bem para uma explanação sobre os princípios fotográficos, vi em seu trabalho algo lúdico e infantil, não no sentido de pouco aprimoramento técnico, pelo contrário. Enxerguei aquela crença que as crianças carregam nas palavras sinceras, no acreditar que as coisas podem melhorar, que tudo tem solução; em afirmações como ‘o importante é proteger’. E num momento ambiental tão crítico que nosso planeta vive, nada melhor do que a simplicidade de um olhar ainda não contaminado pelos desgostos ambientais que vivemos. Um suspiro de otimismo, de fé, de perceber “que nunca termina, sempre começa, é e sempre será assim”, nas palavras do autor.
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