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Estudo mostra importância de mangues para pesca

Pesquisa analisou etapas de desenvolvimento do dentão, espécie de alto valor comercial que enfrenta redução de estoques e sobrepesca no litoral baiano.

Celso Calheiros ·
9 de novembro de 2011 · 14 anos atrás

Dentão ou vermelho pode atingir 80cm em profundidades mais baixas, mas sua maturidade sexual é atingida aos 35cm. Foto: Daniel Filgueiras Coral Mussismilia braziliensis faz uma sombra para um dentão (Lutjanus jocu) em Abrolhos. Foto: Amanda Ercília
 

A relação entre a vida marinha, os recifes e os mangues é bastante comentada, mas nem sempre comprovada. Estudo inédito tratou com rigor científico a dependência que o dentão ou vermelho (Lutjanus jocu) possui dos ambientes estuarinos e dos recifes – duas regiões fundamentais para diferentes fases da vida desse peixe de alto valor comercial, cuja captura anual chega a 3 mil toneladas, em especial no litoral baiano. Bahia é o terceiro estado em produção pesqueira no país (atrás de Santa Catarina, número um, e do Pará).

A pesquisa é inédita e foi realizada na região do Parque Nacional Marinho de Abrolhos (os recifes) e no complexo de mangues existente entre o município de Caravelas e o de Nova Viçosa, no litoral sul da Bahia. Os dados comprovam a conexão entre esses dois ambientes intermediado pelos recifes mais próximos do continente em diferentes momentos da vida dessa espécie. O dentão, o vermelho fazem parte da família dos lutjanidae, integrada também ariocós, caranhas, pargo, guaiuba, ciobas. Peixes de escamas, carne branca, poucas espinhas e sabor suave – daí o alto valor comercial.

Dentão e outros peixes da família do lutjanidae são tradicionais na mesa dos consumidores do litoral nordestino. Foto: Erico G de Carvalho
Dentão e outros peixes da família do lutjanidae são tradicionais na mesa dos consumidores do litoral nordestino. Foto: Erico G de Carvalho
Os dados da pesquisa serão fundamentais para o manejo dessa espécie que sofre com a sobrepesca e o declínio dos estoques. O trabalho identificou os momentos e os locais onde ocorrem cada fase do desenvolvimento. As agregações reprodutivas são feitas no limite da plataforma continental, as larvas nadam na lâmina d’água até os ambientes estuarinos e ficam lá até cresce.

Quando maiores têm necessidade de outros alimentos e se dirigem ao mar. Está maduro sexualmente quando ultrapassa os 35cm. Nesse momento, se dirige para as agregações na quebra da plataforma, explica o professor Ronaldo Bastos Francini-Filho (Universidade Federal da Paraíba).

Ele é um dos autores do trabalho encabeçado por Rodrigo Leão de Moura (Universidade Estadual de Santa Cruz) e que também contou com Carolina Viviana Minte-Vera (Universidade Estadual de Maringá), Eduardo Chaves (Universidade Estadual de Santa Cruz) e Kenyon Lindeman (Florida Institute of Technology).

Além da contribuição para biólogos e engenheiros de pesca na academia, a pesquisa serve de subsídio científico contra as ameaças que costumam rondar o litoral sul da Bahia, mais especificamente entre Caravelas e Abrolhos. Até a criação da Reserva Extrativista de Cassurubá, um projeto com pretensões de ser a maior criação de camarão do mundo estudava se instalar na região. A nova ameaça é o risco da Agência Nacional de Petróleo (ANP) inclua as imediações de Abrolhos nos leilões de blocos para prospecção da matriz energética.

Recifes profundos, peixes maiores

A pesquisa revelou os diferentes estágios do dentão: menor nos estuários, intermediário nos recifes costeiros e maior em Abrolhos. Nos recifes mais profundos são encontrados os maiores dentões entre 70 e 80cm. “Esses indivíduos são os maiores responsáveis pela recolonização da espécie, pois quanto maior o peixe, sua capacidade reprodutiva é exponencialmente maior”, detalha Ronaldo Francini-Filho.

Foram investigadas doze diferentes hábitats costeiros e recifais, abrangendo a reserva extrativista de Cassurubá, os recifes Parcel das Paredes e Sebastião Gomes e Abrolhos. Foto: Mapa da pesquisa de por Rodrigo Leão de Moura e outros
Foram investigadas doze diferentes hábitats costeiros e recifais, abrangendo a reserva extrativista de Cassurubá, os recifes Parcel das Paredes e Sebastião Gomes e Abrolhos. Foto: Mapa da pesquisa de por Rodrigo Leão de Moura e outros
De acordo com o diretor do programa marinho da Conservação Internacional Brasil (CI-Brasil), Guilherme F. Dutra, poucos trabalhos foram exitosos em demonstrar a conectividade entre ambientes costeiros e marinhos. “Esse é o primeiro estudo que consegue provar a relação entre manguezais e recifes para essa espécie”, afirma.

O apoio financeiro para as pesquisas foi feito pela CI-Brasil e National Geographic Society, a Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia, além do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq). O trabalho já foi publicado na edição de setembro da publicação Estuarine, Coastal and Shelf Scienc.

Ilha de Santa Bárbara, em Abrolhos: a região com maior biodiversidade do Hemisfério Sul.  Foto: João Ramos - Bahiatursa
Ilha de Santa Bárbara, em Abrolhos: a região com maior biodiversidade do Hemisfério Sul. Foto: João Ramos – Bahiatursa

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