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2012: recorde de venda de carros e queda de venda de ônibus

Nunca foram vendidos tantos automóveis no Brasil. Medidas de incentivo favorecem concessionárias, mas afetam saúde e qualidade de vida.

Daniel Santini ·
4 de janeiro de 2013 · 13 anos atrás

A Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), organização que representa concessionárias e revendedoras de carros de todos o Brasil, divulgou nesta quinta-feira, 3 de janeiro, balanço de vendas de automóveis e veículos comerciais leves em 2012. Segundo a entidade, nunca se vendeu tanto carro no Brasil quanto agora. Só em 2012, foram comercializados 3.643.421 unidades, um aumento de 6,11%. Ao anunciar os números, o presidente da Fenabrave, Flávio Meneghetti, afirmou, feliz da vida, que a redução de IPI foi fundamental e que o crescimento foi acima da projeção de 4,8% feita pela entidade para o período. Para 2013, a expectativa é de quer as vendas cresçam mais 3%, ou nada menos do que 3.743.285 veículos. 

Na outra ponta, a do transporte público, os números são nada animadores. O número de ônibus emplacados caiu de 34.944, em 2011, para 29.716 em 2012, uma redução de 14,96%. Dividindo o número de carros vendidos em 2012 pelo número de ônibus emplacados, chega-se ao chocante resultado de que entram 122,3 novos carros na rua para cada novo ônibus circulando. A política continua o que podemos chamar de “cada um com seu motor”.

A venda de carros disparou no Brasil na última década. Em menos de dez anos, das 1.3 milhão de unidades comercializadas em 2003, o número saltou para os atuais 3.6 milhões, mais do que o dobro. Apesar do tom festivo do anúncio feito pelo presidente da federação das concessionárias, especialistas em saúde pública e urbanismo têm lançados sucessivos alertas sobre as consequências da radicalização do uso de transporte individual privado no país. Ao se tratar da importância econômica de tal explosão de vendas de carros não dá para esquecer dos empregos gerados nas montadoras e da movimentação do comércio, mas é preciso considerar também aspectos como agravamento da poluição do ar e consequente piora nos índices de doenças respiratórias nas grandes cidades, além da deteriorização de centros urbanos com congestionamentos cada vez mais frequente e perda generalizada de qualidade de vida.

Não custa lembrar, aliás, que o ano em que a venda de carros foi recorde no Brasil foi também o ano em que a respeitada revista de saúde Lancet apontou que, no mundo todo, a poluição do ar passou a matar mais do que colesterol alto (leia reportagem em inglês sobre o assunto no Washington Post). E foi também o ano em que São Paulo teve recorde absurdo de 295 km de congestionamento, com milhares de pessoas presas nos carros sem conseguir chegar em casa – mesma sensação que muitos dos que viajaram de carro agora no fim do ano, enfrentaram ao tentar regressar. O número de carros aumenta, mas o país continua sem sistemas de fiscalização e medição de emissões de poluentes adequados. Mesmo onde existem medições regulares, os padrões estão desatualizados, conforme aponta alerta divulgado pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) nesta semana.

E seguimos todos avançando… cada vez mais lentamente, ou parados no trânsito, respirando fumaça.

*matéria editada em 04/01/2013, às 10h30.

  • Daniel Santini

    Responsável pela plataforma ((o)) eco Data. Especialista em jornalismo internacional, foi um dos organizadores da expedição c...

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