
Já se foi o tempo em que a produção audiovisual ambiental era apenas sinônimo de observação de ambientes selvagens e naturais, ou, em leva mais recente, de denúncias sobre a depredação de ecossistemas e o futuro incerto da humanidade.
A tendência deste universo e que se revela nos filmes vencedores em festivais pelo mundo incluídos na quarta edição do carioca Filmambiente – Festival Internacional do Audiovisual Ambiental, que começa amanhã (4) – é que os agentes da mudança estão em alta. Os protagonistas são homens e mulheres que dedicam suas vidas a diminuir a pegada ambiental de nossa sociedade.
Serão seis mostras temáticas em que o Filmambiente dividirá seus 62 filmes – a serem exibidos em quatro pontos na Zona Sul e outros quatro na Zona Norte. Entre elas, destaco a intitulada “Senhores de seus Destinos“, que através de cinco filmes aponta para essa direção.
No documentário LO (França, 2014), por exemplo, vemos a história de Chai Lo, um cambojano simples que sobrevive a perseguições do Khmer Vermelho e à uma enfermidade grave do coração, realiza seus estudos até a pós-graduação na França, e se especializa com louvor em gestão hídrica. Mas decide voltar à sua terra natal para realizar um sonho: melhorar o sistema de água local.

Em A Fonte (Haiti e USA, 2012), Josué Lajeneusse, haitiano que trabalha como faxineiro em Princeton, consegue mobilizar milhares de pessoas que vivem no conforto, muito longe do Haiti, para ajudá-lo a viabilizar a distribuição de água potável em sua cidade, após o devastador furacão Sandy em 2012.
O filme Vidas (Irlanda, 2013) acompanha três missionários em diferentes partes do globo, que se dedicam ao bem comum e aos mais necessitados. Seu diretor, o irlandês Ruán Magan, deixou um testemunho sobre a inspiração que os atores reais de seu filme lhe passaram:
“Filmar Vidas foi uma viagem extraordinária que durou quatro anos (…). Buscamos em todo o mundo missionários, especialmente os que trabalhavam em locais inóspitos. Encontramos o irmão John, em Papua, Nova Guiné; a irmã Patmary, no sul do Sudão e o irmão Pash Brannan, que trabalha há quarenta anos na região amazônica do Brasil, com os indios Araras. O que nos demos conta, pelo sacrifício que estas pessoas estão dispostas a fazer, vivendo há décadas longe de casa, muitas vezes em pobreza absoluta, sem amigos ou família, vivendo em dificeis e hostis ambientes; é de que estas pessoas são anjos humanos(…) e incrivelmente generosas, outras nem tanto.”
Essas histórias mostram verdadeiros heróis voltados a arquitetar estratégias de otimização de recursos vitais a todos, e também de reabilitar o tecido social e empoderar o próximo.
Além dos filmes, o festival apresentará o painel de debate Meio Ambiente: Evolução Temática e de Abordagem nos Últimos Vinte Anos, no dia 9, que terá a mediação do colunista Agostinho Vieira, e a presença do economista e ecologista Sergio Besserman, a diretora e produtora de vídeos socioambientais Paula Saldanha, e o produtor do festival Cine’Eco, que acontece há 20 anos na Europa, Mario Branquinho.

O painel será antecedido pelo curta-metragem Se eu tivesse uma Vaca (Espanha, 2013), que será uma das referências para a discussão. No curta, um africano consegue através de doações estrangeiras presentear uma vaca para cada família de seu pobre vilarejo. O animal representa ali um símbolo de produtividade e prosperidade, já que ajuda a arar a horta e fornece leite à família.
Os filmes são parte importante da produção crítica de nosso tempo. Eles mostram cidadãos que questionam uma realidade muitas vezes injusta e inerte, e decidem enfrentá-la e melhorá-la. E que bom que o cinema ambiental evolui, ao refletir os bons exemplos desses seres humanos que tornam a era da sustentabilidade socioambiental menos utópica.

*Gabriela Machado é jornalista e coordenadora de comunicação do Filmambiente
Leia também
Água potável é ouro no Haiti pós terremoto
No Haiti, projeto de reciclagem abre janela de esperança
Haiti : a falta de horizonte em um país de destituídos
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Projeto que barra fiscalização ambiental remota ganha urgência na Câmara
Associação de servidores emite nota expressando preocupação. Ibama tem apenas 752 agentes para atender universo de mais de 100 mil alertas por ano →
Talvez o sertão não vire mar, mas o litoral brasileiro já está virando
Quando a vegetação costeira desaparece e a urbanização avança até a linha da praia, não é apenas o ecossistema que se fragiliza →
Fiscais do Ibama sofrem emboscada durante operação contra madeira ilegal no Amazonas
Servidores foram atacados e tiveram o veículo incendiado durante operação na Terra Indígena Tenharim-Marmelos, em Manicoré →


