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A Amazônia desconectada pelas barragens

Estudo indica impactos de barragens construídas e planejadas para os Andes sobre a Bacia Amazônica. Interferência sobre migração de peixes e fluxos de sedimentos pode afetar milhares de pessoas

Vandré Fonseca ·
1 de fevereiro de 2018 · 4 anos atrás
Fluxo natural dos rios agem com grande intensidade sobre inúmeros sistemas humanos e naturais. Crédito: Elizabeth Anderson.

Manaus, AM — Os impactos da construção de barragens na Amazônia Andina podem afetar severamente a biodiversidade e a vida de 30 milhões de pessoas, que dependem dos recursos das águas, das várzeas e da floresta para sobreviver. Os efeitos poderão ser sentidos no Brasil.

O alerta é dado em um artigo publicado nesta quarta-feira (31) na Science Advances, que apresenta os efeitos das hidrelétricas em operação, em construção ou que ainda serão construídas sobre a conectividade de rios da região.

Os rios andinos são grandes fontes de nutrientes e sedimentos para as regiões mais baixas da Amazônia, explica a autora principal do artigo, Elizabeth P. Anderson, professora assistente do Departamento de Terra e Meio Ambiente da Universidade Internacional da Flórida.

“Além disso, muitas das espécies de peixes que passam a maior parte da vida em ambientes aquáticos de regiões baixas migram até os rios andinos para cumprir seu ciclo reprodutivo”, destaca. “As barreiras e as alterações hidrológicas introduzidas por represas nos Andes rompem a conectividade fluvial que é crítica para estes processos ecológicos”.

As análises feitas com base em imagens de satélite demonstram que o número de barragens em operação ou sendo construídas na Amazônia Andina é cerca de duas vezes maior do que o oficialmente apresentado. Os impactos dessas obras também estão subestimados.

Barragens nos rios da Amazônia Andina frequentemente desviam toda a água do canal do rio por quilômetros de distância. Além da própria barragem, esses desvios causam significante quebra da conectividade. Crédito: Elizabeth Anderson.

Os pesquisadores avaliaram a conectividade dos rios em três cenários diferentes, apresentados em mapas no estudo. As hidrelétricas em operação já causam efeitos sobre a rede de tributários, embora os impactos ainda não sejam sentidos nos principais rios da região, conforme mostra o primeiro cenário apresentado.

Porém, essa situação tende a mudar com a construção de novas barragens, afirmam os responsáveis pelo estudo. Os padrões de migração de peixes vão ser severamente afetados. O estudo indica que sedimentos carregados pelos rios tendem a ser totalmente bloqueados pelo avanço das hidrelétricas.

O biólogo Clinton Jenkins, do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), que colaborou com os estudos, afirma que populações da Amazônia Brasileira poderão sentir os impactos das barragens. “Tem potencial para isso, pois se está bloqueando sedimentos nos Andes, eles não vão chegar ao Brasil”, afirma o biólogo, explicando que ainda não é possível medir esses impactos.

Para os autores da pesquisa, dada a importância dos rios que nascem nos Andes e descem para a Amazônia, responsáveis pela disponibilidade de proteína e sustento de milhões de pessoas, é necessariamente crítica uma maior cooperação nos processos de gerenciamento da água.

 

Saiba Mais

Artigo: “Fragmentation of Andes-to-Amazon connectivity by hydropower dams,” E.P Anderson et al.

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