Notícias

Amazônia está cada vez mais perto do colapso, diz documento lançado na COP 26

Relatório elaborado por mais de 200 cientistas propõe que governo brasileiro decrete moratória do desmatamento na Amazônia, a fim de evitar ponto de não retorno do bioma

Cristiane Prizibisczki ·
12 de novembro de 2021

Relatório divulgado nesta sexta-feira (12) por mais de 200 cientistas alerta que a Amazônia está se aproximando de um potencial e catastrófico ponto de inflexão devido ao desmatamento, degradação, incêndios florestais e mudanças climáticas. Ao atingir este ponto de inflexão, ou ponto de “não retorno”, a floresta não será mais capaz de se recompor e perderá permanentemente sua vegetação, transformando-se em um ecossistema mais seco, degradado e com menor cobertura de árvores.

Resultado do trabalho do Painel Científico para a Amazônia (SPA), o primeiro Relatório de Avaliação do bioma foi lançado na Conferência do Clima da ONU, em Glasgow. O documento traz um apelo aos governos globais, líderes do setor público e privado, formuladores de políticas e ao público em geral sobre a importância de ações imediatas para evitar mais devastação na região.

Segundo o documento, cerca de 60% de toda a Bacia Amazônica já está próxima do ponto crítico. Além disso, o relatório alerta que quase 70% dos territórios indígenas e das áreas protegidas do bioma estão ameaçados por estradas, mineração, exploração de petróleo e gás, invasões ilegais, hidrelétricas e pelo desmatamento em si.

“O atual modelo de desenvolvimento está alimentando o desmatamento e a perda de biodiversidade, levando a mudanças devastadoras e irreversíveis. Para que a Amazônia sobreviva, devemos mostrar como ela pode ser transformada para gerar benefícios econômicos e ambientais, através de colaboração entre cientistas, detentores do conhecimento indígena e seus líderes, comunidades locais, setor privado e governos”, diz o cientista brasileiro Carlos Nobre, co-presidente do SPA.

Aproximadamente 17% das florestas da Bacia Amazônica já foram convertidas para outros usos de terra e pelo menos outros 17% já foram degradados. Devido à iminência da chegada ao ponto de inflexão, os cientistas do SPA recomendam uma moratória imediata ao desmatamento nas áreas que já se aproximam deste ponto e que a meta de desmatamento e degradação zero seja alcançada antes de 2030. 

Durante a COP, o governo brasileiro anunciou a antecipação da meta de desmatamento zero de 2030 para 2028, mas a falta de políticas públicas efetivas para o controle da destruição amazônica coloca em xeque as falas do governo. 

Também nesta sexta-feira, o INPE divulgou dados que mostram que o desmatamento na Amazônia atingiu novo número recorde em outubro, e chegou a 877 km² desmatados. As taxas de destruição da floresta amazônica explodiram na gestão Bolsonaro e alcançaram números que não eram vistos desde 2008.

“Com os recentes picos de desmatamento que estão devastando a mais extensa floresta tropical na Terra, devemos anunciar um código vermelho para a Amazônia”, diz a cientista Mercedes Bustamante, também membro do Comitê Científico do SPA.

Além de trazer os dados mais recentes sobre o status de conservação do bioma amazônico, o relatório também detalha as ações que precisam ser tomadas para evitar que ele entre em colapso, combinando pesquisa científica com conhecimento de povos indígenas e comunidades locais, e fortalecendo parcerias fortes entre as várias instâncias de governo, setores financeiro e privado, sociedade civil e comunidade internacional.

  • Cristiane Prizibisczki

    Cristiane Prizibisczki é Alumni do Wolfson College – Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde participou do Press Fellow...

Leia também

Notícias
12 de novembro de 2021

Desmatamento bate recorde em outubro e expõe vazio dos discursos do Brasil na COP

O mês de outubro registrou 877 km² de área desmatada na Amazônia, alta de 5% e patamar mais alto para o mês desde 2015

Reportagens
1 de novembro de 2021

Pasto ocupa 75% da área desmatada ilegalmente em terras públicas na Amazônia, mostra estudo

Quantidade de CO2 lançado na atmosfera nas últimas décadas pela prática da grilagem equivale a cinco anos das emissões nacionais de gases causadores do efeito estufa

Análises
28 de outubro de 2021

O que esperar do Brasil em Glasgow para a conservação das florestas

A adoção de políticas de neutralidade de emissões de gases de efeito estufa tem feito com que a demanda do setor privado por créditos de carbono cresça fortemente

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Comentários 1

  1. MARTA METELLO JACOB diz:

    Por conta de lucros pífios com vacas estamos pondo em perigo a nossa sobrevivência, a dos povos originários, a agricultura, a indústria por falta de água fornecida pela floresta. SERÁ QUE VALE A PENA?????