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Apenas 11% dos quintais da Zona Norte do Rio possuem árvores

Região que concentra 38% dos habitantes da capital do estado sofre com escassez de áreas verdes, confirma estudo realizado por pesquisadora da Coppe

Sabrina Rodrigues ·
31 de janeiro de 2017 · 7 anos atrás
Acima, a pesquisadora Vera Ruffato. Cobertura verde na Zona Norte está cada vez mais escassa. Foto: Divulgação/Coppe.
Acima, a pesquisadora Vera Ruffato. Cobertura verde na Zona Norte está cada vez mais escassa. Foto: Divulgação/Coppe.

Aquelas casas com quintal e árvore, típica do subúrbio carioca nos anos 1970, ficaram no passado. Residências com o mínimo de área verde na Zona Norte do Rio de Janeiro passou a ser exceção. Pelo menos é o que indica um estudo feito pela pesquisadora da Coppe, Vera Ruffato, que mapeou as áreas verdes em residências no Rio de Janeiro.

Segundo Vera, apenas 11,40% das áreas dos quintais de residências do subúrbio da Zona Norte do Rio de Janeiro possuem árvores e 2,47% têm cobertura rasteira, como gramados. Cerca de 2,4 milhões de pessoas vivem na Zona Norte, que concentra 38% da população residente do município. São 203 mil km² divididos em 79 bairros.

A pesquisa foi tema da tese de doutorado de Vera Ruffato, defendida recentemente no Programa de Planejamento Energético da Coppe. Trata-se do maior mapeamento de áreas verdes residenciais já realizado até o momento no país.

A Praia da Bandeira, na Ilha do Governador, é o que apresenta maior porcentagem de residências com árvores no quintal: 20,71%. Já o bairro de Manguinhos, onde está localizado um dos espaços verdes mais importantes da cidade, o campus da Fiocruz, aparece como pior aluno no ranking de residências com árvores no quintal: apenas 0,66% de cobertura verde (veja tabela na íntegra).

A ausência de cobertura verde é um grande problema nas cidades e se apresenta normalmente no fenômeno chamado ilha de calor: local onde a temperatura média é mais elevada do que no restante da cidade devido a concentração de asfalto e concreto. “(A Zona Norte) é também uma das regiões com pior qualidade do ar. Além disso a falta de parques e praças está relacionado a falta de áreas de lazer ao ar livre para a população dessa área”, afirma Vera, em entrevista ao ((o))eco.

Mudanças vindas da Prefeitura

Algumas sugestões apontadas por Vera em sua tese de doutorado, defendida em setembro de 2016, começam a ser implementadas por meio de dois decretos baixados pela prefeitura dia 1º de janeiro. O primeiro estipulou o prazo de 180 dias para que a Secretaria de Conservação e Meio Ambiente apresente plano para criação de dois viveiros municipais de mudas em Campo Grande e Guaratiba, visando a ampliar a área arborizada da cidade em 300 hectares até o final de 2019, com ênfase no subúrbio da Zona Norte do Rio. Já o segundo decreto estipula um prazo de 120 dias para que a Secretaria Municipal de Conservação e Meio Ambiente e a Secretaria Municipal de Fazenda apresentem um plano para instituir o IPTU Verde na Cidade do Rio de Janeiro, que deverá ter, entre outras medidas, sistemas de aquecimento solar e captação de águas da chuva para reaproveitamento.

Perguntada se os decretos são suficientes para a mudança no quadro, a pesquisadora afirmou que não, mas são um início. “Há anos o poder público ignora essa área”.

“Deve-se repensar a infraestrutura verde da cidade. Identificar e conhecer o que ainda temos e ampliar essas áreas. Como a cidade já é muito adensada e falta espaço para a construção de grandes parques, deve-se aproveitar o que já se tem, tanto em áreas públicas como privadas, como é o caso dos quintais. Em relação às áreas públicas deve-se repensar o uso das praças e parques existentes, ampliando suas áreas verdes (que vêm sendo substituídas por outras estruturas como unidades de saúde). Outra medida de grande importância é o plantio de árvores nas calçadas, que é quase inexistente no subúrbio”, explica.

 

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Editado às 17h00, 01/02/2017.

  • Sabrina Rodrigues

    Repórter especializada na cobertura diária de política ambiental. Escreveu para o site ((o)) eco de 2015 a 2020.

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Comentários 7

  1. Acerola diz:

    Mas nem um pé de Laranjinha?


  2. Luiz diz:

    Na Zona Norte, tem alguns dos maiores aglomerados urbanos do planeta. Sao Joao do Meriti, por exemplo, é o maior das Americas.

    É piada falar de árvore num contexto assim.


    1. R. Casé diz:

      A árvore faz sombra pro churrasquinho na laje!!!


      1. Pedro Paulo Lopes diz:

    2. Vera Ruffato diz:

      Olá Luiz, São João de Meriti não é Zona Norte do Rio. É outro município totalmente independente que faz parte da Baixada Fluminense. Se quiser ver meu estudo na integra é só acessar o link. Vejo que você realmente desconhece a área, pois está longe de ser "um dos maiores aglomerados urbanos do planeta" http://www.ppe.ufrj.br/ppe/production/tesis/ruffa


  3. umbrios27 diz:

    Não é com novas leis que vai se mudar o que as pessoas tem em seus quintais. Esse é um hábito ruim do brasileiro, que tem essa mania de achar que tudo precisa ter o poder do governo metido no meio, que quer criar leis impossíveis de fiscalizar e que se fossem possíveis, seriam extremamente maléficas para a sociedade, limitando a privacidade das pessoas de uma forma completamente invasiva.

    Querem mais árvores nos quintais? Mostrem quintais de famosos na TV recheados de árvores. Comentem (não em propagandas feitas só para isso, que vão só ser chatas e motivo de piadas, em outros meios) sobre como árvores são boas, bacanas e cool. Falem com o povo da Globo para incluir umas árvores nos cenários dos quintais das próximas novelas. Vendam a ideia de que árvores são bacanas, mais bacanas que o cimentado para fazer churrascão, e vocês vão ver pessoas colocando mais árvores nos seus quintais. Não vão ser todos que vão comprar a ideia, mas serão mais do que há agora.

    Dá mais trabalho que fazer leis inúteis, mas também dá mais resultado. E ao contrário das leis inúteis, respeita a vontade e a individualidade das pessoas.


    1. Vera Rufato diz:

      Olá Umbrios,

      Em momento nenhum eu defini em meu trabalho que fazer leis resolveria o problema. Regas de construção já existem e taxas de áreas mínimas impermeáveis são definidas nela e já são fiscalizadas nos projetos. O que proponho relativo a lei de comando e controle é que essas áreas não sejam apenas permeáveis (grama, solo desnudo etc.) mas que sejam verdes também.
      Se pegar a tese vai vei que discuto a importância da conscientização das pessoas e como um mesmo modelo construtivo pode ter mais ou menos árvores dependendo do "proprietário" do imóvel. Proponho também redução de IPTU como incentivo as pessoas que mantenham ou ampliem suas área's verdes, o que é um estímulo a mudança de pensamento, mas não uma obrigação. Contudo leis e regulamentações de construção são importantes pois nem sempre quem vai morar na casa/condomínio que define como será a construção, mas sim uma empreiteira ou construtor que quer ao máximo aproveitar o espaço útil do terreno sem se preocupar com a qualidade da construção do conforto das pessoas que vão morar ali, e para isso as sugestões de definições de taxas.