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Cientistas registram primeiro caso de doença parasitária em ariranhas

Mamífero foi encontrado morto no Pantanal. Artigo chama atenção para importância de estudos sobre o impacto da miíase em espécies ameaçadas de extinção, como é o caso da ariranha

Michael Esquer ·
28 de novembro de 2022 · 1 anos atrás

Uma nota científica recém-publicada na Revista Brasileira de Patologia Veterinária reportou o primeiro caso de miíase, doença causada por larvas de mosca, em uma ariranha (Pteronura brasiliensis). O animal foi encontrado morto no rio Miranda, no Pantanal sul-mato-grossense, em 2021. Pesquisadores alertam para a necessidade de mais estudos sobre o impacto do parasita na fauna selvagem.

Muito rara em vertebrados aquáticos, a baixa ocorrência de ectoparasitas (parasitas que ficam sobre a pele do animal) na ariranha pode estar relacionada aos hábitos semiaquáticos do animal, mas também ao seu comportamento de limpeza, aponta o estudo. No Brasil, o mamífero está na lista oficial de espécies ameaçadas de extinção, na categoria Vulnerável.

De acordo com o artigo, a ariranha analisada, um macho, foi encontrada morta no dia 4 de setembro de 2021, às margens do rio Miranda. No total, foram encontradas 22 larvas vivas da mosca Cochliomyia hominivorax – comumente conhecida como bicheira do Novo Mundo – durante o exame de necropsia feito na ariranha. “[Ela] é uma das principais causas de miíase em gado, animais selvagens e humanos em regiões tropicais e subtropicais das Américas onde não foi erradicada, incluindo o Brasil”, diz trecho da nota

Uma das larvas encontradas na ariranha. Foto: Reprodução/“First report of myiasis caused by Cochliomyia hominivorax in free-ranging giant otter (Pteronura brasiliensis)”/Brazilian Journal of Veterinary Parasitology

A pesquisa explica que os ovos da mosca eclodem após serem depositados pelo inseto na ferida de um hospedeiro vivo. Depois disso, as larvas passam a se alimentar da pele do animal. O estudo sugere que a ariranha encontrada morta provavelmente foi infectada pelo parasita após se ferir em acidente ou luta com outra ariranha. “Encontros agonísticos entre grupos de ariranhas foram relatados antes. Essas lutas podem resultar em ferimentos graves ou até mesmo em morte, embora muitos indivíduos possam apresentar uma rápida recuperação de lesões na natureza”, explica o artigo.

A hipótese levantada é de que a miíase causada pelas larvas da mosca tenha deteriorado a saúde da ariranha infestada, o que, por sua vez, impediu a sua recuperação. 

Os pesquisadores esclarecem que informações sobre o impacto de miíase nas populações de animais silvestres são escassas.  O artigo chama atenção para o caso de uma infestação do parasita que culminou na perda de 80% dos filhotes do veado-de-cauda-branca (Odocoileus virginianus) no Texas, nos Estados Unidos.

“Os registros de miíase em espécies ameaçadas de extinção, como onças, ariranhas aqui relatadas, e espécies de vertebrados invasores como porcos selvagens, demonstram a importância de estudos sobre o impacto desses parasitas na vida selvagem”, conclui a pesquisa. 

Seca e pecuária

A ((o))eco, a bióloga Nathalie Foerster, primeira autora do artigo, conta que, devido ao agravamento da seca nos últimos anos, tem percebido o aumento no número de conflitos entre grupos de ariranhas. Isto porque o território disponível, como rios, lagoas e outros corpos d’água tem diminuído. “Esses conflitos entre os grupos podem resultar em indivíduos bastante feridos. Tornando-os sujeitos a esse tipo de parasitismo”, explica Foerster. 

A pesquisadora explica que além deste fator, a expansão da atividade pecuária no Pantanal também causa o aumento da incidência da Cochliomyia hominivorax. E, por consequência, aumenta o risco da ocorrência entre as ariranhas. Isso porque, como aponta o artigo, a miíase é muito frequente no gado. 

Além da pecuária, a ocupação humana também potencializa a ocorrência de outras doenças parasitárias. “Introdução de animais domésticos, como os cães, que entram em contato com as ariranhas em muitas áreas já mais antropizadas”, acrescenta a pesquisadora. 

Apesar de acreditar que um evento de miíase não seja o suficiente para ameaçar a espécie, a bióloga enfatiza que essa soma de fatores afeta as ariranhas a longo prazo. “Na área em que esse indivíduo foi encontrado existe um monitoramento de ariranhas já há 20 anos, e temos observado o declínio da população ao longo desse tempo”, finaliza a pesquisadora. 

  • Michael Esquer

    Jornalista pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com passagem pela Universidade Distrital Francisco José de Caldas, na Colômbia, tem interesse na temática socioambiental e direitos humanos

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