Notícias

Comunidades lançam Fórum Global e reforçam pressão por reconhecimento político na COP30

Articulação inédita une comunidades de três continentes para exigir reconhecimento formal e participação plena nas negociações climáticas globais

Karina Pinheiro ·
15 de novembro de 2025

Belém (PA) – A COP30 abriu espaço para um movimento inédito: comunidades locais de diferentes regiões do planeta decidiram construir sua própria instância política internacional. O Fórum Global de Comunidades Locais sobre Mudanças Climáticas (GFLCCC), lançado nesta semana em Belém, marca o início de uma articulação que pretende ocupar, com autonomia e força, um lugar historicamente negado nas negociações climáticas da ONU.

O anúncio veio após dois anos de diálogos conduzidos diretamente por organizações comunitárias da África, Ásia, América Latina e Caribe. Esse processo preparou o terreno para a criação do Caucus Internacional de Comunidades Locais, uma estrutura que nasce para fortalecer vozes que há décadas denunciam a ausência de representação formal dentro da UNFCCC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima) ainda que sejam protagonistas na defesa da biodiversidade e na adaptação à crise climática.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Um espaço construído de dentro para fora

Ao contrário das estruturas tradicionais da conferência, o Fórum Global foi concebido pelas próprias comunidades, que definiram princípios, mecanismos de governança e critérios de autoidentificação. Esses critérios incluem vínculo territorial coletivo, inclusive de grupos de mobilidade territorial, autogoverno, ancestralidade, modos de vida que conservam ecossistemas e práticas tradicionais independentes de reconhecimentos estatais.

A coordenação política, que atuará entre 2025 e 2027, será compartilhada entre representantes de Nigéria, Camarões, Nepal, Indonésia, México e Brasil, num modelo que pretende refletir a diversidade e a pluralidade da articulação.

Representação bloqueada há sete anos

A pauta central do Fórum é romper um bloqueio que persiste desde 2018, quando a COP24 reconheceu a necessidade de garantir representação de comunidades locais, mas nunca ativou as vagas prometidas. A frustração acumulada se traduziu em um posicionamento mais firme nesta COP.

“O tempo das promessas passou. Agora é hora de coerência e coragem institucional”, disse o liderança geraizeiro Samuel Caetano. Para ele, não existe justificativa técnica ou moral para a ausência de comunidades locais em decisões que afetam diretamente seus territórios.

Gustavo Sánchez, da Red Mocaf (México), reforça que o Fórum chega maduro:

“Construímos um processo legítimo. Cabe às Partes reconhecerem isso e abrirem os espaços que nos são devidos.”

Cinco pedidos e um recado político

O Fórum entregou uma carta ao presidente da COP30, Embaixador André Corrêa do Lago, e ao Secretariado da UNFCCC com cinco pontos prioritários: reconhecimento institucional do Fórum; abertura de canais diretos de diálogo; participação imediata no processo previsto pela Decisão 14/CP.29; ativação das vagas destinadas às comunidades locais no FWG/LCIPP; e apoio para garantir presença das regiões do Sul Global, onde as barreiras de participação ainda são maiores.

As demandas foram reforçadas em reunião com o Relator Especial da ONU para os Direitos dos Povos Indígenas, Albert Barume, que reconheceu a relevância política da articulação.

Um divisor de águas para a justiça climática

Organizações brasileiras e internacionais avaliam que o lançamento do Fórum pode redesenhar a participação social na governança climática global. Apesar de historicamente marginalizadas, comunidades locais estão entre as mais impactadas por eventos extremos – e entre as que oferecem soluções concretas para a crise.

“Só um espaço autodefinido pode garantir legitimidade real”, afirma Guilherme Eidt, do ISPN.

O Fórum agora mira a consolidação de uma constituency oficial dentro da UNFCCC, além de pressionar por acesso direto a financiamento climático, considerado fundamental para que as comunidades mantenham sua autonomia.

  • Karina Pinheiro

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), possui interesse na área científica e ambiental, com experiência na área há mais de 2 anos.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Colunas
14 de novembro de 2025

Transição no transporte marítimo está em curso e poderá adiantar metas de zerar emissões

Responsáveis por mais de 80% do comércio exterior no mundo, os navios são abastecidos por uma média diária de 225 toneladas de óleo combustível derivado do petróleo

Notícias
13 de novembro de 2025

COP30: semana de debate ampliado sobre riscos climáticos para a saúde

Clamor por soluções nas ruas, anúncios de investimentos governamentais, campanhas pela vacinação em pauta e carimbó fizeram parte da programação

Notícias
12 de novembro de 2025

Lideranças indígenas do Baixo Tapajós pedem diálogo e respeito após confronto na Zona Azul

Em coletiva foi expressa revolta pela falta de espaço nos ambientes oficiais na COP 30 e afirmada intenção de protestos pacíficos

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.