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Estradas já impactam 41% da floresta amazônica, revela estudo do Imazon

Vias cortam 3,46 milhões de quilômetros da Amazônia Legal, o equivalente a 10 vezes a distância da Terra até a Lua. Um terço delas está sobre terras públicas

Cristiane Prizibisczki ·
30 de agosto de 2022

Mapeamento inédito realizado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) mostrou que as estradas já cortam ou estão a menos de 10 km de 41% da área florestal amazônica no Brasil. No total, o estudo identificou 3,46 milhões de km de vias na Amazônia Legal, o equivalente a 10 vezes a distância da Terra até a Lua. O estudo foi divulgado na última segunda-feira (29).

Realizado com auxílio de inteligência artificial, o trabalho mostra que, apesar de a maior parte das estradas estar localizada dentro de propriedades privadas ou assentamentos (67%), um terço fica sobre diferentes categorias de terras públicas (33%).

Dentro destas áreas, a maior parte das estradas está sobre terras ainda “não destinadas” (854 mil km). Ou seja, porções de floresta que ainda esperam destinação do poder público, podendo se tornar unidade de conservação, terra indígena ou outra categoria fundiária. 

Segundo o documento do Imazon, as terras não destinadas possuem um quarto das vias mapeadas em toda a Amazônia (25%), o que provavelmente indica que tais áreas estão sendo pressionadas por crimes ambientais como extração ilegal de madeira, garimpo e grilagem.

Dentro das áreas protegidas – unidades de conservação e Terras Indígenas – foram encontrados 280 mil km de estradas, 8% do total na Amazônia. As unidades de conservação são recortadas por 184 mil km de vias (5%) e as Terras Indígenas, por 91 mil km (3%).

“Mapear e monitorar as estradas é crucial para identificar ameaças à floresta e aos povos e comunidades tradicionais que vivem nela, como indígenas, quilombolas e ribeirinhos”, explica o pesquisador associado do Imazon e coordenador do trabalho, Carlos Souza Jr.

Mapa mostra densidade de estradas na Amazônia Legal (Imagem: Imazon)

O pesquisador é autor de outros estudos com mesma temática. Em 2014, ele já havia publicado um trabalho revelando que para cada quilômetro de estradas oficiais, existem cerca de três quilômetros de estradas clandestinas, e que 95% do desmatamento na Amazônia se concentra em até 5,5 km das vias.

Neste novo trabalho, o primeiro realizado via sensoriamento remoto, a estimativa de Souza Jr e pesquisadores parceiros é que, dos 3,46 milhões de km de estradas abertas na Amazônia Legal, mais de 3 milhões de km sejam de estradas não oficiais.

Onde há estrada, há desmatamento

A maior densidade de estradas está localizada, segundo os pesquisadores, no chamado “arco do desmatamento”, que abrange porções dos estados de Rondônia, Mato Grosso, Tocantins e Maranhão, além de parte do Pará. Densidade é a quantidade de estradas (em km) por km².

Dos estados da Amazônia Legal, Tocantins e Maranhão foram os que apresentaram a maior densidade de vias.

Segundo os pesquisadores do Imazon, ao comparar os resultados encontrados agora com o trabalho de mapeamento realizado em 2016 – este ainda feito de forma manual – foi possível identificar que, atualmente, há mais vias nas regiões chamadas de “novas fronteiras do desmatamento” – sul do Amazonas, oeste do Pará e Terra do Meio, também em solo paraense.

Em relação à quilometragem total, o Mato Grosso aparece em primeiro lugar, com 1,29 milhões de km de estradas, seguido pelo Pará (715 mil km), Tocantins (490 mil km), Maranhão (412 km), Rondônia (310 mil km), Roraima (80 mil km), Amazonas (79 mil km), Acre (53 mil km) e Amapá (25 mil km).

  • Cristiane Prizibisczki

    Cristiane Prizibisczki é Alumni do Wolfson College – Universidade de Cambridge (Reino Unido), onde participou do Press Fellow...

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