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Indústria da carne age para distrair, atrasar e inviabilizar ação climática, diz relatório

Trabalho de organização europeia analisou 22 das maiores empresas de carne e laticínios em quatro continentes

Cristiane Prizibisczki ·
19 de julho de 2024 · 2 anos atrás

Relatório divulgado esta semana pela organização holandesa Changing Markets Foundation revela o que seriam as principais práticas empregadas sistematicamente pelos gigantes mundiais da carne e dos laticínios que resultam em distração, atraso e inviabilização do enfrentamento da crise climática. Intitulado “Os novos comerciantes da dúvida”, o trabalho analisou as ações de 22 das maiores empresas de carne e laticínios do mundo – incluindo a brasileira JBS – em quatro continentes.

Segundo o relatório, o setor tem inviabilizado ações climáticas significativas a nível global por meio de lobby junto a políticos, investimentos maciços em publicidade para públicos mais jovens e uso de ciência enganosa para minimizar o impacto que suas atividades têm nas emissões de metano e disseminar falsas alegações climáticas. 

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Documentos obtidos via leis de acesso à informação revelam, por exemplo, o extraordinário acesso que o setor tem a políticos. Somente na última década, representantes da indústria da carne e laticínios tiveram mais de 600 reuniões de alto nível com a Comissão Europeia.

“Memorandos internos revelam como o principal grupo europeu da indústria láctea celebrou a manutenção do metano fora da legislação sobre qualidade do ar e está a preparar-se para mantê-lo assim nas próximas revisões da lei previstas para 2025”, diz trecho do relatório.

Fazendo uma comparação às táticas usadas pelas indústrias do tabaco e dos combustíveis fósseis, o relatório também revela que as grandes empresas do setor empregam táticas como a intimidação e o medo sobre consumidores e pequenos agricultores, ao alegarem que leis mais restritivas, por exemplo, implicariam em prejuízos para tais públicos.

A pesquisa envolveu mais de 15 investigadores especializados e jornalistas de investigação e decorreu entre fevereiro de 2023 e junho de 2024. 

A investigação mostra que as grandes indústrias do setor estão especialmente preocupadas com as gerações mais jovens, que consomem menos carne e laticínios do que as gerações anteriores. Elas visam, diz o documento, a “Geração Z” (nascidos entre 1995 e 2010) com campanhas publicitárias enganosas no TikTok e no Instagram, promovendo falsamente a carne e os laticínios como escolhas sustentáveis ​​e mais saudáveis ​​em países de alto consumo como os EUA e o Reino Unido, contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Os sistemas alimentares contribuem para aproximadamente um terço das emissões globais, sendo 60% provenientes da pecuária – a maior fonte de metano produzido pelo homem. No entanto, apenas 15 das 22 grandes empresas de carne e laticínios têm uma meta de emissões líquidas zero e nenhuma cumpre as normas da ONU. A Danone é a única empresa com uma meta específica de metano. 

“Tivemos as Grandes Indústrias do Tabaco, tivemos as Grandes Petrolíferas, agora temos as Grandes Carnes e Laticínios. ‘Os novos comerciantes da dúvida’ é uma exposição impressionante das táticas das grandes empresas de carne e laticínios. O relatório descreve exemplos específicos e flagrantes de campanhas de desinformação, greenwashing e interferência política. Esclarece como a indústria manipula o preço e os tipos de alimentos que comemos”, diz o pesquisador Paul Behrens, Professor Associado de Mudanças Ambientais na Universidade de Leiden, na Holanda. 

  • Cristiane Prizibisczki

    Jornalista com quase 20 anos de experiência na cobertura de temas como conservação, biodiversidade, política ambiental e mudanças climáticas. Já escreveu para UOL, Editora Abril, Editora Globo e Ecosystem Marketplace e desde 2006 colabora com ((o))eco. Adora ser a voz dos bichos e das plantas.

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