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Pantanal: resgate de jacarés e o fim deste blog

No nosso último dia no Pantanal matogrossense, acompanhamos uma mega operação do GRAD, IBAMA, Brigada Pantanal Norte da SOS Pantanal e Ecotrópica para translocação de jacarés

Leandro Barbosa · Victor Del Vecchio · Gabriel Schlickmann ·
20 de setembro de 2021

Nosso último dia tinha uma programação mais leve e menos emocionante, justamente para já encaminhar o fim de nossa jornada, que até então, vinha sendo bastante exaustiva. Acordar antes do sol nascer, muitas horas de estrada e barco, temperaturas elevadíssimas, ar seco, poeira, fuligem, voltar para a base e preparar material, inclusive esse diário que, com muito carinho, mas em geral muito cansados, escrevemos, tudo isso numa toada de 15 dias sem interrupção, sem final de semana.

Ocorre que, no Pantanal, devemos estar prontos para adversidades, mudanças de rota e surpresas que podem surgir na rotina. E assim foi: quase de madrugada, ficamos sabendo que às 6h da manhã seguinte haveria uma mega operação de translocação de jacarés de um corixo praticamente seco, debaixo da Ponte 3 da Estrada Transpantaneira, para o Rio Pixaim, a alguns quilômetros dali.

Foram resgatados os jacarés mais debilitados. Foto: Gabriel Schlickmann.

A ação envolveu as equipes do GRAD (Grupo de Resgate de Animais em Desastres), IBAMA, Brigada Pantanal Norte da SOS Pantanal e Ecotrópica, que trabalharam em sincronia na captura, condicionamento e soltura dos animais. Tudo começava com a identificação dos espécimes mais debilitados, com menor Escore de Condição Corporal, índice subjetivo avaliado, entre outras formas, através da visualização de deposição de gordura e cobertura muscular no animal. Em muitos dos indivíduos, era nítida a magreza, com protusões do esqueleto e depressões das áreas onde deveria haver tecido muscular e adiposo.

Identificados os jacarés mais magros, eles eram então capturados, trazidos para fora da água, amarrados nas patas traseiras e na boca. Na sequência, as equipes os levavam para tomar soro e polivitamínico. Após isso, eram colocados na parte traseira do veículo que os transportou, onde ficaram com olhos vendados, no ar-condicionado e cobertos com cobertores constantemente umedecidos, visando minimizar o estresse dos animais.

No momento da soltura, as equipes conduziam os animais até a beira do rio, manuseando-os sempre vendados, tiravam as amarras das pernas e, por último, a da boca. Assim que os animais eram soltos, tomavam alguns minutos e então entravam na água, onde logo foi possível vê-los nadando, coisa que não faziam há semanas, talvez meses, devido à secura e baixo nível de água dos corixos. 

Somente neste dia foram 25 jacarés, o que tomou um dia inteiro, com a operação iniciando logo no início da manhã e acabando no pôr do sol. A estimativa é que pelos próximos 2 ou 3 dias ainda haja mais translocações, para garantir que ao menos os animais mais debilitados sejam manejados. Liberado o último jacaré, nos despedimos das equipes e partimos rumo à Cuiabá, onde dormimos nossa última noite antes de embarcar de volta para a casa.

Foto: Gabriel Schlickmann.

Com esse evento raro e emocionante nos despedimos da primeira etapa de nossa empreitada no Pantanal, e assim também encerramos este diário. Gostaríamos de, em nome da equipe formada por Leandro Barbosa, Gabriel Schlickmann, Victor Del Vecchio e Lina Castro, agradecer a todas as pessoas que nos acompanharam até aqui, ao O Eco, por fazer nosso trabalho chegar mais longe, e também às pessoas que divulgaram nossos materiais e apoiaram nosso financiamento coletivo, tornando essa missão possível. 

Captamos muito material e agora vamos tratá-lo para produzir um minidocumentário sobre o que cobrimos nestes dias. Fizemos a opção de, diante da urgência de estarmos em campo, partir sem o valor total arrecadado, de modo reiteramos que o financiamento segue aberto e ainda precisaremos cobrir os gastos da viagem que devem chegar e os que ainda virão, como edição, limpeza e manutenção de equipamentos, entre outros. O link do Catarse pode ser acessado e a contribuição feita, assim garantiremos a continuidade e máxima qualidade no trabalho.

Não deixem de continuar acompanhando nossos trabalhos nas redes pessoais de cada um!

Muito obrigado, e até a próxima!

Galeria: Cenas de um resgate

Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Foto: Gabriel Schlickmann.
Enfim, água. Foto: Gabriel Schlickmann.

Pantanal ameaçado é um projeto de Leandro Barbosa, Victor Del Vecchio, Lina Castro e Gabriel Schlickmann, financiado coletivamente e que conta com o apoio da iniciativa Observa-MT.

  • Leandro Barbosa

    Jornalista, com publicações nos jornais The Intercept Brasil, Ponte Jornalismo, Globoplay, El País Brasil, UOL, Yahoo, Agência Pública e na revista americana Atmos

  • Victor Del Vecchio

    Advogado e mestrando em Direito Internacional pela USP, professor da Casa do Saber

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Comentários 1

  1. Katlin Fernandes diz:

    Parabéns pelo importantíssimo trabalho! Boa sorte na jornada, pra vocês e para os animais resgatados!